quarta-feira, novembro 06, 2013

VESTE-SE O OUTONO DE MOSTOS...


Veste-se o outono de mostos e fermentam
Sabores na glória dos frutos que as bocas
Salivam
Tão maduras
Que se desprendem
Como promessas em zénite
Atordoadas em mel
Quais corolas
Soltas em voo de línguas suculentas...

Impúberes os sonhos. Ainda
Que humedecem os olhos
De tão claros.

Azul
Na vertigem
E no alvoroço
Cinzento na hora da chegada
Como restolho depois do dia
Ou despojos
Diurnos
Antes da noite
E do frio...

De nada vale o doirado das vinhas
Nem a plangência do sol
Nem o vigor íngreme
Dos passos
Na cadência das montanhas.

Nem a vindima.
Nem os cestos...

O outono é esta memória cálida
Fogueira onde soletro meu corpo aceso
E cato meu piolho (existencial)
E minha sarna...

Dulcíssima flama em que me embalo...

13 comentários:

jrd disse...

Belíssimo!
Um deslumbramento poético.
Abraço

Helena disse...

"Veste-se o outono de mostos"
E eu me visto com estes versos que me encantam o olhar e perfumam o coração.
Sorrisos e estrelas nos teus caminhos.
Helena

O Puma disse...

Ao Outono falta-lhe os relâmpagos
ao teu poema não falta nada
Belíssimo poeta amigo

© Piedade Araújo Sol disse...

o outono cheira a mosto e à beleza do poema que deslumbra quem é o lê...

:)

Rosa dos Ventos disse...

E até mim chegam os doces aromas do celeiro da minha avó paterna, onde havia cachos de uvas pendurados nas traves do tecto e tabuleiros cheios de maçãs, peras, figos...

Abraço

Lídia Borges disse...


Fico a ler, a reler...
Para aprender, do outono, a música, a melancolia, o brilho da voz que o assim o canta.

Um beijo

GL disse...

Resta-me?
O silêncio resultante da beleza das palavras.

Abraço.

alfacinha disse...

Poema adorável
cumprimentos de Antuérpia

Mel de Carvalho disse...

a sua escrita, caríssimo Herético, em especial a poesia, é, inequivocamente, e toda ela, leigada de um enormíssimo calibre literário, que não será alheio, seguramente, a uma vida repleta de grandes mestres. lê-lo, por conseguinte, é sempre um enorme aprendizado.

belíssimo poema. grata,
fraterno abraço

Mel

Red Angel disse...

As palavras também carregam beleza... Para quem as sente!

Graça Sampaio disse...

Que força! Gostei (até porque não "morro de amores" pelo outono...)

lis disse...

O outono é essa delícia de poesia heretico, um convite a debruçar sobre seu pensamento...'antes da noite e do frio'
_tardes mornas céu mais azul folhas amadurecendo e a sua veia poética soletrando também no meu corpo que aceso está a espera de um verão que fatalmente chegará ofuscando as cores com excessos de luz.
Sou bem mais essa 'dulcíssima' labareda que te embala
rs
abraços abraços muitos abraços e obrigada por permitir que escreva o que bem quero por aqui no seu espaço sempre acolhedor.

G- Souto disse...

Sabes como gosto do teu 'poetar'! Lindo, sinestesias soberbas ( o outono é a estação de excelência para tal), mas é preciso sensibilidade e arte! E tu tens !
Um quase nada 'ácido', o mosto, na coda...

Beijo