terça-feira, março 04, 2014

PORTA EM PORTA, CAMINHEIRO...



Talvez neste horizonte breve o fio de água
Despenhando-se na memória. Como esta fraga.
Ave planando sobre a presa e o repentino som
Da pedra. Granito ardendo no íntimo silêncio.
Como pomos de fogo calcinados de azul...

Debruço-me. Talvez a água agora seja apenas
Mãos no gesto de bebê-la. E a ave esta rapina.
Nem voo, nem pássaro sagaz. Ausência ainda.
Pura. Gavião e pomba desenhados no corpo
Do desejo. E meus olhos bêbedos de lonjura.

O vento que agora afasta a cinza é o mesmo
Embora. E a litania é eco no coro deslizante
De meus passos. Não a vereda palmilhada.
Nem as vestes. Ou o sangue seco dos espinhos.
Apenas rumor de fogo na palavra celebrada.

Descalço e de bordão como antigos monges
Colho a folha do carvalho. E enfeito os dias
Porta em porta, caminheiro. E no portal de mim
Me acolho exausto. E mordo e rasgo.

E clamo: “Casa em que me guardo.
Terra quanta vejo!...”

 
Manuel Veiga

 

 

14 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

...até que todas as portas se abram,
escancaradas

(belo, isto)

Pérola disse...

Casa onde somos autênticos e as caminhadas fazem sentido.

beijo

Graça Sampaio disse...

Muito, muito bom! Imagens duras, incisivas, rasgantes...

Muito, muito bom!

Beijinho

O Puma disse...

Talvez um dia tenhas descanso
em vida mas nesse dia não estarei cá eu para te ver meu irmão poeta

Vieira Calado disse...

Um poema muito bom, sim senhor!
Um forte abraço, para você!

jrd disse...

Grande Poema!
Cá te espero, Amigo e irmão.

Abraço

lis disse...

Me comove esse 'idílio' com as palavras heretico, de forma encantatória que me faz ter visões,rs
Bem Picasso dizia que 'Arte é uma mentira que nos revela a verdade'
_essa exaustão de ausências, de mãos,de passos é absolutamente visual.E aflora.
Obrigada pela carga emocional que transmite sempre que leio suas sutilezas poéticas,
deixo abraços

Anónimo disse...

O mote da sua poesia!
Caminhante, caminheiro que atravessas as montanhas, e conduzes os teus passos sobre as águas do rio...
Porta a porta se abre e se fecha o teu caminho...
Caminhante, caminheiro é esse o teu destino, por vezes tão solitário e tão cheio de espinhos...

http://www.youtube.com/watch?v=6NXnxTNIWkc

© Piedade Araújo Sol disse...

forte e muito bom!

:)

Maria do Sol disse...

...porque o universo é a nossa casa.

Abraço

Ana Tapadas disse...

Forte e muito bom.
Assim me sinto:
« E no portal de mim
Me acolho exausto. E mordo e rasgo.»

bjs

Lídia Borges disse...


Nunca o regresso tem fim.

Obrigada por partilhar este dizer... Sublime!



Beijo

Sónia M. disse...

Porta em porta,
que se abram todas...
Tão bom de se ler, excelente!

Bom fim de semana.
Beijo

Jorge Castro (OrCa) disse...

Ainda me hás-de fazer uma sessão nas Noites, pá. Tu, que nem sabes se jeito tens para um poema... Se calhar, por teres em ti muitos.
Abraço.