sábado, janeiro 02, 2016

OUSA O POEMA O PÓRTICO...


Irrompe o poema em sobriedade e ousa o pórtico onde
Todas as legendas se inscrevem. E imiscui-se
No interior sem aviso prévio nem hora acordada
Como saltitante Mozart e seu fogo
Divino derramando-se pela casa...

Insufla-se traquina
E desarruma o outro lado, aquele fechado
Que nada guarda apenas bagatelas, traquitanas sem glória
Ou mágoa...

E trepa (ou desce)
Como ventania inesperada
Ou janela aberta que nada espera
Apenas a luz coada
E que de repente se escancara
Como se varanda fora engalanada
E festiva...

E senta-se à mesa o poema. De honra comensal.
E acaricia o linho e acende as velas
E reclama o vinho...

E solene avisa que neste dia não será
Servida dobrada. Que sendo fria sempre lhe causara
(Como os amores de Pessoa) frustre azia...

E o poeta deixa que o poema seja.
E desarmado finge a dor
Que deveras fica...

Manuel Veiga



11 comentários:

Majo disse...

~~~
Que profusão de interessantes

metáforas ornadas de ironia bem humorada!

O poema merece o pórtico, com toda a certeza.

~~~ Beijo amigo. ~~~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Graça Sampaio disse...

Bom Ano, Poeta!!

Bons poemas no ano novo!

Beijinhos.

Graça Pires disse...

Essa ventania inesperada misturou tudo no meu pensamento: Mozart, Pessoa, a luz, as palavras e o teu poema que deveras fica...
Um beijo, meu Amigo.

AC disse...

O poema, quando se instala, merece todas as mesuras.

Um abraço

Mar Arável disse...

Na luz de um fósforo

Abraço

Suzete Brainer disse...

O Poema se inscreve na sua força luminosa,
na entrega:"Como saltitante Mozart e seu fogo
Divino derramando-se pela casa..."
Sendo o próprio espaço; da casa interior,
ampliando-se pela casa-mundo...
Na sua amplitude maior, o Poema transborda
todos os significados e reivindica a alegria
genuína quando:"E reclama o vinho..."
Lembra o amor como essencial e o Poeta
passa a Ser o Poema!...
Adoro sempre!!!
Grata pela leitura...

Marta Vinhais disse...

O poema que se escreve no espaço e se torna divino...
Adorei...
Bom Ano 2016
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

Genny Xavier disse...

Versos para o banquete das horas... Degustação de palavras sorvidas na tintura rubra de um vinho do Douro...
Que em 2016 possamos continuar brindando sua poesia... e que o poeta continue ousando inscrever seus versos nos pórticos que se abrem para a liberdade...
Beijo.

Genny

Agostinho disse...

O poeta abriu a janela e com a ventania
entrou, como se vê, muito gozo e inspiração; tanto assim que, até Pessoa deixou o Martinho e veio sentar-se à mesa do Manuel.

Laura Santos disse...

O poema invade a casa e tudo se agiganta. Ocupa o espaço e a mente exigindo mordomia, e embora fingindo não mente, porque a quem ama não se serve dobrada fria.
Muito bom!
xx

© Piedade Araújo Sol disse...

e senta à mesa não o poema, mas quiçá o poeta e uma nesga de ironia e muitos sentimentos entrelaçados...

beijinho

:)