segunda-feira, outubro 27, 2014

OUTONO(S)...


Veste-se o Outono de mostos e fermentam
Sabores na glória dos frutos que as bocas
Salivam
Tão maduras
Que se desprendem
Como promessas em zénite
Atordoadas em mel
Quais corolas
Soltas em voo de línguas suculentas...

Impúberes os sonhos. Ainda.
Que humedecem os olhos
De tão claros.

Azul
Na vertigem
E no alvoroço
Cinzento na hora da chegada
Como restolho depois do dia
Ou despojos
Diurnos
Antes da noite
E do frio...

De nada vale o doirado das vinhas
Nem a plangência do sol
Nem o vigor íngreme
Dos passos
Na cadência das montanhas.

Nem a vindima.
Nem os cestos...

Outono é esta memória cálida
Fogueira onde soletro meu corpo aceso
E cato meu piolho
E minha sarna...

Dulcíssima flama em que me embalo...


Manuel Veiga


17 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

gosto de todos os versos
em que me revejo

e o outono, para mim
é exactamente assim

ainda que sem piolho ou sarna
mas com a tal dulcíssima flama
que me embala

heretico disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
heretico disse...

eu sei, meu caro Rogério, que tu nunca sentiste o ardor da sarna, nem o "o piolho da existência" e, sobretudo, "nunca apanhaste porrada"!...

ainda bem que gostas do Outono.

forte abraço

jorge esteves disse...

Há, pelo ar que transpira, um vago ardor de melâncolia. Sarro, se se quiser avinagar o sentido.
Mas, amigo, acabas por (te) reconhecer sábio no 'soletro meu corpo aceso'.
Que seja, assim, dulcíssima a flama que te embale.
Abraço!

Mar Arável disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Mar Arável disse...

Bela memória viva e vergastada
sempre presente
na dulcíssima bandeira

Abraço fraterno

Graça Sampaio disse...

Muito bonito, heretico (uma vez mais)! Muito bem descrito, muito bem delineado palavra a palavra, todas elas muito bem escolhidas num solfejo sintático muito bem esgrimido. (Como sempre, aliás)

(Vou copiar para guardar...)

Beijinhos outonais.

maceta disse...

os que levaram pancadas no corpo ( e na alma) têm mais sensibilidade na pele...

abraço

Majo disse...

~
~ ~ Poeta, a poesia está belíssima, muito bem construída, original e expressiva.

~ ~ Mas Manuel, só entre nós, por que não exterminaste já os parasitas que deixas devorem-te o sangue?!

~ ~ O que passou, já não existe, são apenas memórias que deves arrumar numa gaveta. fechá-la bem fechada e procurar, com o maior empenho, a felicidade.

~ ~ ~ ~ Um Outono feliz, Manuel. ~ ~ ~ ~

Majo disse...

~ Corrijo o lapso: "...que deixas devorarem-te o sangue?"

Lídia Borges disse...


Rente ao corpo, até porque nem só de invernos vive o homem.

Belíssimo!

Bj.

Andrea Liette disse...

Tão doce e serena parece a maturidade
em suas palavras!

Um abraço!

MARILENE disse...

Gosto de arriscar uns versos, mas é por mero prazer. Quando leio poemas como os seus, sinto-me pequenina. Já estive aqui antes, deliciando-me com a forma como descreveu o outono. Ele nos dá a sensação de que todos os frutos saborosos que podíamos degustar já se foram, restando a preparação para o frio do inverno. As memórias se acumulam e provocam nostalgia. Aplaudo-o. Abraços.

jrd disse...

Telúrico é o poema e os dias -agora- curtos que refazem as memórias que trazemos na pele.
Um abraço meu irmão poeta

© Piedade Araújo Sol disse...

uma memória de um outono bem vivo ainda...

mas deixa um sabor a calor e serenidade...

:)

lis disse...

Os outonos...
quem ainda não versou sobre eles?
_ cheios de adeus.
Rilke escreveu que precisamos 'conter a morte ,docemente, sem se tornar amargo'
_ que nos seja doce muito doce 'dulcíssimo' heretico
Seu poema doura o outono com muita beleza.
parabéns!

jawaa disse...

É sempre um prazer ler-te.
Um beijo