sábado, agosto 20, 2016

METÁFORAS E PALAVRAS EMBOSCADAS.


Sou um sujeito de palavras (e espero também que os meus amigos me tenham em conta como um homem de palavra.) Quero dizer que, desde que me conheço, as palavras têm sido meu alimento, não pelos livrinhos publicados, mas como ferramenta de trabalho no exercício de meu múnus profissional.
 
Algumas palavras, eu amo. Outras nem tanto. Outras, engasgo-me com elas. Mas julgo poder dizer, sem excessiva presunção, que a todas elas sei usar, com propriedade, no momento e nos locais certos.
 
E, confesso-vos, que ultimamente trago engasgada a palavra “metáfora”, tal é a profusão de metáforas, que empanturram nossas vidas. Mais de que uma moda, são uma autêntica praga! Não acreditam? Basta espreitar as “metáforas do consumo” (p. exemplo, as marcas, as embalagens, etc.)  ou alguns blogs (ditos literários) e teremos “metáforas” para todos os gostos, algumas das quais, embora emproadas, não passam intragáveis charadas.
 
Não imaginam, por exemplo, como depois da consagrada e certeira “Jangada de Pedra”, a “pedra” medrou no mundo das charadas, perdão das metáforas. Um verdadeiro filão. E quando digo pedra é pedra mesmo – não calhau! Calhau não tem dignidade de metáfora. Pode até, (no mundo das metáforas, está bom de ver) descobrir-se, no interior da pedra, “um coração ardente a palpitar” – mas calhau, nunca!...
 
Por isso, proponho-me daqui em diante, prestar mais atenção às “palavras emboscadas”, ou seja aquelas que verdadeiramente “determinam o sentido do discurso, sem porém o dizerem”. É que se as metáforas “reluzem”, as palavras emboscadas seduzem-(me).
 
Como se sabe o sentido metafórico, é sentido figurado, cujo efeito se extingue no momento em que a metáfora é lida. É uma espécie de embalagem reluzente que atrai a leitura, mas se deita fora, mal a mensagem “metafórica” seja decifrada.
 
As palavras emboscadas são “coisa” diferente. Não se exibem, actuam. Não proclamam, “decidem” a significação e o sentido. E até o contexto(s) de leitura. Estão presentes, mas não gritam. Podem até conviver com metáforas e usá-las e desventrá-las, mas “o seu reino é de outro mundo”- as palavras emboscadas fingem o que (não) são! E negam-se. Negam-se, sempre! Qual “poeta fingidor/ que finge tão completamente/ que até parece ser dor/ a dor que deveras sente...”
 
Ou se quiserem, de uma maneira mais prosaica, as palavras emboscadas fazem lembrar certas senhoras da sociedade, que garantem, juram e trejuram que nunca comem carne à Sexta-feira. E que, surpreendidas e engasgadas, com bife filet mignon, garantem, juram e trejuram que comer carne, à Sexta-feira, é outra coisa...
 
Claro que as palavras emboscadas são “perigosas”, porque seduzem e convencem. Talvez por isso são tão queridas da publicidade e da política (de alguns políticos, helás!, que muitos são tão básicos que, nem sequer sabem de metáforas). E na literatura também. São elas que revelam os escritores de talento. E definem as obras-primas.
 
O problema é que, as palavras emboscadas, como qualquer outro signo linguístico, se prestam ao engodo e à trapaça. E quando assim é a literatura não passa de uma farsa. Ou ainda mais grave, de mera agência de recados literários, ou outros.
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Garanto não existirem, neste texto, palavras emboscadas. Mas se descobrirem alguma, NEGO!
 
Manuel Veiga.
 
 
 

24 comentários:

jrd disse...

Mas que belo e implacável arremesso que acertou em cheio em muitos narizes-de-cera que por aí andam a fungar.
Um abraço fraterno

Licínia Quitério disse...

Certeiro como sempre. Ai as palavras emboscadas que tu lês e eu leio. "But Cesar is an honourable man"...
Abraço sentido.

Graça Sampaio disse...

Belo texto, menino heretico, estruturado, estudado, completo - algo mordaz (?)

