sexta-feira, dezembro 23, 2016

Um Cântico de Vida


Gosto de pessoas. Por vezes próximas, respirando ao mesmo ritmo!.. Outras (quase sempre) apenas momentos, riscos de acaso, meteoritos intensos na solidão da cidade. Uma viagem de autocarro (ou de metro) é sempre uma revelação inesperada. Pequenos nada que nos perseguem (momentos, horas, dias?) e que exigem que os soltemos, de tão intensos...

Gosto de gente anónima. De seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do pulsar do meu Povo!...

Por vezes, a cor desânimo, toma o sangue. O cepticismo cria raízes e uma ironia triste ocupa o espaço da esperança. Porém, do meio da multidão, surge tantas vezes, sem nos darmos conta, uma imagem, o resto de uma carícia, uma ternura, uma beleza inesperada que humaniza e reconforta. Que nem sempre estamos disponíveis para ver e que, outras vezes, guardamos como refrigério de alma...

Falo-vos de uma viagem de autocarro entre o Rossio e o Cais de Sodré. Na curta distância, cenas dignas de um pintor impressionista - o melhor e o pior de um Povo concentrado no escasso espaço de um autocarro, à hora de ponta. Nada que seja diferente de outras viagens.

Até que...

Uma jovem mãe, de rosto trigueiro e olhar apaziguado, entrou, aconchegando no colo uma criança de escassos meses. Sozinha, face as intempéries e os balanços da vida, ali bem simbolizados nos apertos e balanços do autocarro. Um jovem, de brinco na orelha e crista de galo loira, cede-lhe o lugar (no meu íntimo, um sorriso freak!)

Acomodou-se a “minha" jovem Madalena (era, de certo, este o seu nome!) com o bebé nos braços, sereno que nem um anjo. E alheia a tudo que não fosse a sua novel maternidade, a jovem soltou o seio da blusa (mármore puro) e a boca da criança, em esplendor, buscou afoita o mamilo, assim exposto em dádiva!

Vi então olhares brilhantes nos rostos cansados dos transeuntes. Vi ternuras caladas e inesperados silêncios. Vi orações pagãs em cada sorriso!...

E, em época natalícia, a minha alma ateia, entoou um cântico de vida - "Glória in excelsis Deo!..."

Manuel Veiga  

Retomo um texto antigo.
Não (me) acontecem milagres todos os dias!







11 comentários:

Pata Negra disse...

Eu também gosto dos anónimos. Eu, ateu por fé, também gosto de alguns cânticos. Boas babilónias, boas festas, bons versos, bom vinho e um abraço real do Rei dos Leittões.

Mar Arável disse...

Os nossos milagres são fáceis de explicar

meu irmão

Abraço sempre

Agostinho disse...

... mas acaba por ser um esplêndido quadro de Natal, surpreendente para os homens sem fé, um milagre que dá para acreditar pela sua natureza. E beleza.

Na espectativa de mais presentes pelo ano fora, desejo-te, neste tempo de encantamento, as maiores felicidades com Boas Festas pelo meio.

José Lopes disse...

Uma breve passagem para desejar um Feliz Natal e um Bom Ano de 2017
Cumps

LuísM Castanheira disse...

Fantástico conto para o natal de todos os dias...
e dum micro-cosmos se faz poema num espaço/tempo onde vale a pena acreditar no humanismo.
e o poeta desfrutou dum momento sublime e que tão bem reteve e passou.
um forte abraço nesta época onde as emoções andam soltas, ao sabor do que melhor o ser humano tem.
(escrever assim é um bem...)

Tais Luso disse...

Voltando à blogosfera, meu amigo! Notei que os amigos estão voltando com suas postagens, em curso normal. Que bom, adoro meus amigos e já estou cansada das festas.
Mas quanto à postagem do vídeo, diria que é uma das mais lindas canções de Elis, carregada de emoções. E que voz...

Quanto a essa crônica, gostei imenso, uma crônica poética com passagens lindas, com encerramento hilário.

Gosto de gente anônima. De seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do pulsar do meu Povo!...

Pois é, das pequenas coisas, do simples é que nossa criatividade salta deixando registrado coisas e situações belas, que valem a pena.

Meu amigo, agora só resta a festa de mudança de ano; o que desejo a você é muita saúde, alegrias, belos poemas e crônicas! A você e sua família!
Um beijo, Manuel.

José Carlos Sant Anna disse...

Caro Manuel,

Se que um milagre é só olhar em volta, é o que você nos mostrou com um lirismo invejável. Dizer mais o que o que?
Acabei o ver o documentário Elis Regina. Se não é uma peça antológica, vale a pena vê-lo (o documentário). Andreia Horta está "impecável" como Elis. Já a música de Renato Teixeira, essa é antológica
Um forte abraço, meu caro amigo!

graça Alves disse...

Lindíssimo texto de um homem atento e sensível!
Beijinho

Suzete Brainer disse...

Um cântico de vida registrado pelo um
olhar de poeta, pinta o quadro da vida
numa bela obra de arte!...

Belíssimo!!

Beijo.

jrd disse...

Curta ou longa, uma viagem pode trazer sempre com ela o milagre do encontro.
Um abraço fraterno

Odete Ferreira disse...

Li e penso que comentei, talvez pelo tm.
Já me tem acontecido o comentário não ficar.
Agora, lapidarmente: se estivermos atentos, vêm ao nosso encontro circunstâncias que, pela pena de um escritor, quase se assemelham a contos.
Eis um caso. Lindo!
(Em esplanadas, já me acontecer apanhar cenas improváveis. Algumas, plasmei-as em breves narrativas :) )
Bjo