segunda-feira, julho 07, 2014

OFICIANTE E MONGE...


Na devoção do nome a frondosa graça
E a sagrada árvore. E o interdito fruto
Que se desprende
Letra a letra em poema
Singular...

Que o poeta colhe
Em lábios gretados de silêncio
E lume. E fome de mar...

Sem ao menos um queixume
Pois pastor de desenganos
Apaga a voz. E teima – serpente em chamas!
Vã que seja a espera
E os perigos que afeiçoa...

E nas escarpas do Desejo acende o sangue
E a palavra arde
E recolhe-se oficiante e monge
Ao culto que celebra
Pagão e puro...

Bem sabendo
Que o marulhar do eco
É azul perene
Breve que seja a espuma e a cinza
Em que murmura o hino...

Ou a ara em que se imola...


Manuel Veiga

12 comentários:

Lídia Borges disse...


É o verbo "teimar" frequente nesta poética erudita e simples, inteligente e bela...

Um beijo

lino disse...

Mais um belo poema!
Abraço

Graça Pires disse...

Há a palavra que arde quando o fruto interdito se desprende letra a letra e o poeta tem fome de mar... Um belíssimo poema, meu amigo, mas apetece-me citar-te Herberto Helder: "é sempre fácil caminhar em cima das águas, mas é impossível fazê-lo milagrosamente".
Um beijo.

heretico disse...

Graça Pires,
minha querida amiga,

continuando com o Herberto Hélder, que te agradeço

- "leia-se como um milagre cheio do milagre dos erros/leve-se para a vigília essa visão como um espelho"

beijo

Mar Arável disse...

... e eu meu irmão ...

aqui sequestrado no paraíso

Abraço amigo

maceta disse...

admiro as letras e as palavras que fluem como uma água da natureza...parece fácil, mas só fluiem nas mãos de alguns.

Pérola disse...

Nas escarpas das palavras, escreve-se qual monge ou oficiante.

Que poema singular, sem queixumes, de esperas prenhes.

Beijinhos

© Piedade Araújo Sol disse...

eu acho que o Poeta nunca espera em vão.

por isso por vezes as palavras são fogo vivo.

mais um belíssimo poema.

:)

Helena disse...

Fruto colhido em poema nos lábios gretados de silêncio... Perfeito!
Sorrisos e estrelas, sempre!
Helena

Mel de Carvalho disse...

será o oficio o poeta
" o hino...
Ou a ara em que se imola..."?
ou, ambas as coisas, uma a validar a outra, em sagração de opostos???

do que acabei de ler (vários textos) direi que, e a cada leitura, maior a convicção: se a alguém é devido o reconhecimento enquanto pensador e poeta, esse alguém é a Manuel Veiga.

grata, fraterno abraço
Mel

jrd disse...

E o cíclico sacrifício que de novo se anuncia.
Mais um belo poema.

Abraço irmão

Graça Sampaio disse...

Na senda do «Ajoelha e será crente» e de igual modo muito bom! Bom em força, em desejo, em renúncia, que vai renascer.

Muito bonito! Beijo, Poeta!