domingo, fevereiro 16, 2014

TOPO DE GAMA...


Como é público, o governo propõe-se aumentar a cobrança de impostos, servindo-se do expediente de rifar um automóvel “topo de gama” pelos contribuintes mais zelosos. Não importa aqui avaliar do mérito o demérito da iniciativa. Outros com mais talento o têm feito (v. p.ex. “As rifas do fisco e a governação rasca” – artigo de Victor Malheiros – in Público – 11.02.2014).

Mas a “rasquice” do conceito “topo de gama”, como celebração de uma certa mentalidade, interessa-me, pois me irá permitir recordar uma “estória” verídica, passada nos longínquos anos sessenta do século passado.

Ora, esguardai...

No espaço social-rural da minha infância, o lugar que cada individuo ocupava nas hierarquias sociais era, em grande medida, estabelecido pelo meio de transporte individual utilizado.

Da base ao topo, os meios de transporte, eram assim, escatologicamente, distribuídos:

À pata, isto é, de butes, quer dizer a pé, naturalmente, para o pé-descalço, que se arrastava, de terra em terra, em busca do favor de uma jeira;

De burro, animal resistente, de escassa comida e poucos protestos, para os rendeiros pobres, com uma ranchada de filhos, que nas ladeiras íngremes cultivavam uns alqueires de centeio, sustento da família e que, mal chegado o Natal, já escasseava.

De macho ou de mula, animal estéril, hibrido das espécies burro e cavalo, encorpado e possante – utilizado por almocreves ou um ou outro agricultor de menor posses.

De égua, animal nobre e distinto, liberto do opróbrio dos trabalhos pesados, entregues a pachorrentas juntas de bovinos, era o meio utilizado pelos agricultores mais ricos e de melhores terras; a égua acrescentava, à elegância do porte, uma outra vantagem – era do género feminino, logo parideira e o, consequente, ganho das crias.

Finalmente - topo de gama - o garboso cavalo, símbolo e ostentação dos resquícios de uma fidalguia de fundilhos gastos e poluídos que, arruinada, teimava em (mal) subsistir num mundo inexoravelmente em mudança, malgré a sociedade fechada e opressiva.

O cavalo era então (sei-o hoje) uma espécie de incarnação tardia do velho “Rocinante” , testemunha privilegiada da “ruina dos tempos e dos mitos”, celebrada no célebre romance de Cervantes. 
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Após esta breve tentativa de enquadramento sociológico, estarão agora, porventura, os meus eventuais leitores, mais aptos e curiosos da “estória” que me propus contar. E que virá em breve...

Por agora, fiquem-se pelo “aperitivo” .

5 comentários:

jrd disse...

E que bem que soube. Podes servir mais que fiquei sequioso.

Abraço Fraterno

M. disse...

Aguardo então o prato principal. :-))

Graça Sampaio disse...

Excelente comparação!!!

Ficamos à espera de outras metáforas destas e de outras...

Beijinho

O Puma disse...

Aguardo na minha escarpa

Abraço

Licínia Quitério disse...

Ah que em ânsias fico de bem saber a história que ireis contar. Que venha azinha! :))