quarta-feira, fevereiro 17, 2016

DESIGUAIS ARMAS...


No pórtico do Desejo, no outro lado. Na oceânica 
Convulsão dos deuses. Onde Eros e Thanatos se confrontam
Em negra Servidão - e desiguais armas!

Nesse absoluto magma onde Luz e Sombra
Se fundem. E se confundem. E todos os detritos
(diurnos e nocturnos) são combustão e miasmas.
E onde sem razão ou capricho oníricas formas
Se buscam.

E se desenham sinais e se atam os fios do Todo
Inominado ainda. E o Tempo é suspiro -
Notas de um ruído surdo de Solidão e Vácuo.

Nesse lugar infecto em que todas as finitudes são
Luminescências do Acaso. Vida e Morte que se anunciam.
E o Desejo que se franqueia a este lado.
Tempo matricial, embora. E o absurdo que se nomeia
Como Mito. E a Palavra que se anuncia.
Interdita. Ainda.

Erguemos então as colunas. Nesse lugar.
E as aras. E as vestes. E a redenção da Palavra.
E erguemo-nos do Nada. E mergulhamos na Tragédia.
E na euforia. E no Prazer frustre.
E decaímos.

E nos celebramos. Divinos.
Fogo e Água. Senhores do Nada. Negreiros.
Receptáculo dos deuses. Por onde assoma
O Suor. E a eterna Lágrima.

Manuel Veiga


13 comentários:

Mar Arável disse...

Na complexidade do simples
a tua poesia filtrada de palavras
revela sempre uma miríade de imagens
bem definidas
assume-se no belo ritmo onírico
de um bando de pássaros que resiste

Abraço sempre

Rogerio G. V. Pereira disse...

e porque são desiguais as armas
são as tuas palavras
também elas,
apesar de belas,
interditas. Ainda

Suzete Brainer disse...

Amigo querido,
Fico paralisada com a tua força poética,
a palavra que em ti sempre altiva e absoluta
a percorrer caminhos tão intensos e ricos
imageticamente, a nos inundar a alma com a
beleza, com o dolorido e com a infinitude
da significância rara, em que a palavra em
ti se entrega de forma única e imprescindível
ao rio Poético do Manuel Veiga!!
A tua poesia me emociona diante da grandeza
maior alcançada!...
beijo.

Laura Santos disse...

Debatemo-nos entre Eros e Thanatos, e nessa luta quem ganha é a divina condição humana do homem; no esforço e na lágrima.
Um poema de profundidade e força impressionantes, na Palavra que não se rende.
Excelente!
xx

MARILENE disse...

Só me resta aplaudir, o que sempre faço quando venho aqui. Seus versos são preciosos, ricos e bem distantes da efemeridade. Nascem para mostrar o valor da palavra e de sua força, que não se vão quando a madeira se transforma em cinzas. Maravilhoso! Abraço.

Helena disse...

"E nos celebramos. Divinos.
Fogo e Água. Senhores do Nada. Negreiros.
Receptáculo dos deuses. Por onde assoma
O Suor. E a eterna Lágrima."

E assim somos definidos...
Belíssimo poema!

Um sorriso e uma estrela a brincar no teu final de semana,
Helena

Jaime Portela disse...

As armas sempre foram e continuarão a ser desiguais.
Tal como as minhas, claramente insuficientes para comentar este soberbo poema. Mas sei que gostei e que é muitíssimo bom.
Bom fim de semana, caro amigo Veiga.
Um abraço.

Majo disse...

~~~
Mito belo, mas arrasante!

Tal como uma condenação
do «Juízo Final», sem qualquer esperança.

Nunca te li, tão apologista do ceticismo...

~ Bom fim de semana, Poeta amigo. ~
~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~

© Piedade Araújo Sol disse...

Armas desiguais
Tragédias (gregas) ou não.
Mitos (serão)
Palavras (sem pão)
Misericórdia
Deuses
E porque a lágrima
Eterna
Sempre eterna.

Beijos
:)

Lídia Borges disse...


Já o li várias vezes.

Não dá margem para comentários. Perfeito!


Lídia

jrd disse...

Tal como as antigas, também as "mitologias" do futuro têm de ser decifradas e cumpridas.

Abraço poeta irmão

AC disse...

A constante elevação do barro, feito homem.
Muito bem, meu amigo!

Um abraço

Agostinho disse...

Num poema superior o poeta encanta o espíritos terrenos.

Deuses
como deuses imaginados
à dimensão divina
montamos e desmontamos as colunas
do próprio templo.
Assim foi é e será ?
Abraço