quarta-feira, março 18, 2015

O MEU AMIGO ZECA ( em reprise )


Vocês lembram-se do meu amigo Zeca? Sim, esse mesmo, o alentejano de Beja, solteirão impenitente e protector de donzelas desvalidas. Como esporadicamente vos dou notícia, o meu amigo Zeca encontra-se já há uns tempos “retirado da vida”, como ele, num suspiro, faz questão acentuar, passando os dedos pela papeira dos olhos, ou alargando a mão à calvície luzidia...

Quanto à profissão, bah! – o Zeca está sem pachorra para aturar cretinices e favores políticos. E quanto a saias, o meu amigo, enfaticamente, reclama que durante toda a vida as “mulheres lhe foram comer à mão” e que não será agora, portanto, “que irá arranjar jeito para ser cabide”, seja lá o que for que, em seu léxico, o morfema “cabide” possa significar...

De forma, que administrando, os réditos de uma carreira de “consultor” na área financeira, com altos e baixos, mas relativamente bem-sucedida, aí temos o meu amigo, do alto do seu apartamento debruçado sobre o Tejo, a desfrutar os prazeres que este inverno soalheiro lhe vai proporcionando, alargando-se em amplos passeios à beira rio, com um poderoso “labrador” pela trela...

Fora isso, apenas a cozinha, em que se esmera e sublima sabe-se lá que desejos... E o charuto e o conhaque, claro, com que obsequeia os amigos depois de suculenta refeição, seleccionadas, em cada caso – sei agora – em função dos gostos culinários de seus amigos. O prazer da partilha e da amizade é tão genuíno no Zeca, que o leva a este requinte de sensibilidade...

Há tempos atrás fui um dos seus comensais. Éramos quatro pândegos, de papilas gustativas bem afeitas (e afoitas) a paladares intensos, à volta de uma esplendorosa terrina com arroz de lampreia, escorrendo com seu molho espesso e cremoso, pelas gargantas, depois de bem degustados os pedaços, que o Zeca, com mão sábia, sabe temperar...

Manjar de anjos”, lhe chamaria Eça fosse dar-se o caso de gostar de lampreia e merecer, naturalmente, a honra de um convite do meu amigo Zeca...

Isto para vos dizer, que foi uma tarde a maneira antiga. Na lassidão dos conhaques prosseguiu a revisitação do roteiro nossos “pequenos ódios de estimação”, zurzindo as figurinhas e figurões que assombram o quotidiano dos portugueses. E, depois de alguns momentos de beatífico voo nos espirituosos vapores do álcool, eis que alguém traz, inesperadamente, o incontornável Eduardo Catroga, na ocasião em voga com a saga da privatização da EDP.

O torpor, porém, era manifesto e a “intromissão” não mereceu mais que uma pilhéria deslavada a propósito do alegado “tamanho” dos chineses e da roliça compleição física do dito Catroga.

Não sei se motivado pelo esforço de vencer a sonolência colectiva, se obedecendo à pulsão irresistível de acicatar o Zeca, segurei o fio da conversa e jogando com a figura anafada de meu amigo, lancei para a turba:

 - “Para além de economistas, aliás distintos, o Catroga e o Zeca estão a ficar cada vez mais parecidos, quase dois irmãos gémeos, não vos parece”?! ...”

O semi-sorriso de meus amigos, deixava prever “sangue”. Entrei, por isso, “a matar” e acentuei a ironia: - “Se lhe oferecermos um capachinho com a melena branca do Catroga, o Zeca bem pode funcionar como seu duplo, nos transes de maior risco do chairman da EDP”...

E, perante a gargalhada já solta, afoitei-me mais pouco: “Quem sabe se com o seu fenomenal currículo o Zeca não poderia dar contributo desinteressado para a baixa generalizada dos preços da energia e a integral realização do sósia, massajando os insignes joanetes da senhora sua esposa?

Como, por certo, compreenderão, mais que a figurinha congestionada do Catroga, esta excessiva graçola tinha outro alcance, a que apenas iniciados têm acesso. Visava, como alguns recordarão, circunstâncias antigas em que meu amigo Zeca, então promissor quadro de uma empresa pública, esteve à beirinha de “ter uma boa vida”, não fora uma senhora que “andava a pedi-las”, os incómodos joanetes e os sapatos apertados de uma zelosa sogra, como noutro espaço contei.

Não fora este lance de má sorte, o Zeca seria hoje chairman de uma qualquer empresa pública em vias de privatização, quiçá destronando o próprio Catroga. Claro que a partir dessa data, o Zeca passou a odiar sogras, joanetes e sapatos apertados...

Enfim, tempos passados que apenas uma mente perversa iria agora desenterrar...

O Zeca, porém, não desarmou. E com a condescendência com que a sua impoluta amizade sempre suportou as minhas impertinências, fixou-me com olhar irónico e atirou-me, arrasador:

- “Tu estás calado e calas-te!... Sei onde queres chegar. Mas como nunca na vida “comeste” nada de jeito (o que é manifesto exagero do Zeca) não tens autoridade para gozar com meus fracassos”... E, perante a gargalhada geral, continuou: - “E, fica sabendo, que o Catroga não tem "pintelhos" que cheguem aos meus, quanto mais tomates...”

