segunda-feira, abril 20, 2015

PLANANDO CONTRA O VENTO...


Talvez este regresso seja voo de milhafre
Planando contra o vento. Ou estultícia minha
Em filtrar o tempo pelos dedos...

Talvez seja vertigem. Ou pequenas coisas.
Ou profusão de sentidos descendo como braços de salgueiro.
Ou seja talvez moinho em canto d´água.
Ou a pedra de soleira...

Talvez o momento seja a brusca passagem das horas
Já passadas. Ou murmúrio de oração em lábios já finados.
Ou mulheres de negro embiocadas: -
Penélopes sem viagem
E epopeias de silêncio...

Talvez sejam as cálidas mãos dos homens. Agora
Pousadas sobre a mesa e o pão repartido.
E a criança atónita espreitando o ritual
E o vinho nas gargantas ressequidas.
E o delírio da festa.
E as colheitas...

Talvez os corredores da memória
Sejam espaço afadigado em estertor de ave
Já sem ninho. E que no entanto teima o calor das penas...

Talvez o vento se solte em novas profecias.

E todos os rostos venham em coro
Entoar bênçãos em teu nome

António...

6 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Talvez... António...

Graça Pires disse...

Um poema de uma estética e de um lirismo que, aliado ao sentimento, se me cola à pele...
Um beijo, meu amigo.

Andrea Liette disse...

Bom dia, Manuel. É uma manhã tranquila de feriado neste lado do horizonte. Penso que sim para todo talvez e adoro o poema inaugural. No entanto, são mortais os poetas. Por isso entregamos os versos ao infinito para que sobreviva a cada (re)leitura. Beijo.

Mar Arável disse...

Que não se cale o vento

mais que as palavras
Abraço

Majo disse...

~ ~
«Talvez este regresso
seja voo de milhafre planando contra o vento.»

~ ~ Estultícia minha não é, António.


Amigos, planemos contra os ventos dominantes!

~ ~ ~ Abraço, Poeta amigo. ~ ~ ~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

CÉU disse...

Como o poeta está em maré de dúvidas, talvez possam ser tantas coisas!
O vento? Hum, o vento não se "solta", assim!
"Entoar bênçãos..." Gostei! É lírico e sagrado, seja em nome de quem for.