sexta-feira, dezembro 11, 2015

"QUANDO VIERES..." - Maria Eugénia Cunhal....


“Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,

Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres....”

Maria Eugénia Cunhal - in "Silêncio de Vidro" – Edição da Autora - Lisboa, 1962
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O poema de Eugénia Cunhal foi dedicado a Álvaro Cunhal, seu irmão, 14 anos mais velho.

Álvaro Cunhal sofrera, durante 11 anos consecutivos o horror das prisões fascistas, donde, com outros camaradas, se evadira, dois anos antes, numa saga heróica. E, entretanto, tinha saído clandestinamente do país, no desempenho de suas tarefas de direcção do Partido Comunista Português.

Regressou, finalmente, ao País em 1974 – e o poema cumpriu-se!


Faleceu agora a Poetisa, Maria Eugénia Cunhal.

Sobre Vida e Obra de Maria Eugénia Cunhal ver  Centenário A.Cunhal

9 comentários:

Maria Eu disse...

Uma terna beleza.

Boa tarde, herético. :)

Majo disse...

Um poema muito belo!

Muito belo e muito especial,

pela muita dor resignada e contida.


Homenagem deveras louvável a esta Senhora,

que soube demasiado bem, o que custou a Liberdade.

~~~ Beijo amigo, Manuel.~~~
~ ~ ~ ~ ~ ~

Lídia Borges disse...


Comovente Eugénia Cunhal!

" É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres....”

Vou tentar arranjar o livro. Não o tenho.

Grata pela referência.

Bj.

Mar Arável disse...

Não deixamos morrer os nossos mortos

Abraço

© Piedade Araújo Sol disse...

o poema é muito belo e uma bela homenagem ao irmão.

que descanse em paz.

:(

Fê blue bird disse...

Um poema muito significativo do amor que a unia ao seu irmão.
Estão juntos de novo!

Desejo que o seu Natal seja cheio de paz, de alegria, de saúde, mas sobretudo com muito amor, sabedoria e optimismo.
Feliz Natal!

Um beijinho

MARILENE disse...

Agora, é ele que a recebe, com o mesmo amor. Voltou para casa.
Seus versos são de uma sensibilidade encantadora, que comove. Uma homenagem rica ao irmão. Abraço.

AC disse...

Fiquei encantado com o poema, incondicional porta aberta aos afectos.

Um abraço

bettips disse...

Ah... felizmente viveram juntos os belos tempos da nossa Revolução, depois de sofrimentos inenarrável. Mulher linda, inteira e limpa como a manhã de Abril.
Tantos dessa geração nos faltam...
Abç