domingo, julho 31, 2016

OS ÓRFÃOS DE ALEX....

 
Gosto de locais e pessoas com carácter. Por vezes, são ligeiríssimas marcas, que traçam as linhas de fractura da “arqueologia” dos tempos sociais sobrepostos. No outro lado do rio, Cacilhas ou a Trafaria, são desses locais de culto.
 
Há tempos atrás, almocei em Cacilhas. Almoço de Domingo de famílias completas - avós, filhos e netos à mesma mesa. O encontro semanal das solidões compartilhadas no breve espaço da refeição. Incontornáveis aqueles rostos-testemunho, abertos ao exorcismo da memória. Os velhos de rugas marcadas e de olhar alto, órfãos de Alex e de Bento Gonçalves, perscrutam a minha mesa, com a altivez e dignidade. São velhas árvores que morrem de pé!...
 
Os filhos saídos do bojo dos estaleiros ou do arsenal, barcos carcaças nas margens do progresso e da reconversão económica, afogam na espuma da cerveja, a utopia mobilizadora de outrora. Os filhos, adolescências sem fronteiras - a cidade do outro lado, em incursões nocturnas e brinco na orelha. A ganga, agora, é “t shirt” em algodão de feira!...
 
(Donde esta minha dor?)
 
Corria em passo de trote (qual cavalo amestrado em picadeiro) o empregado de mesa. Não andava de pressa, corria mesmo, em passo de corrida, cadenciado, sem um momento, sequer, perder o ritmo por entre as mesas. Ligeiramente corcunda. Quarenta/cinquenta anos, talvez!... Longe o tempo de “marçano”, subindo escadas e galgando ruas com os caixotes de mercearia às costas. Empregado de mesa era seguramente promoção social...
 
Fixei-me no homem, seguindo as evoluções circenses de pratos e travessas. Tentando (re) escrever, na minha fantasia, o percurso da sua vida e vislumbrar onde o homem teria chegado na sua determinação, se porventura tivesse sido “outra pessoa”, quer dizer, tivesse tido outras condições de vida. Enfim - desabafava eu intimamente – “o homem é ele e a sua circunstância”.
 
E, talvez, por aí me ficasse, descendo ao peixe grelhado e ao vinho branco...
 
Então, minha mulher que conhece os meus silêncios e, por formação, conhece a morfologia da repressão e do medo, intrometeu-se no meu desvario: - “imagina os estalos que este homem apanhou em criança para, nesta idade, correr assim, com tamanho zelo!”...
 
(Uma gorjeta calará a minha angústia?)
 
Manuel Veiga

"Notícias de Babilónia e Outras Metáforas" - pág.92 - Modocromia Edições - Lisboa 2015

5 comentários:

Graça Pires disse...

"O homem é o homem e a sua circunstância". Lembras bem o filósofo Ortega y Gasset. O teu olhar sensível e preocupado, como mostra esta tua narrativa
tão perto do coração, lembra-me que há tantas pessoas que para chegarem a qualquer lugar tiveram que trilhar os caminhos mais duros...
Entendi a tua dor...
Um beijo, meu Amigo.

© Piedade Araújo Sol disse...

um texto muito bem escrito que também me deixou com um nó na garganta...

sublime a tua prosa

boa semana.

beijo

:)

maria franco disse...

Pedaços de vida, com gente dentro.
Gostei.

Pedro Luso disse...

Caro Manoel, esta crônica é de fato especial,
explicar o porquê iria conspurcá-la. Importante
é fazer sua leitura, quem sabe sua releitura.
Uma ótima semana.
Abraço.
Pedro.

Lune Fragmentos da noite com flores disse...

A crónica real dos costumes 'modernos'... com laivos de outros que em nada mudaram. Infelicidade de todos.

beijo,