quinta-feira, março 26, 2015

Nos dias oblíquos em que declinamos...


Nos dias oblíquos em que declinamos a míngua
Como memórias de cal nos muros da cidade cercada
Toda a realidade é plana...

A brisa e o Tejo e o mar com suas ondas
São memórias de olhos gastos que persistem e
Teimam em medir distâncias pelos relógios que inventam
Em delírio de corujas nocturnas nas torres cimeiras de outrora...

Restos apenas evanescentes que os homens ignoram
Acorrentados ao jugo e à galera do tempo e ao ritmo
Dos remos. Música que suaviza o látego
E obscurece o entendimento como a gruta de sombra
E a mortiça lâmpada a escorrer luz de um só lado.

Somos essa dança de espectros e a imagem invertida
Projectada nas costas dos anjos que lhe dão asas
Multicores e novas Catedrais celebram no desenfreado
Jogo que tudo contamina e logo se extingue
No colapso dos altares inebriantes em que ardemos...

Somos o cordeiro mártir na ara do consumo e
Inflamamos a velas do Espectáculo que nos perfura os olhos...

Talvez a Catástrofe seja o novo nome das coisas.
E os muros da cidade sejam um espelho solar
Enorme. A acumular o grito libertador...

Manuel Veiga




13 comentários:

Majo disse...

~~~~ Bravo, Mamuel! ~~~~

~ Excelente o teu poema!

~ Um imenso grito de protesto denunciando a sociedade caótica
em que vivemos, onde acima de tudo impera - cada vez mais -
- a corrupção e a ganancia.

~ ~ ~ Abraço amigo. ~ ~ ~
~~~~~~~~~~~~~~~~~

jrd disse...

Se remarmos juntos e irmãos, havemos de vencer as correntes e soltar o grito por sobre os muros.

Abraço fraterno

Mar Arável disse...

Não há morte nem princípio
e os muros da cidade
nunca serão o espelho dos teus olhos

Abraço amigo

Rogerio G. V. Pereira disse...

"Talvez a Catástrofe seja o novo nome das coisas", o tal susto de que falava Saramago...

Rogerio G. V. Pereira disse...

"Talvez a Catástrofe seja o novo nome das coisas", o tal susto de que falava Saramago...

Jorge P. Guedes disse...

A sociedade do espectáculo, anunciada há quase 50 anos pelo Guy Debord, aqui está: impante, avassaladora, transformadora do Homem num ser passivo.

Mais um belo poema, meu amigo!
Abraço.

Graça Pires disse...

Soltemos o grito libertador para que não sermos catástrofe ou susto ou, apenas memórias de cal...
Belíssimo, o poema, meu Amigo.

Carmem Grinheiro disse...

Dias oblíquos, catástrofe como nome, nada disso surpreende aquele que esteve a observar: nada mais era de esperar.

abço amg

Graça Sampaio disse...

Retrato fiel da realidade. Tragicamente fiel.Até ao grito final algo esperançoso.

Oxalá!

Beijo.

Agostinho disse...

Os espelhos que confundem a cidade hão de ser derrubados. Há de vir o dia em que a ilusão cairá: o trigo será pão e as uvas alegria.
Estupendo poema a levedar a massa.

Andrea Liette disse...

Oi Manuel,
Que magnífico ! Os dias são oblíquos, de fato. Mas o grito do poeta é uma herança, uma possibilidade , um rumo possível! E mesmo que fosse vestígio :

"Restos apenas evanescentes que os homens ignoram
Acorrentados ao jugo e à galera do tempo e ao ritmo
Dos remos. Música que suaviza o látego
E obscurece o entendimento como a gruta de sombra
E a mortiça lâmpada a escorrer luz de um só lado."

Ainda é poema. Um beijo.

Ana Tapadas disse...

Também sinto esse caos, no mar onde navego...

beijo Poeta!

maceta disse...

e, apesar das barreiras, vale a pena sonhar através da idade...

abraço e gosto em ler-te