Mas só lhe digo: um Professor muito conceituado das Letras dizia que a metáfora é única figura de estilo; todas as outras decorrem dela. Se calhar até as «palavras emboscadas»...

Aristóteles dizia que «através da metáfora a alma vê mais e mais longe» e isto, só por si, é muito belo!

Beijinhos metafóricos...

luisa disse...

Até fiquei apreensiva... Vou ler devagarinho e seguir muito atenta as palavras.Vou pé ante pé,com muito cuidado, não se dê o caso de cair nalguma emboscada.
:)

Pedro Luso disse...

Caro Manoel,
Li com toda a atenção que merece este seu texto, que muito me agradou, e no final fiquei pensando se você já leu poemas de João Cabral de Melo Neto, um dos nossos poetas mais importantes, estando à altura dele apenas Carlos Drummond de Andrade e Manoel Bandeira. A poesia de João Cabral é a mais econômica em metáfora, e quando a faz é com inquestionável precisão, como no poema

CEMITÉRIOS PERNAMBUCANOS

Para que todo este muro?
Por que isolar estas tumbas
do outo ossário mais geral
que é a paisagem defunta.

A morte nesta região
gera dos mesmos cadáveres?
Não os fabrica de caliça?
Terão alguma umidade?

Para que a alta defesa,
alta quase para os pássaros,
e as grades de tanto ferro,
tanto ferro nos cadeados?

– Deve ser a sementeira
o defendido hectare,
onde se guardam as cinzas
para o tempo de semear.

-/-/-/-/-

Um bom domingo.
Grande abraço.

Manuel Veiga disse...

meu caro JRD

olhamos, olhamos, desejamos ver um cachimbo, "mas não é um cachimbo" - salta de lá uma metáfora!

e se calhar não nos vemos livres delas (das metáforas), mas ao menos que venham em bom estado!

abraço, meu irmão

Manuel Veiga disse...

pois é, minha querida amiga Licínia!

mas não podemos deixar degradar as palavras, nem as metáforas que ambos gostamos - e usamos! rss

beijo

Manuel Veiga disse...

Graça Sampaio, minha amiga

... e que não viesse daí uma gracinha tua!

pois fica sabendo que gosto muito de metáforas! por uma boa metáfora até sou capaz de mergulhar no rio Liz.

mas como sabes Aristóteles e seu projecto de "vida boa" recomendam equilíbrio e moderação e não excessos.

beijo.

Manuel Veiga disse...

Grato, Pedro, pelo seu tempo (que imagino escasso) para ler e comentar o meu texto.

e muito grato também por ter evocado João Cabral de Melo Neto, de facto, também para mim, um poeta dilecto.

que a cinza das metáforas sirvam o "tempo de semear", como desejaria o Poeta!

forte abraço, meu amigo

Manuel Veiga disse...

Luisa,

já tinha notado que a minha amiga não gosta de "meter o pezinho na argola"...

mas deixe que lhe diga que as palavras emboscadas não quer dizer que sejam uma armadilha - há tantos motivos para as palavras se esconderem.

beijo

Mar Arável disse...

Que viva a poesia

mesmo a que respira por guelras

Abraço amigo

Suzete Brainer disse...

Caro Manuel,

Este teu brilhante texto nos proporciona evidenciar a diferença da
importância da linguagem metafórica na literatura e principalmente
na poesia e do excesso desta linguagem a sujar os elementos
simbólicos linguísticos com o uso na vulgaridade de expressar algo menor,
onde se localiza o espaço das palavras emboscadas, uso da linguagem
indireta, uma expressão para mim, covarde e desprovida de uma
elegância de caráter e alma.
"As palavras emboscadas fingem o que (não) são!"

Enfatizo a explicitação conceitual do texto sobre as palavras emboscadas
são "perigosas" e "como qualquer outro signo linguístico, se prestam
ao engodo e a trapaça." As ricas metáforas, criações originais e
nobres (quando são...), "revelam os escritores e talento. E definem
as obras-primas."

Este teu excelente texto (confesso que aprecio a ironia mordaz nele...)
com conteúdo didático sobre os elementos linguísticos a diferenciar da
vulgaridade e excesso do uso destes elementos no caminhar com
o exercício do ato de escrever.

