sexta-feira, setembro 23, 2016

IDADE DA INOCÊNCIA...


Teciam carícias como flores. Sobre a relva, os corpos ébrios de espaço e o rodopio - céu e terra misturavam-se na vertigem. Depois exaustos, caiam e enrolavam-se, em fusão de adolescência e Primavera.
 
Então ele tecia grinaldas de malmequeres e enfeitava-lhe os cabelos, em glorificação pagã de tempos futuros, pois agora de nada sabiam: eram inocente pulsão de vida. Ela ria. O marfim dos dentes, o vermelhão húmido dos lábios, os seios a despontar no estampado da blusa. Ele atrevia-se. Por vezes, ao joelho destapado. E a mão a subir à coxa, tremendo de novidade e emoção.
 
E a voz esquiva, no sorriso: “Está quieto. Aí, não!...”
 
E corriam, de pássaros nos olhos, levantando revoadas...
 
O sol criava reflexos de oiro nos olhos verdes de Joaninha. Queimavam. Ele abrasava no sangue revolto. Ofegante, crescia.

Olhava-a: "Dá-me um beijo!...” – dizia em oração murmurada.
 
Perversa e risonha, Joaninha apontava o rosto. Desiludido e amuado, o rapaz teimava: - “ Tu prometeste. Dá-me um beijo!...”
 
Então Joaninha ergueu-se, majestosa. E com a mão, em concha, a proteger os olhos, alargando o olhar para além do horizonte, sorriu, em arrepio de infinito:
 
“Dou-te um beijo, se me disseres onde fica o mar...”
 
O rapaz, naquela tarde, inventou os oceâneos e as marés...
 
 
Manuel Veiga
 
 

19 comentários:

jrd disse...

Um texto de encantamento. A beleza da prosa poética.
Abraço meu irmão

Rogerio G. V. Pereira disse...

Belo, muito belo!

É quase sempre assim,
na idade da inocência
Se não se conhece o quer que se seja
O quer que seja, se inventa

Mas... inventar o mar...

Pedro Luso disse...

Aí está, amigo Manoel, uma prosa poética
sua que merece todos os elogios. Parabéns.
Um abraço.
Pedro.

Jaime Portela disse...

Na idade da inocência tudo é mais puro...
Magnífico texto, gostei imenso.
Caro Veiga, tem um bom fim de semana.
Abraço.

Maria Eu disse...

O encanto do amor primeiro!

Beijinhos :)

Fê blue bird disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mar Arável disse...

Um dia seremos de novo crianças(?)Regressaremos(?) à idade da inocência(?)
Com a cumplicidade dos mares e das marés as minhas interrogações sublinham o teu belo texto.
Abraço de sempre

luisa disse...

Muito bonito, como uma lenda. :)

Manuel Veiga disse...

caro Mar Arável,

devolvo-te a pergunta para outra instância: regressaremos à "Comuna de Paris"? É claro que não! E, no entanto, esse primevo e matricial acontecimento histórico permanece "vivo" como "lugar de Utopia" (política). Ou não?

quero dizer (o meu texto é mera ilustração) que também há um "lugar da Utopia" (do amor), que, em minha modesta opinião, deverá servir a "praxis" do amor em todas as sua manifestações.

(como compreendes, apenas a amizade me levaria a este "suar" intelectual (?) a esta hora da manhã rss)

abraço de sempre.

Tais Luso disse...

Que linda essa prosa poética, amigo Manuel!
A inocência é uma das fases mais belas da vida, isenta de maldade, invejas e deixa o coração aberto, receptivo. Pena que seu período é muito curto. Depois nasce outro ser humano.
Beijo, meu amigo, uma boa semana.

Graça Sampaio disse...

Muito lindo!! É, de facto, ume heresia escrever tão bem!!

Beijo.

Emília Pinto disse...

Apesar de já termos dado muitos passos neste caminho, por vezes tortuoso, nesta vida, como o mar, cheia de marés, podemos sempre viver momentos de inocência, diria até que seria urgente vivê-los, para que nos seja mais fácil continuar " a remar, tantas vezes " contra a maré" . O amor é o que nos impulsiona e se ele puder ser vivido como nos tempos idos, naqueles tempos em que todos os sonhos, todas as ilusão eram permitidas, a vida tornar-se-à muito mais leve. Não é fácil, mas vale a pena tentar; o mar lá está....não o podemos trazer, mas podemos sempre admirá-lo e guardar no coração aquela bela mistura de cores que só ele nos pode oferecer. Amemos sempre, mesmo que a idade da inocência já vá longe, mesmo que já há muito não tenhamos visto sequer uma " grinalda de malmequeres" e mesmo que o sol teime em não aparecer. Sem esse amor não haverá primaveras! Amigo, obrigada pelo maravilhoso momento poetico e que tenhas uma bela semana. Um beijinho
Emilia

GL disse...

A idade de todas as idades, a que cunha as que se lhe seguem como ferro em brasa.

Abraço

Graça Pires disse...

Encantatório, Manuel! Um brilho incorruptível é o que permite voltar à inocência. Dar-lhe a forma de um tempo em que, com as manhãs rebentadas no peito, se inventam todos os mares, todas as marés, todas as nascentes, todas as sedes...
Maravilhoso o que escreveste. Li-te ouvindo o piano íntimo de Ludovico Einaudi.
Um beijo, meu Amigo.

anamar disse...

Nao tenho palavraa para tanta beleza....


Este verao, na praia , alguem so me deixava comer uma bola de berlim se eu cantasse.

O teu poema trouxe me essa memoria.

Obrigada pela tua visita. Tenho andado longe e aem computador. ..

Beijinho grande.

© Piedade Araújo Sol disse...

delicioso

a inocência e o tempo em que se pode inventar até o mar

gostei muito

beijo

:)

Suzete Brainer disse...

Esta prosa poética tem uma inscrição única de beleza, do encantamento
evocado pelas palavras com a imagética sublime do amor inocente ( o título diz:
"Idade da Inocência...).

A originalidade da narrativa no tom tão encantador, que surpreende
a nós, o(S) leitor(es)com o desfecho a criar "o mundo" em nome do amor,
na grande invenção do (a)mar!...

Bravo, Poeta amigo!
beijo.

Odete Ferreira disse...

Sei que já tinha lido, deve ter sido pelo TM (adicionei alguns blogues aos favoritos - não soube fazer doutro modo - mas é raro comentar através dele).
Deliciosamente "inocente" e de uma beleza a tocar a emoção.
Meu respeito :)

graça Alves disse...

Uma maravilha de texto!
Parabéns!
beijinho