quarta-feira, julho 10, 2013

O milagre de S. Clemente?

 
Como se sabe, no decurso da História, muitos foram os momentos em que a Igreja de Roma se cruzou com os destinos de Portugal.
 
Desde logo, no acto fundador da nacionalidade. Afonso Henriques assumiu o Reino de Portugal em 1128, mas apenas decorridos 15 anos, em 1143, através da assinatura do Tratado de Zamora, é reconhecida a nossa independência por parte de Afonso VII, rei de Leão.
 
Foi determinante, no contexto histórico, o primado espiritual e temporal que o Papa exercia na Idade Média, suserano de todos os reinos europeus. Afonso Henriques ofereceu o Reino de Portugal à Igreja de Roma, declarou-se vassalo do Papa e prometeu um pagamento em ouro, ad aeternum, de um tributo feudal.
 
Não, por certo, sem que antes tenham sido regateadas algumas cláusulas, pois que apenas em 1179, o Papa Alexandre III, aceita definitivamente D. Afonso Henriques como rei de Portugal e reconhece a independência de reino.
 
Sem mais retorno nos vínculos estabelecidos. Por exemplo, na sequência da restauração da independência, em 1640, D. João IV, num gesto submissão à igreja, colocou a coroa régia na imagem da Virgem Maria. A partir de tal gesto, nunca mais nenhum Rei de Portugal usou coroa. Em contrapartida, a igreja Católica, deliberou que o dia 8 de Dezembro fosse feriado religioso, dedicado á Imaculada Conceição, entretanto, proclamada Rainha de Portugal.
 
Permito-me evocar estes longínquos acontecimentos, porque episódios recentes fazem acreditar que, ainda hoje, as instituições portuguesas são tributárias dessa relação de suserania, que está na matriz da fundação do País e que, de alguma forma, moldou, num tempo longo, as relações com a Igreja Católica.
 
Bem sabemos que a Revolução de 25 de Abril procurou nova configuração das relações com a Santa Sé. A Concordata, assinada no auge da afirmação poder da dupla Salazar/Cerejeira, foi substituída por um novo instrumento diplomático.
 
Por outro lado, o instituto da família, com forte influência do pensamento católico, foi profundamente revisto, seja na consagração de igualdade dos cônjuges, seja na instituição do divórcio ou na interrupção voluntária da gravidez. E até, mais recentemente, sem grandes conflitos, na instituição do casamento de pessoas do mesmo sexo.
 
Mas, sobretudo, com o 25 de Abril, quebrou-se o vínculo orgânico, mediante o qual o regime salazarista restituiu à Igreja Católica o poder e a força que a 1ª República lhe havia retirado, em troca da base da sustentação do regime, traduzida nos milhares de fiéis, que foram o fermento dos consabidos “bandos costumes” dos portugueses, de que Salazar se vangloriava.
 
Em troca, portanto, da cumplicidade activa da Igreja Católica, que – honra às excepções! – se pautou pela cómoda atitude de não ver, não reagir,  não questionar, nem protestar perante os crimes e atropelos do regime salazarista.
 
Outros os tempos, hoje, sem dúvida. Tempos de um Estado laico e de uma Igreja Católica mais comedida e em maior consonância com os ventos da história. E, porventura, sinceramente mais identificada com os dramas e as angústias do tempo presente.
 
Por isso, se torna mais difícil compreender algumas emanações desse caldo cultural de dependência, que por vezes irrompem no quotidiano da nossa vida política. Não tanto pela imposição das autoridades eclesiásticas, que naturalmente não desdenham vénias, nem salamaleques. Nem prebendas...
 
Mas, sobretudo, pela falta de rigor, de equilíbrio e sentido de estado das personagens que transitoriamente ocupam os órgãos de soberania, a quem cumpre velar pelo prestígio das instituições da República e pela equidistância religiosa de um verdadeiro Estado laico.
 
De facto, fará algum sentido, para além da costumeira solicitude da televisão pública, que numa cerimónia de estritamente religiosa, como foi a entronização do novo Patriarca de Lisboa, tivessem caído (sem ironia) no Mosteiro dos Jerónimos os mais altos representantes do Estado, acompanhados por luzidios séquitos, desde o Presidente da República, Presidente da Assembleia da República e Primeiro-ministro?
 
Será que esperam o milagre da redenção no beija-mão ao novo Patriarca de Lisboa? Ou que os aplausos, vindos das naves do templo, irão sarar a amargura do isolamento e do desprezo que a sociedade portuguesa, em geral, lhes dedica?
 
Se assim for, bem poderão dizer que, (não Paris, nem sequer Lisboa), mas o olhar compassivo e tolerante de D. Manuel Clemente “merece bem uma missa”...
 
 
10-07-2013
 
Manuel Veiga
  

8 comentários:

O Puma disse...

Portas não se demitiu
pediu a demissão
Os tipos não beijaram a mão de D.Clemente
só o anel
e Cavaco coveiro da sua urna
insiste em ficar na história
de Boliqueime
A malta dos subúrbios de tudo
procura uma zona protegida
ainda não discerniu
que pode tudo
nas ruas - mas também nas urnas

Lídia Borges disse...


Santidade, tanta! Negro, o Mar!


Lídia




lino disse...

Excelente texto! Os aplausos foram uma vergonha de que o novo Patriarca se deveria ter demarcado na entrevista à esganiçada.
Abraço

jrd disse...

Belo texto meu Caro.
Foi o D. Clemente que disse que as eleições não são convenientes.
Se calhar porque tem receio da cor do fumo que vai sair delas...

Abraço

lis disse...

Nunca sei comentar seus textos heretico mas acompanho contrita cada momento político religioso ou babilônico e vou aprendendo contigo e me solidarizando assinando embaixo tudo que quiseres ok? rs
Dizem que S.Clemente era mesmo um fazedor de milagres , por aqui é tal a esculhambação que virou nome de escola de samba ... rs
Um abraço kirido meu,
bons dias obrigada pela amizade além-mar.

Maria João Brito de Sousa disse...

Muito negro, o mar, sublinhando o comentário da Lídia...

Abraço!

maceta disse...

O interessante é que nunca perdem pitada para meter o bedelho na política.Não que não tenham o direito à opinião ( longe disso), mas porque adoram uma certa intromissão...

Maria Luisa Adães disse...

São esses eventos que eu não entendo!

O porquê do aparato e da vaidade...

Maria Luísa