quarta-feira, fevereiro 26, 2014

EPIFANIA DOS DIAS CLAROS...


Somos destroços entre objectos e as coisas
Que se instalam no âmago e nos devolvem a aparência
Como imagem especular de urgências
Multicores...


Ajoelhamos perante novos deuses e sacrificamos
Mansidões no lugar geométrico da Abundância.
Novos jardins de Canaã lambendo os dedos
E olhos esventrados na luz fria dos néons.


E calcorreamos o tempo, acorrentados. Novos altares
Erguidos no fervor do Mesmo - cacofonia de uma Festa
De que perdemos razão e rasto.


Sons e cores apenas. Esbracejantes. Sobras
Do festim com que novos ritos se adornam
Na celebração do Excesso...


É neles que reina a divindade e se erguem catedrais
Em seu louvor e culto. São eles a grande Metáfora
Que abocanha. E a Cloaca...


Espectros vivos em cerimonial de nados-mortos.
Somos amontoado e panóplia.


E o Espectáculo.


E a euforia do Crepúsculo
E a pletórica profusão da Mercadoria
Como desenho quimérico do Mito
Demiúrgico...
.......................................................................
Importa redimir a inocência das coisas
E libertar a palavra deserta. E no rosto solar dos homens
Estilhaçar o Espelho e verter o vento.

E as mãos doridas. E o barro amassado.
E a dores do parto.

E na imanência redentora das sombras
Escutar a subtil Diferença.
E alargar espaços onde os dias sejam
Claros.

Manuel Veiga

 

 

16 comentários:

Laços e Rendas de Nós disse...


Conseguiremos?

Beijinho

(gostei e gostei)

Mar Arável disse...

Li-te ao som do Paco de Lucía

que falava por gestos
Abraço

jrd disse...

Um espanto!
Vai ser a partir das sombras que havemos de rasgar os dias,
Abraço Irmão Poeta

Anónimo disse...

Entendi as suas palavras.
Todas, sem excepção.
É um poema forte, para assinalar na memória.
Parabéns por dar vida à poesia!

lis disse...

Manifestações essas que vamos 'amontoando' em dias nem tão claros...
Confesso que quase sempre são os meus 'olhos da alma' que me ajudam a entender seu poema, rs.
E é como dizia Olavo Bilac : _ 'que sentido tem o que dizem os poetas ,quando 'não' estão contigo? _ e vos direi 'amai para entende-los..." ( é o que faço) rs
Continuemos a 'alargar espaços' heretico mesmo crendo nessa letra:
... 'não há tempo suficiente/não há nenhuma música que poderia cantar/não há uma combinação de palavras pra dizer que possa resolver/mas ainda assim vou te falar uma coisa /Somos melhores juntos."
Adoro quando seu lado poeta aflora do lado de cá,
brigadinho, e beijos

© Piedade Araújo Sol disse...

um dia os dias serão claros,

um dia!

:)

ॐ Shirley ॐ disse...

E assim, todos vamos caminhando...
Beijos, querido amigo heretico!

maceta disse...

por entre as margens dos sentimentos dispersos se vão largando os desejos...os sonhos.

Lídia Borges disse...


"Esbracejantes" palavras que não quebram às mãos vorazes do vento.

Escutemos a "subtil Diferença"...

Um beijo

Teresa Durães disse...

"Ajoelhamos perante novos deuses e sacrificamos"

será talvez o mais assustador

Ana Tapadas disse...

Nem sabe como me tocou esse poema, particularmente lido depois de nessa precisa noite (passada na urgência de um hospital de província com a minha mãe) ter tido a dimensão imensa da miséria que nos cobre...

beijo

Maria João Brito de Sousa disse...

"E as mãos doridas. E o barro amassado. E as dores do parto."

Abraço grande, Heretico!

Luis lourenço disse...


Parabéns ao Poema..Um grande abraço para ti, meu caro.

Véu de Maya

Poesia Portuguesa disse...

Espero que não te importes do "roubo" que figura no Poesia Portuguesa.

Um abraço

Maria do Sol disse...

"E calcorreamos o tempo, acorrentados. "
Há demasiado tempo. Quiçá, desde sempre.
Abraço

anamar disse...

Foi um gosto ler-te.

Poeta de mão cheia.

:)