sexta-feira, outubro 11, 2013

"VENDER O CORAÇÃO E O SORRISO..."

 
Num artigo recente, publicado no jornal “Público” (06.08.13) o jornalista José Victor Malheiros traz  AQUI com oportunidade, ao conhecimento da opinião pública um caso exemplar da exploração capitalista e da “alienação do trabalho”, das quais o capitalismo sempre se alimentou, mas que, na actual fase do desenvolvimento histórico, assumem expressões inauditas, para não lhe chamar abjectas.
 
Casos assim e outras contradições de natureza idêntica, em que o capitalismo, na sua dinâmica actual de híper exploração do trabalho, têm fomentado, em alguns meios, a ideia do declínio irreversível do capitalismo, uma vez que já não consegue disfarçar a necessidade de, para sobreviver, ter de “cortar o galho onde se senta”...
 
Não sei, não! Talvez seja um pouco prematuro contar com a sua morte anunciada. E mais sensato será de, pelo sim e pelo não, procurar, cada um à sua medida, dar um empurrãozinho, antes de se prometer uns trocados para o seu funeral. Mas não é este o assunto que aqui me traz agora, aliás exterior ao conteúdo do artigo referido.
 
Regressando assim ao tema, procurarei condensar, em poucas linhas, as suas ideias centrais, que ilustram, de forma eloquente, a dinâmica da exploração e dos subtis fios do enredo em que se degrada em mera “coisa” a dignidade trabalho.
 
De que se trata? Os empregados de uma cadeia mundial de fast food ostentam nos seus uniformes um reluzente “I´ lovin´it” , o que em tradução literal significa “adoro isto”, “estou a gostar disto” e, em denotação semântica ou tradução mais livre, poderá  corresponder a algo como “isto é porreiro”, ou “este trabalho dá-me mesmo gozo”.
 
O que existe de peculiar nesta campanha é que não “vende” directamente o produto, enunciando as suas qualidades, ou os atributos da marca, ou as suas vantagens competitivas. O slogan foi “colocado na boca dos trabalhadores, criado para que fossem eles a dizê-lo, como se eles o pensassem e o sentissem”.
 
Não se trata apenas de uma obrigação contratual, que vincule o trabalhador a defender o nome da empresa, como é prática corrente. Agora, não. Quem vai trabalhar para a multinacional em causa não tem apenas que fazer o seu trabalho, ou cuidar de reputação da empresa - “tem de dizer que adora trabalhar ali, ainda que o seu trabalho seja duro, mal pago e precário”.
 
Como se afirma no citado artigo, “este “I´ lovin´it” obriga todos trabalhadores a declararem activamente, a todo o tempo o seu gosto pelo trabalho que fazem e a sua adoração sobre a empresa que os emprega e a fazê-lo em nome pessoal”.
 
Trata-se, portanto, de “uma usurpação da consciência individual” (...). “É um abuso – continua o artigo - em termos de direitos individuais (...) porque limita a liberdade do indivíduo e se apropria em benefício do empregador, de algo que é da esfera privada do trabalhador: o seu gosto pessoal, a sua liberdade de declarar o que gosta ou não gosta”.
 
Vemos assim a empresa "apropria-se da alma e do coração das pessoas, que para ela trabalham", como quem as marca com um ferrete: “estas pessoas pertencem-me”. Como meras coisas ao dispor... Os trabalhadores são assim usurpados, já não apenas do seu próprio trabalho, condição de sobrevivência e cidadania, mas também da sua própria personalidade e dignidade.
 
Neste contexto, julgo ser ainda de referir que, apesar da cada vez maior produtividade do trabalho, graças às tecnologias, a evolução tem sido sempre no sentido de aumentar o tempo de trabalho, isto é, cada vez menos trabalhadores a trabalharem cada vez mais.
 
Assim, o mais dramático da situação actual e o pior mal que o capitalismo faz aos homens não será apenas a exploração e alienação do trabalho - mas também a expulsão do processo produtivo de cada vez maiores massas humanas.
 
Que outro nome para a escravidão?
 
 
 

9 comentários:

Rosa dos Ventos disse...

Era o que eu estava para escrever...
Estão a fazer destes trabalhadores meros escravos com ferrete e tudo!

Abraço

jrd disse...

A essa como a todas as outras cadeias, o melhor se poderia fazer era dar-lhe um tiro certeiro:

http://bonstemposhein-jrd.blogspot.dk/2013/08/fogo-nela.html

Abraço

Rogério Pereira disse...

"mais sensato será de, pelo sim e pelo não, procurar, cada um à sua medida, dar um empurrãozinho...OU UM EMPURRÃOZÃO!

Luis lourenço disse...

ah, meu caro!

Acutilante como os imperativos da vida...Obrigado por partilhares. Tanta ficção...Na corrente da produção-se o capital não valorizar o trabalho e a dignidade do trabalho-é uma questão de tempo para o seu enterro também.

Grande abraço,

Véu de Maya

Helena disse...

Ontem à noite, numa loja de brinquedos, uma amiga que eu bem sei está sofrendo com problemas familiares e de saúde, comentou que estava dobrando o turno, pois uma colega havia faltado e a firma nunca se estruturava para uma substituição, sacrificando assim quem já estava desde 9 horas em pé, atendendo os pais e suas crianças, um público muitas vezes exigente, enquanto os seus próprios filhos estavam aos cuidados de uma babá. E mais ou menos nesses termos, se expressou: e ainda tenho que abrir um enorme sorriso para o público, porque o 'chefe' assim exige, mesmo que meu coração esteja morrendo por dentro. O salário é pouco, mas a gente precisa botar comida na mesa e educar os filhos, e ainda agradecer a Deus por ter um emprego, mesmo que seja nestas condições. E com um pesaroso sorriso acrescentou: quem manda eu não ter tido condições de frequentar uma faculdade, para pleitear um emprego melhor?
E agora, lendo o seu artigo, fico pensando: uma condição vergonhosamente escravagista, do corpo e da alma.
Não existe neologismo nem metáforas que elimine essa vergonha social... é mesmo ESCRAVIDÃO! Situação que se repete tanto em multinacionais quanto em empresas/firmas de pequeno porte, pois ao patrão só interessa o lucro, nada mais.
Com este alongado comentário, despeço-me, deixando um sorriso (meio triste) pelo tema abordado hoje, e os votos de um final de semana que te chegue com tudo de bom que almejas e mereces.
Helena

lino disse...

Esta é a "democracia" a que temos (pouco) direito!
Abraço

Mel de Carvalho disse...

concordo que seja até uma forma de escravidão. mas haverá maior escravidão que não ter sequer um local para vestir a camisola, ostentar um sorriso e, de uma forma digna, ganhar o
"pão que o diabo amassou"??

e são milhões os novos escravos e, o caudal, em crescente, parece não estancar tão cedo.

excelente análise, contudo, e sem dúvida.

gratíssima pela partilha
Mel

Lídia Borges disse...


É chocante!...

Ajudemos "a cortar o galho onde se sentam."

Lídia

G- Souto disse...

Não tem...

Infelizmente é uma política de marketing cada vez mais utilizada a nível mundial. E também no nosso país.

Como se já não bastassem tantas 'escravidões' camufladas de 'ideais'.

Beijo 'Herético'

(sensibilizada por voltares a 'Fragmentos' depois da minha longa ausência. Tua amizade faz-me bem.)