Foi o delírio. E todos em coro: “Ó Zeca, ó Zeca, tu não sejas megalómano, pá! Os pintelhos do Catroga são celebérrimos - foram notícia de abertura dos telejornais, avaliados e dissecados em comentário político e, ao que parece agora até chegaram à China. Os pintelhos do Catroga são únicos, pá...”

Por momentos pressenti o Zeca embaraço, mas breve se recompôs: - “Vocês estão enganados. O Catroga tem “pentelhos”! Pintelhos tenho eu e espero que vocês... Os gajos nem sabem do que falam...

Embasbacamos!... O Zeca avança então douta teoria sobre os pêlos púberes, arrancando, do negrume da ignorância, a centelha da sua clarividência. Afinal os celebrados pelinhos vão buscar, ainda que indirectamente, a sua consagrada designação – imaginem! - aos mistérios de Baco e ... ao vinho!

O Zeca não tem dúvidas. Diz-se “pintelho” e não “pentelho”, pois a palavra vai buscar o sentido ao “pintar” do bago das uvas, antes da completa maturação. Frutos precoces, portanto, a que o povo, na sua criatividade associa a puberdade e os inocentes pelinhos...

Enfim, “pintelhices” do Zeca, que agora trazem novo problema aos seus amigos! Não sabemos ao certo se o devemos propor a Presidente da Comissão do Acordo Ortográfico, se a membro da Academia de Ciências, na classe de Letras, está bem de ver...

Que vos parece?

Manuel Veiga 



11 comentários:

Lídia Borges disse...


Sempre tive alguma curiosidade sobre o que falariam os homens quando reunidos, assim, à volta da mesa e da "pinga".
Já desconfiava que o tema se centraria "por aí".

E já agora - o Eça é mais arroz de favas.

Lídia

O Puma disse...

Obvia mente demitia-o num repasto
de amigos

Abraço

Rogerio G. V. Pereira disse...

O Zeca não pode ser má peça.
Um arroz de lampreia assim...
quem me dera a mim.

Majo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Majo disse...

~
~ Linguagem um tanto brejeira num excelente texto composto com mestria.

~ ~ Os meninos divertiram-se à brava! Ainda hoje é piada nacional!!

~ ~ Pelo menos, haja bom humor. ~ ~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

CÉU disse...

Como sou "noviça" nestas "andanças", nunca li nenhum texto seu que falasse do Zeca, mas estou a ver o estilo, mesmo de longe.
Pois, o "rapazinho", o seu amigo, é de Beja, então é boa pessoa, mas em vez de lampreia, talvez, um ensopadinho de borrego não fosse pior escolha, digo eu.

Quanto às aventuras e "desventuras" do Zeca, pois quase todos os homens são "Zecas", e em matéria de "comidas", é sempre o mesmo, ou seja: "a galinha da minha vizinha é sempre melhor que a minha". Quanto às sogras, chapa3.

Em relação aos pelos, indago-me, querendo saber se o Zeca ainda será desses que pensam que um homem, homem, tem de ter pelos no peito, e não só. Pois, há que elucida-lo, porque as "comidas" que ele "papou" já foram. Agora, nesta última década, quanto menos pelos, melhor, porque é mais, muito mais higiénico, apresentável, "abordagem" fácil, leveza de corpo e alma, e continuam a ser homens, como qualquer outro, mesmo que seja tipo "macaco".

Se ele ler este comentário, talvez, TALVEZ (se ele fosse do norte, diria mais que isso) possa dizer: ela que venha pra cá, que eu logo lhe conto um conto, mas penso que não será assim, porque os alentejanos, homens e mulheres, não têm a mente porca.

Quanto ao cargo, acho que lavrador (dono de propriedades, terras)) é aquele que melhor lhe assenta, embora não mencionado aqui, porque nós temos latifúndio e planície a perder de vista, no olhar e no coração.

Dias felizes, para ambos!

© Piedade Araújo Sol disse...

acho que um jantar entre "gajos" falavam- se de "gajas" afinal estava enganada.

lol

a sério, que achei o texto excelente e com muito sentido de humor.

beijo

:)

Graça Pires disse...

Brejeirices de um almoço de amigos...
A palavra, essa, não faz parte do meu dicionário...
Um beijo, meu amigo.

heretico disse...

Olá Céu,

seja bem vinda!

darei conta do seu "recado" ao meu amigo Zeca, pois ele não tem pachorra para bloguices e quejandos.

e fique descansada o "meu amigo Zeca" é um tipo asseado - de corpo e de mente!

Ana Tapadas disse...

Para lá da brejeirice, o texto é uma excelente construção.
Tem que ser nomeado para presidente da Comissão do AO, claro! A questão é fonética...

Beijo amigo

jrd disse...

Belo naco de prosa este que nos serviste.
Quanto ao Zeca, propunha-o para Presidente da Confraria dos comedores de lampreia.

Abraço fraterno