segunda-feira, abril 07, 2014

ERA TEMPO SEM TEMPO...


Era um tempo sem tempo, como se a garganta
Fosse o grito em profusão de mil ecos
Na serenidade do vale.

Ou pássaro milenar em vertigem do voo

Os insectos sorviam o néctar e as azedas
Línguas crespadas na acidez da ceia
Que a lonjura retardava – o caminho era ainda
Não regresso...

Antes era passo alongado em cadência breve
De sol macio.

As giestas fervilhavam em zumbido amarelo
A que a brisa dava asas e se infiltrava
E descia sob os fios dourados de meus olhos
Como inesperado manto em régios ombros.

Grinaldas de açucenas que o açude toldava
Na distância de colhê-las. Apenas o olhar as desenhava.
 - Imperecíveis na memória de meus dias.

E a água. E a cantata. E o sobressalto dos sonhos
Como inquietos potros. Míticos.

E o esplendor de mirtilos. E a festa dos sentidos
Em explosão de Primavera.

Manuel Veiga

 

12 comentários:

maceta disse...

mas, saber exactamente aquilo que um poeta sente e pensa no momento em que transfere tudo para a escrita...

jrd disse...

Era o tempo de não ter tempo para ter o tempo todo.

Belo poema!

Abraço fraterno

Mar Arável disse...

Todo o tempo

para sonhar

em voz alta
Abraço sempre

lis disse...

Um lindo cenário...
que resplandeça em ti,para o nosso deleite.
Poesia que muda a cor dos meu dia, apesar da 'lonjura'
parabéns heretico
um abraço

Sónia M. disse...

Na memória o sonho de um tempo,
numa primavera que tarda.
Uma festa para os sentidos, este poema. Muito belo!

Beijo

Graça Pires disse...

Era o tempo longo do desejo. Era o tempo de ter no olhar as aves que voam por dentro dos sonhos. Era o tempo de regressar à inocência das açucenas.
Muito bom, o poema, amigo.
Um beijo.

Lídia Borges disse...


Que importa se é mito o esplendor desse tempo eternidade. Chega-nos todo cores, perfumes, formas.. Sensações!...

Caminho de ida, ainda.

Belo!

Ana Tapadas disse...

É esse tempo retorno pelo qual a ânsia poética clama...que o futuro o traga, se puder «Ou pássaro milenar em vertigem do voo»...

Belo!

Beijinho

Poesia Portuguesa disse...

"...
Ou pássaro milenar em vertigem do voo
..."

o tempo marca a história... a minha, a tua, e a de todos aqueles cujas "...giestas fervilhavam em zumbido..."


Sabes que gosto de te ler.

Beijo.

© Piedade Araújo Sol disse...

era um tempo que tínhamos tempo...
e ficaram as memórias...


:)

MARILENE disse...

Os tempos floridos não saem de nossas lembranças. Ficamos com elas até que possamos reviver o sonho de primaveras distantes. Abraço.

Jorge Castro (OrCa) disse...

Bucólico, meu caro, ouvem-se-lhe os rumorejares das fontes e brisas nas árvores. Ele é Abril... e está tudo dito! Ainda que pouco feito, dir-se-ia...

Grande abraço.