quarta-feira, agosto 10, 2016

FORMOSURA (S)...


Dois rectângulos concêntricos e uma rua perpendicular em direcção à praia, definem a centralidade da simpática vila. Bordejando o rectângulo exterior, restaurantes e amplas esplanadas que, nas noites encaloradas, regurgitam.
 
Ultrapassada linha da rua, o rectângulo exterior encolhe, proporcionalmente, em cada lado, e define uma praça aprazível, onde a criançada se solta e os velhos se sentam, reclinados em bancos de alvenaria. Ao centro, um fontanário sem água...
 
E são, agora, os artesãos e artistas a colorir o rebordo interior da praça. Jovens, alguns deles com crianças pela mão, que, no jogo da vida e na falta de emprego estável, fazem seu ganha-pão, na vontade decidida de não baquear, derrotados. Comovente esta determinação...
 
A rua principal, descaída para o lado esquerdo estende-se, por uns cinquenta metros, em direcção ao marulhar das ondas, escondendo, lá ao fundo, na rarefacção da luz, sabe-se lá que amores ou pecados... De um lado e outro da rua, restaurantes e lojas de quinquilharias, hierarquizados no gosto e na qualidade, à medida em que se desce e se afastam o centro...
 
Do lado sul, encostada ao limite exterior da praça, uma capela setecentista convive, separada apenas por estreita quelha, com um apreciado bar, onde, uma vez por outra, se ouvem canções em voga. Cá fora, para compensar a limitada lotação no interior, um balcão provisório, em plena esplanada, que serve em pé, caudais de cerveja e outras bebidas.
 
Como se compreende, este é o centro daquele espaço fervilhante...
 
Acresce que, a escasso meio quilómetro, um parque de campismo alimenta, em vagas sucessivas, a fornalha crepitante dos corpos misturados. Nada os distingue, apenas o olhar atento. A grande fractura é apenas a idade...
 
Tive sorte naquela noite. Acabadinho de chegar à apinhadíssima esplanada, vagou uma mesa bem encostada ao bar, em local estratégico, que permitia desfrutar, em grande plano, o horizonte da praça e, em pormenor, olhar os rostos, assim próximos, na moleza da noite estival
 
Enquanto bebericava um moscatel do Douro (cuidado com as imitações) e minha mulher o inevitável chá de ervas, dei-me conta do quarentão casal da mesa em frente, acompanhado de duas filhas, naquela idade indefinida entre juventude e a adolescência.
 
Todos enormes - não direi gordos, pois o excesso de “bagagem” era harmoniosamente distribuída por todo o corpo. Direi até que, nos gestos e no porte, transparecia uma certa elegância que fazia esquecer o óbvio excesso de peso...
 
À frente de cada um, uma vistosa taça de gelado. Que, com manifesto prazer, cada qual, saboreava, em seu estilo peculiar. Quase ao mesmo tempo terminaram, deliciando-se com a última gota...
 
Foi, então, que o homem, até aí de costas, se levantou. Dirigiu-se ao bar e, passados minutos, enquanto as mulheres tricotavam uma qualquer conversa, surge, glorioso, ostentando enorme e festiva travessa, engalanada com gelado de todas as especialidades, mediante as palmas das filhas e o sorriso dos circunstantes.
 
Como em ritual pré-estabelecido, cada um, com sua colher, atacou a montanha de gelado. Deliciados e indiferentes...
 
Pressenti alguma incomodidade inicial no olhar com que a menina mais nova, de vez em quando, me brindava. À medida, porém, em que o gelado se derretia, também seu olhar. A vaga irritação deu lugar a uma discreta volúpia de gestos, em que o gelado e a boca, se transfiguravam em metamorfose do Desejo.
 
- “Talvez Eros seja um deus voraz e efémero, como gelado em noite de Verão”- murmurei para os meus botões...
 
(Fora eu escultor e gravaria, em pedra, o momento)
 

Manuel Veiga

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Crónica revisitada. Como peregrinação a um local de culto.
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Procurarei administrar, o melhor possível, "ausências" e "presenças" até Setembro.

Beijos e Abraços

 

14 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Excelente e colorido
quadro

e...
boa gestão
meu irmão

Majo Dutra disse...

~~~
Revisitada e muito bem cuidada.
Boas férias...
Bj ~~~

maria franco disse...

Uma excelente descrição de observações quotidianas.
Gostei muito.
Boas férias.

Mar Arável disse...

Bela aguarela

com o teu traço
Abraço sempre

Zilani Célia disse...

OI MANUEL!
INTERESSANTE TUA CRÔNICA, DEU PARA VIAJAR CONTIGO NA NARRATIVA.
BOAS FÉRIAS.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Suzete Brainer disse...

Uma excelente crônica que nos guia aos
questionamentos do narrador e aos cenários
e personagens de uma história rica de
símbolos e comportamentos que convergem
para o movimento próprio da vida!...

Grata pela sua gentil visita e belo
comentário no meu blog.
Boas férias!

Armando Sena disse...

Geométrico, com pinceladas de mestria.
Abraço

© Piedade Araújo Sol disse...

delicioso texto...quase que consigo ver a cena.
tão bem narrado...
beijinhos
:)

maceta disse...

não fora a mesinha mesmo a jeito... e não se media o tamanho dos gelados.

boas férias e um abraço.

Tais Luso disse...

Interessante como mesmo em férias, nós, que temos o hábito da escrita, colocamos nossos sentidos em alerta, nosso olhar não pára e descobre coisas prazerosas, encantadoras. Você narrou algo prazeroso que não lhe escapou. E assim é que nascem belas crônicas, esmiuçando o cotidiano, seja na cidade, seja no campo ou mar. E nada mais belo do que a simplicidade do dia a dia.
Boas férias, amigo!
bj

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Herético.
Rico momento de observação. Daria uma bela escultura, com certeza, mas resultou igualmente em bela crónica.

Um abraço amigo

C Valente disse...

Passei e deixo as saudações amigas

luisa disse...

O momento, gravado em palavras, ficou muito bem.
:)

Odete Ferreira disse...

Dispensa-se a escultura. O momento ficou muito bem esculpido, além de que, escultura, não revelaria a subtil mordacidade!
Adoro momentos como o que relataste!
BJ :)