quinta-feira, novembro 14, 2013

O DESPREZO PELOS MANIFESTANTES DA CGTP - JOSÉ PACHECO PEREIRA



“Uma coisa que mostra como quem está do lado do poder não percebe (ou melhor não quer perceber), o que está a acontecer em Portugal, é o modo como exibem um racismo social com os manifestantes da CGTP, tão patente nos comentários à saga da ponte. Pode não ser deliberado, mas sai-lhes do fundo, naturalmente.
 
Os filhos dos comentadores e opinadores podem ir às manifestações dos “indignados”, que são aceitáveis, engraçadas e chiques, e que tem muita cultura e imaginação, mas nenhum irá às da CGTP. Eles “são sempre o mesmo”, ou “mais do mesmo”, eles são “pouco criativos” que insistem em fazer manifestações “que não adiantam nada”. Eles são “os feios, os porcos e os maus”.
 
Os manifestantes da CGTP não são da classe social certa, não ambicionam ir tomar chá com Ricardo Salgado, ou ir comer aos restaurantes da moda, não são frequentáveis e, ainda pior, não se deixam frequentar.
 
Têm, muitos deles, uma vida inteira de trabalho e de muitas dificuldades. Tem um curso, uma pós-graduação e um doutoramento em dificuldades. São velhos, um anátema nos nossos dias. Tiveram ou tem profissões sobre as quais os jornalistas da capital não sabem nada, foram corticeiros, mineiros, soldadores, torneiros, mecânicos, condutores de máquinas, pedreiros, ensacadores, motoristas, afinadores, estivadores, marinheiros, operários têxteis, ourives, estofadores, cortadores de carnes, empregados de mesa, auxiliares educativos, empregadas de limpeza, etc., etc.
 
Foram e são cozinheiros e cozinheiras em cantinas, e não chefs. E foram ou são, professores, funcionários públicos, enfermeiros, contabilistas.
 
Este desprezo social é chocante quando é feito por quem tem acesso ao espaço público e que trata os portugueses que se manifestam, - e, seja por que critério, são muitos, pelo menos muitos mais, muitíssimos mais dos que estariam dispostos a vir para rua pelo governo, – como uma “massa de manobra” do PCP, que merece uma espécie de enjoo distanciado, umas ironias de mau gosto e um gueto intelectual (...)”
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7 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

"Os manifestantes da CGTP não são da classe social certa, não ambicionam ir tomar chá com Ricardo Salgado, ou ir comer aos restaurantes da moda, não são frequentáveis e, ainda pior, não se deixam frequentar."

Há muito não via escrito o termo "classe"... por gente da classe de JPP.

Helena disse...

Quando o povo resolve deixar de lado a letargia, assumida muitas vezes por receio de retaliações, e resolve ir às ruas para dar voz a sua indignação e reclamar seus direitos, encontra sempre o embargo daqueles que sempre estiveram dispostos a calar essa multidão poderosa composta de gente humilde, trabalhadora e por isso temem que a voz de muitos possa fazer um eco tão profundo que os obrigue a tomar atitudes que na certa irão contra os próprios interesses. Há que se fazer ouvir e sabemos que estas manifestações de alguma forma trazem frutos. Veio-me à mente os versos de uma das nossas mais tradicionais canções de protesto.
“Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer”

Fica meu apreço,
Helena

Rosa dos Ventos disse...

Este JPP deixa-me sempre de pé atrás...faz elogios de forma muito estranha!

lino disse...

Às vezes o JPP escreve coisas acertadas!
Abraço

jrd disse...

Conseguiste que eu lesse JPP e, sobretudo, concordasse com ele.

Abraço

maceta disse...

é que gente fina é outra coisa...ó lá se é...

jorge esteves disse...

Não é dos meus hábitos ler o que Pacheco Pereira escreve; ou ouvir o que ele diz. Mas, por teu conselho, li. E está lido.
abraço, amigo.