sábado, outubro 10, 2015

PARA ALÉM DA DOR, O BOJADOR...


No gume dos dias peregrinos
Arqueja a esperança no peito dos homens.
Os velhos percorrem a cinza e sopram a centelha
No delírio inflamado de um voo perdido.

E nas entranhas das aves
Decifram os sinais como pitonisas de olhos esventrados
E dedos imensos que se perdem como barcos
No horizonte do sonho.

E com as crianças nos joelhos
Declinam um abecedário
De promessas como pomar
De frutos maduros e suspensos
Ao alcance das bocas.

E inventam – os velhos – um tempo novo.
E faluas. E das águas do Tejo erguem marinheiros
E poetas. E as praças agora povoadas
Incendeiam o alvoroço da cidade:
 – além da dor, o Bojador é dobrado!

Lá longe, o dragão espuma raiva...

Manuel Veiga


16 comentários:

Suzete Brainer disse...

Os sonhos nunca ficarão perdidos,
o barco das palavras navegam pela
poesia e utopia, com a altivez
de quem não se descuida do
destino do mundo...

Belo este teu grito poético para
além do simples olhar!

beijo.

O Puma disse...

Desejo um parto sem dor

Abraço

Helena disse...

Este tempo novo, delineado pelos velhos para as crianças nos seus joelhos, um dia chegará. E da esperança a arquejar hoje no peito dos homens surgirão tantos Gil Eanes que esse país renascerá em cada “ramo de flores” que não mais secas, e sim a vicejar nas fontes de uma nova e bela realidade.
Herético, emociona-me os teus poemas denúncia/conscientização/redenção onde as palavras nos mergulham em turvas águas para depois nos levarem a navegar por mares de águas tranqüilas nas asas dos sonhos que estarão sempre a procurar por pomares “de frutos maduros e suspensos ao alcance das bocas”.
Deixemos o dragão espumar raiva, mas com toda a certeza o Bojador um dia será dobrado. Esperança e sonhos são imorredouros dentro dos homens, e se ao mar o perigo e o abismo foram dados, também foi lá que Deus “espelhou o céu”.
Estou sempre a ler-te com muito respeito e admiração, na lembrança de uma criança que extasiada escutava o avô desfiando num rosário de "era uma vez" as histórias vividas no seu país natal antes de aqui chegar e se "abrigar" nas dolorosas lembranças que, infelizmente, muitas também aqui foram produzidas.
Um terno beijo,
Helena

Helena

Majo disse...

~ ~ ~
~~~ Porém...

~ «Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.»

~ Muito bela a mensagem e o estilo grandíloquo!
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

~~~ Beijo, Poeta.
~ ~ ~ ~ ~

Salete disse...

Vim do blog do Agostinho para conhecer a sua poesia e me encantei com ela. Parabéns pelo talento e beleza com que constrói sua poesia. Voltarei.:)

Bjs

Ps: Só não vou segui-lo porque no meu navegador não aparece mais essa opção.

George Sand disse...

Haja sempre algo mais por inventar
E o tempo não se dará nunca por pedido.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Não sei se o dragão espuma de raiva
se é um estertor de moribundo

ainda que para a morte lhe falte muito

G- Souto disse...

Não sei se haverá um tempo novo...

O jeito do teu poetar é que sempre me fascina.

Beijo, Herético.

AC disse...

A insatisfação dum tempo de marionetas, a esperança no porvir...
Muito bom!

Um abraço

Anónimo disse...

É a Europa que arde: a maior parte das pessoas limita-se a fazer a sua vida, mal ou bem, a sobreviver a tantos cataclismos e ameaças. Por isso Paris tem a beleza duma aposta, pelo que de belo e cultural nos oferece. Assim a poesia: aposta no sonho.
Abç da bettips

Lune Fragmentos da noite com flores disse...

Tempo de poesia, nesse teu jeito sempre aguerrido.
Soltam-se paisagens.

Beijo,

Agostinho disse...

Magníficos cantos elevas no ar.
Pois que espume ranho e baba e a peçonhenta bílis que a muitos trouxe enganos. O dragâo é do passado, Já nada fará à nova geração que sobe a nau da esperança.

Marta Vinhais disse...

Porque é tudo o que resta.... o sonho, a esperança num tempo novo...
Que nunca se perca.... Apesar de tudo....
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

Ana Tapadas disse...

Talvez, poeta...talvez!

Bjs

ॐ Shirley ॐ disse...

Um dia, não muito longe, alcançaremos a paz...
Lindo, Manuel!
Beijos!

Parapeito disse...

que será do homem se deixar de sonhar!
Que seja sempre o sonho, uma constante da vida.
Brisas doces*