quinta-feira, agosto 08, 2013

O Rosto Decadente do Capitalismo...

 


 
Em meados de Julho, no Estado de Michigan, (EUA), a cidade de Detroit foi declarada em bancarrota. Como se sabe, quando estão em jogo poderosos interesses económicos, a democracia fica na gaveta e, em consequência, foi nomeado um administrador da cidade, que dispensou naturalmente a realização de eleições.
 
Mandatado pelos bancos, com desembaraço, o expedito “administrador de emergência”, recrutado entre os quadros da Wall Street, apressou-se a declarar que, se a cidade, pretendia pagar a dívida de 20 mil milhões de dólares, não poderia continuar a ser pagas reformas e pensões, nem seguros de saúde.
 
Importa esclarecer que Detroit não é (era?) uma cidade qualquer. Esta metrópole foi considerada, após a 2ª Guerra Mundial, como “cidade motor dos EUA” e, em muitos aspectos, foi proclamado modelo do desenvolvimento capitalista.
 
Foi a quarta maior cidade norte americana, com quase dois milhões de habitantes, profundamente ligada à indústria automóvel, sede das doze empresas mais ricas do mundo, entre elas a General Motors e a Ford. Em 1960, com uma força de trabalho altamente qualificada de 300 mil postos de trabalho, a cidade gerava o maior rendimento per capita dos Estados Unidos.
 
Chegou agora aquilo que alguma imprensa norte americana designa pelo “truque da bancarrota”. Nada que o capitalismo não pratique em todo o Mundo. As “falências” constituíram sempre e continuam a ser, como os portugueses bem sabem, pretexto para ataque feroz aos direitos sociais e políticos dos trabalhadores, pensionistas e dos cidadãos em geral.
 
No caso da cidade de Detroit, os dois milhões de pessoas, que há poucos anos, constituíam a sua população, estão hoje reduzidos a 700 mil habitantes, mais de metade dos quais se encontram desempregados. A pobreza e a miséria grassam. Velhos e crianças são as maiores vítimas.
 
Como se sabe, com a crise capitalista declarada em 2008, o sistema financeiro norte-americano (e europeu) foi salvo com milhares de milhões de dólares de apoios e subsídios estatais, pagos naturalmente pelos contribuintes. Mas quando se trata da vida, do trabalho e do bem-estar dos cidadãos a “lógica” do sistema funciona de outra maneira. Os bancos credores lançam-se como abutres sobre o corpo exangue da cidade e sugam até a medula “os salvados” do naufrágio económico, de que são os responsáveis imediatos.
 
Com o colapso das receitas dos impostos e na falta de apoios do Orçamento Federal, tão pródigo para o sistema financeiro, o orçamento da cidade entrou em derrapagem; os obscuros contractos (entre os quais os célebres swaps) e as taxas de juro dos “produtos financeiros”, manipuladas ao sabor dos interesses dos bancos credores, estrangularam a pujante vida económica de outrora e tornaram impossível a vida naquela urbe.
 
Em muitos aspectos, a cidade de Detroit é descrita como uma cidade fantasma. Os cortes no orçamento da cidade, tem consequências inimagináveis nas despesas sociais: 60% das crianças em situação de extrema pobreza, redução a 40% da iluminação pública, esquadras de polícia encerradas, serviços de educação e saúde degradados.
 
Cerca de um terço da superfície urbana da cidade ocupada por prédios desabitados e em ruínas...
 
Como se compreende, a degradação da vida da cidade provoca e acelera a fuga da população para outras paragens, reduzindo a base material da recuperação económica e o volume das receitas fiscais e aprofundado assim a espiral depressiva para onde a cidade de Detroit foi lançada.
 
Entretanto, Wall Street e os gigantes financeiros, que integram os bancos credores (UBS, Banks of América, Merill Lynch, JP Morgan) sugam as entranhas da cidade...
 
Até obras de arte dos museus são leiloadas para saciar a gula vampiresca...
 
ver aqui
 
 
 

5 comentários:

Anónimo disse...

Boa noite.
Já tinha tomado conhecimento.
Uma fantástica publicação.
No passado fui convidado por um amigo para comprar em Detroit uma vivenda pelo simbólico preço de um dólar.
Quantas vidas devastadas...
Os "altos" e "baixos" da América!
O que será de Portugal?

jrd disse...

Uma situação premonitória do que poderá acontecer ao "El dourado".
É caso para dizer "uma vez na América"...

Abraço fraterno

Anónimo disse...

Terá de se conhecer AS CARAS dos que engordam com a miséria dos outros. Dar-lhes nomes, apontá-los. Não são (só)um grupo de capitalistas e usurários: tem rosto, famílias, casas.
São dias escuros, obscuros. De luto pela humanidade, de luto pelos que conhecemos, aqui (como hoje pela morte de UTR) - e ali pelas vidas destroçadas.
Penso que "tudo há-de mudar" mas não será para o meu tempo: e tenho pena. Vivi profunda e alegremente como muitos de nós, o sonho de Abril. Sobrevivo mal a esta guerra suja.
(obrigada pela companhia no blog, meu caro, a minha indignação é indizível).
Abç da bettips

© Piedade Araújo Sol disse...



:(

Menina Marota disse...

Os contrastes americanos... que também são visíveis nos soldados americanos que estiveram no Iraque e no Afeganistão e que quando retornaram aos Estados Unidos com ferimentos graves e membros amputados queixam-se de receber pouco apoio do governo enfrentando ainda sérias dificuldades de conseguir emprego e ajuda médica.
Ninguém fala disto.
Um país que se arvora em dono do mundo, que invade outros quando lhes "cheira" a petróleo e depois desculpa-se com a posse de armas nucleares que nunca são descobertas, o que podemos esperar da sua "moralidade"?