Para mim, a linguagem é também uma forma rica da expressão
comportamental e ética daqueles que escrevem.

Apreciei deveras e grata pela valiosa partilha, meu amigo!
Bjs.

Manuel Veiga disse...

Mar Arável

que viva a poesia que merece viver - a que respira livremente!
("Poesia, Liberdade Livre", A.R. Rosa)

poesia a "respirar por guelras" deve ser um enorme sufoco!

abraço amigo

Manuel Veiga disse...

Suzete, minha amiga

grato pelo fecundo e informado comentário que, na minha perspectiva, abre novos caminhos de reflexão.

de facto, para além da dimensão "estética" (digamos assim), a minha amiga remete também para a dimensão "ética" da escrita e do escritor.

oportuno tema, que espero a minha amiga, com o talento e a sensibilidade que lhe reconheço, possa vir a tratar com profundidade para maior esclarecimento e gosto daqueles que como eu, são seus admiradores.

beijo

Mar Arável disse...

Se o dizes ...
quem sou eu artesão de metáforas
para te sugerir mais um prefácio.

Abraço

Manuel Veiga disse...

novo livro? que bom!
mas vou ter convite para o lançamento. espero

abraço

Tais Luso disse...

Olá, Manuel, muito pertinente seu texto. O que tenho visto, com muita frequência, é o uso indiscriminado de metáforas, inclusive em pequenos poemas, mas isso em demasia distorce, dificulta a ideia de quem lê o poema, pois é um uso muito individual, e que mais sabe é quem o pratica.
Sou a favor das metáforas, são belas, poéticas sim, porém com cautela! Certos poemas vêm tão carregados de metáforas que requerem várias leituras. E por que que não construir algo mais puro - sob o ponto de vista linguístico?
Não sou poeta, mas sou leitora deles! E as coisas precisam ser mais simples, menos empoladas!!
bjs, amigo.

Manuel Veiga disse...

Tais, minha amiga

grato por meu texto merecer a sua atenção e o seu comentário.
é exatamente isso que me "irrita" nesta questão das metáforas - o "empastelamento de sentidos" e o "forçar" das palavras que por vezes tornam o poema intragável.

beijo

Graça Pires disse...

Então, meu querido Amigo Manuel? As metáforas começaram a mexer com os teus nervos? Compreendo-te. Tantas vezes, mesmo sem querer abusamos delas...
Lembrei-me de um poema de José Jorge Letria do excelente livro "A sombra do Rei Lua" em que ele faz intertextualidade com Mário de Sá Carneiro e que diz:
"Pudesse eu interromper este ciclo em que as metáforas me atormentam e ter um rosto apenas para medir a intensidade da mágoa que me empurra para a dispersão total..." Como vez todos os poetas se atormentam com elas... Antes não nos desse para escrever... Gostei de te ler.
Um beijo.

Manuel Veiga disse...

Graça, minha querida amiga

"antes não nos desse para escrever..."

uma vez que nos deu para escrever aguentemos então as grilhetas da nossa servidão.

abaixo as metáforas!

beijo

Agostinho disse...

Sujeito de palavras e sujeito às palavras. Se o mundo (de) hoje roda muito para além da sua própria animação, onde tudo é simulação, onde a verdade é palavra escondida, emboscada, onde mora o brilho da metáfora espontânea?
Importa é que o sujeito se mostre activo, reactivo à metáfora de lata da gente com muita lata que por aí abunda.
Como sempre, muito bem escrito.

Manuel Veiga disse...

Agostinho,

grato pela tua esclarecida opinião que, de alguma forma, aprofunda este tema.

agradeço também a amabilidade, que registo, de teres comentado os textos anteriores

abraço, meu amigo

Pata Negra disse...

Acho que ao vir aqui, caí numa emboscada! Para a próxima venho embuçado como o do fado - o outro! também monarca! - Desse modo não me apanhas, desnudado e sem vontade de pensar!
Diria que de tão pouco pensar, quase já não existo!

Um abraço e bom natal

Manuel Veiga disse...

oh, oh, até tu, Monarca de quem e de além, vens a "embirrar" comigo?
não existes, mas marcas ponto(s).

no Natal temos metáfora grelhada, no lugar do courato de costume...

palheto ou tinto?

abraço