domingo, maio 15, 2016

MEU AMIGO ZECA e as Intelectuais...


Dona Ludovina que, em sua solicitude, o guiara, à chegada, nos meandros da Agência e, na generosidade de sua carne exuberante, velara pela educação sentimental do Rapaz, levou também muito a peito o robustecimento do seu espírito. Foi assim que o introduziu numa “selecta tertúlia” (palavra de Ludovina), depois de rasgados encómios ao seu (dele) talento literário.

Pontificava no grupinho um casal, recentemente regressado de Paris, onde no rescaldo de todos os Maios, proclamava, em beatitude, que a História estivera ali mesmo, na polpa de seus dedos. Ele era um homenzinho baixo e enfezado, a rondar os quarenta anos, de careca reluzente e de pêlos indiscretos, no nariz e nas orelhas. A barriga empinada e as pernas curtas emprestavam-lhe um ar de aranhiço prestes a armar a teia. O olhar líquido e redondo, por detrás de uns óculos de tartaruga, acentuavam-lhe a famélica postura da aranha à espera da presa...

O homem, porém, quando a cerveja escorria, de tudo falava. Nem era necessária plateia. Conhecia todos os argumentos. Entre os existencialistas e marxistas (peleja fora de moda, dixit) tomava naturalmente partido pelos primeiros. Discorria com ardor sobre o “nouvau roman”. O cinema e a “nouvelle vague” não tinham segredos. Também os estruturalismos de todos os matizes. Tratava por tu Althusser, Lacan, Foucault, Derrida.

O homem era nitidamente um semiótico!...

A rapariga, - Cléo para os amigos - bastante mais nova, vivia em permanente devoção. Acendia-lhe os cigarros. Colocava o açúcar no café. Mexia e remexia. Carregava os jornais. Assinalava os artigos e notícias de interesse. Sacudia-lhe a caspa dos ombros. E eu sei lá o que mais não lhe faria!...

A moça era engraçadota, mas fisicamente desleixada, como era chic na sua condição. Num caderno sebento, de folhas azuis e linhas, escrevia seus poemas, onde quase sempre “a alma se encandecia nas torpezas do saber...”

Aconteceu que, um dia, o Rapaz, depois da Agência, na sua passagem pela leitaria, deparou com a Cléo sozinha, na mesa habitual. Explicadas as razões e, depois de minutos de conversa, palavra puxa palavra, olhar pede olhar, a ocasião faz o ladrão e estavam os dois falando de... amor e sexo. E ela categórica “comigo não te vale a pena não presto na cama” e ele a dar-lhe “não há como experimentar” patati...patati...patatá e ela não se fez rogada e ele que não pensava noutra coisa há semanas, meu dito meu feito e meia hora depois estavam os dois na cama.

O Rapaz, que passara com distinção no estágio com Dona Ludovina, usou de todo arsenal de recursos aprendidos e inventou outros. A Cléo, porém, nada! Nem um gemido, nem um movimento, nem uma carícia, nem um esgar, nem uma palavra de estímulo, nem um fingimento. Nada, literalmente nada!... Um corpo inerte e amorfo. Apenas os olhos se reviravam nas pálpebras em cada assalto (frustrado, naturalmente).

Digam-me lá, se por mais esforçado e maior o talento do jovem, alguém numa situação daquelas, sem o mínimo de abnegada colaboração por parte da Cléo, poderia resistir e completar a fixação erótico sexual em que durante semanas discretamente mergulhara e o dispersavam do apuramento da escrita e das exigências do fulgor literário? Pois bem, o Rapaz desistiu. Ela bem avisara, mas o rapaz jamais lhe perdoou e desistiu. E nunca mais compareceu ao chamamento da Literatura, de que Leitaria era Templo e cenáculo de saber e cultura. Para arrelia de Dona Ludovina, que bem buscava razões que nunca soube.

Agora, à distância, o Rapaz julga ter sido, no tamanho daquela frustração literário-erótica que ficaram, definitivamente, soterradas suas promissoras veleidades literárias. Outro fora o desempenho sexual da Cléo e outro teria sido o destino do jovem, hoje, certamente, autor consagrado. Assim, está claro, por causa de semelhante embaraço estético erótico, a Pátria perdeu um intelectual eminente e a Literatura (com maiúscula) um epígono dos maiores. Um outro prémio Nobel, quiçá!...

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Tempos depois, o Rapaz contou a cena ao seu amigo Zeca, alentejano de Beja, solteirão impenitente, “bon vivant” e economista do Quelhas, como faz questão de acentuar:

- “É bem feito! Quem te manda a ti frequentares intelectuais?!” - Soltou numa gargalhada! - “Não sabes que as mulheres para a cama devem ser burras?”

O Rapaz embatocou. Mas passados uns momentos, já recomposto, meio sério, meio a rir, perguntou:- “E se forem burras e intelectuais?”

- “Então é a desgraça completa! Não te invejo a sorte!...” – rebolou-se o Zeca, babado de gozo...

O meu amigo Zeca é um tipo bem caçado, reconheçam!...




11 comentários:

Ana Tapadas disse...

Tu tens um olhar agudo, meu amigo!
Interessante.

Beijo meu

Graça Pires disse...

O teu amigo Zeca é um tipo bem caçado, reconheço!... E um pouco à maneira daquilo que muitos homens pensam... A tua imaginação não tem limites.
Um beijo, meu amigo.

Armando Sena disse...

Economistas e intelectuais é a negação da intercessão ;)
Ab

heretico disse...

estimável Sena,

que coisa é essa de "intercessão"? carne? peixe? alguma enxertia especial?

olha que meu amigo Zeca não é um economista qualquer: sabe da poda e chama os bois pelos nomes...

saúde e bons ares!

Suzete Brainer disse...

Caro Escritor,

Um conto de excelência, assim seria com a tua literatura sempre.

Agora os estereótipos dançam na vida real.
Sugiro para o personagem Zeca, o porta voz do homem
medíocre, este se sente confortável com a mulher "burra",
a prestadora de serviços gerais. E como ele não faz ideia
que a inteligência é sedutora.
Também não aprecio reuniões de intelectuais acadêmicos,
na maioria das vezes muito longe de um exercício criativo
da inteligência...rss

Agora, a tua literatura é mais do que um exercício
criativo da inteligência, caminhas na essência da
grande literatura, Manuel!
Bjs.

José Lopes disse...

O Zeca deu uma caricatura, que não poucas vezes se revela certa, eheheh
Cumps

Majo disse...

~~~
Grandes generalizações, à revelia do método científico...

Beijo, amigo João.
~~~~~~~~~~~~~~~~~

heretico disse...

Majo,
amigo João?
ok, estás perdoada.

o Zeca desculpa e eu também rs
acontece a quem tem muitos amigos a confusão de nomes...

Majo disse...

~~~
Desculpa, Manuel.

Fiquei preocupada com o João,
por estar doente.

Dias brilhantes e felizes.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

© Piedade Araújo Sol disse...

...
num estilo diferente aquilo que estou habituada a ler, muito original e que me deixou a sorrir.
gostei de ler (ainda a sorrir).
beijinho
:)

Agostinho disse...

Esta narrativa de conteúdo mais leve mantém a erudição e perfumes habituais. Parabéns.
O Zeca é "bem caçado" ou bom caçador, "aclimatado" aos espaços onde a seara se alinda ao suave ondular do vento suão?