sexta-feira, dezembro 29, 2017

NA ORLA DOS LÁBIOS (editado)


O poema desenha-se na orla dos lábios
Na íntima tensão do verbo antes de explodir
Itinerário de sombra rente à luz.

Ou murmúrio subterrâneo de gestos
A florirem no rosto imaculado das coisas
Antes de acontecerem.

Como se Eros fosse uma falua
A singrar oceanos ignotos e o Corpo
Uma chama branca a arder no encontro
Cruzado de rotas

E no movimento líquido da Palavra
A alagar-se em fogo. Sem metáforas!


Manuel Veiga



quarta-feira, dezembro 27, 2017

OS CONQUISTADORES E O OIRO


Oferecem-se aos conquistadores estandartes de oiro
Pavilhões de plumas de quetzal
Colares de oiro
E os seus rostos brilham de júbilo,
Brilham e rejubilam
Rebrilham os rostos vorazes

Como macacos estes deuses manuseiam o oiro
E com tal intensidade o manuseiam
Que seus corações parecem renovar-se
Como se o ouro ardesse dentro deles.

Arquejam de tanto peso amarelo
E nessa fome furiosa ainda pedem mais oiro
Sôfregos como porcos.

E agarram avidamente em pavilhões e estandartes
E levantam-nos, e brandem-nos, e correm
Por todos os lados como loucos.
Falam uma língua bárbara
Falam do ouro bárbaro,
Bárbaro é tudo quando falam.

Civilização Azteca – América

Colectânea “ROSA DO MUNDO – 2001 Poemas Para o Futuro”
Edição Assírio&Alvim – Abril 2001



segunda-feira, dezembro 25, 2017

E POR VEZES....


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos. E por vezes

Encontramos de nós em poucos meses
O que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

Ao tomarmos o gosto aos oceanos
Só o sarro das noites não dos meses
Lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
Num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira


terça-feira, dezembro 19, 2017

QUASE - Mário Sá.Carneiro


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi.


Mário de Sá-Carneiro
Poeta Português – 1890/1916
.........................................................

Mário Sá-Carneiro, efémera e brilhante "torre de marfim" ! A única que frequento com prazer e que realmente gosto de ler.


M.V.

sábado, dezembro 16, 2017

PALAVRA EXACTA


Requer o poeta a palavra exacta.
Que agrida. E fira. E, arisca, acorde. E, danada,
Se bata. Na praça.

E no percurso se encandeie em qualquer pormenor
Ainda não dito. E tenha fogo.

E irrompa. E desfile – solene.
E grite. E clame…

E seja água – a palavra. E se atice.
E seja aldrabice. E ferva. Espuma quente
Que nada pode - mas teima.

Palavra que seja – palavra dada.
Palavra-ardente que em sua ardência
Se consome. Maculada.
E pura. E límpida.
E clara.

Que seja de cristal - a palavra!


Manuel Veiga

terça-feira, dezembro 12, 2017

BRANCURA LISA DO SILÊNCIO

O salgueiro, Lydia, entrega-se sem enfado
À aragem fria que vem do lago. E minhas mãos
Nas tuas são enredo que levo aos lábios
E bebo perfumadas num suspiro
De abandono.

Mergulhamos descuidados na superfície
Do tempo. E na brancura lisa do silêncio.
Nem uma ave, nem um pio magoado.
Apenas o arfar de teu peito
E a impudicícia dos seios
A arrolhar desejos
No aconchego
Macio.

E o horizonte é uma manta de retalhos
A colorir o céu de azul felino
E nevoeiro.

E meu olhar baço. Abracemo-nos, Lydia
Que este arrepio é ponto sem retorno
Expectante neste murmúrio
Da brisa sobre o rosto
Como voo planado
Do cisne branco
Sobre o lago.

Ou o grito-surdo
Dos passos sobre o gelo.

Manuel Veiga


Nota: Lydia é uma criação literária de Ricardo Reis

domingo, dezembro 10, 2017

FRAGMENTOS LII



Hic opus labor est diziam os latinos, ensinando que para segurar a porca pelo rabo se torna necessário saber torcer o dito, caso contrário lá se vai porca e rabo (nunca percebi por que não o porco) e o esforço e se fica a ver os navios, o que, no caso do Uíge, perder o navio era também perder a maré, ou melhor dizendo, a maré e o barco, pois, como é sabido, são as marés que decidem o destino dos barcos e não o contrário e, no caso da Companhia de Cavalaria, para zarpar rumo a Lisboa, é fundamental que o paquete possa recolher âncoras durante escassas horas de maré alta, atascado o navio, que sempre fica preso na lama, ao largo do porto, durante a maré vazante e assim maré perdida que fosse, seria uma carga de trabalhos suplementar, pois quem espera desespera e ninguém está à espera que um morto venha atrapalhar o caminho, pois para atrapalhar o “rumo à peluda”, bem bastavam a pressão das amanuenses diligências, que era indispensável satisfazer para tudo bater certo no ajuste final dos balanços e no deve e haver da guerra; porém, a verdade é que, a acrescer às dificuldades e urgências por todos conhecidos e esperadas, vinha agora, como golpe mal urdido, o Valentim, com sua caprichosa morte, a perturbar ainda mais o fluxo das rotinas e obediências, cujo cumprimento é condição sine qua non de um embarque em beleza.

Não havia, porém, forma de o evitar. Era certo que o Valentim perdera a vida, num acidente de viação, disso todos estavam cientes e faziam fé, pois assim o dizia no normal entendimento das coisas e os factos, em sua aparência, inequívocos, tal como constam do auto de notícia, devidamente assinado pelo Furriel Anjos, da Companhia de Lanceiros, em funções de Polícia Militar, que em ronda de rotina pela cidade de Bissau e bairros periféricos, deparou com a viatura, com a parte da frente afundada numa cova da estrada e o corpo do Alferes estendido na berma, a sagrar pela cabeça e os miolos fora, sendo, pela experiência das coisas vividas, sabido que a força da inércia projecta os corpos à distância e que o tronco de um secular embondeiro tem uma consistência mais rija que o crânio de um homem, daí os miolos e o sangue e cabeça fendida, como causa mortis indeclinável do Alferes Valentim, amigo de todas as horas, as boas e as más, do Alferes, herói a contragosto desta narrativa, que se deseja literária, mas que Maria Adelaide, licenciada em Línguas e Literatura Modernas teima em dizer, sabiamente, aliás, não ter ponta por onde se pegue.

E tudo isto fora visto e lavrado auto e atestado pelos dois soldados que incorporavam a patrulha e assim o fizeram cientes, pois assim o Furriel o dissera e aos soldados nada mais competia que obedecerem, tudo, portanto, a bater certo e o corpo do Valentim, ainda quente, apto a seguir para a morgue, a tempo do respectivo embalsamento, sem atrasos, nem demoras, de forma a poder embarcar, dentro de um caixão de chumbo, com a Companhia de Cavalaria e o capitão Mascarenhas poder afirmar que regressava com a sua Companhia, não intacta, mas completa.

Assim devera ser, mas o homem é ele e as suas circunstâncias, razões que se colam à pele e que até, na hora da morte, podem ser nefastas, assim o compreendeu o Alferes, herói a contragosto desta narrativa que, reagindo à profunda prostração em que a morte do amigo o lançara, observou, calando sua angústia e a sua dor e, acima delas, assumindo o ónus da sua condição militar e seus deveres como oficial Adjunto do Comandante da Companhia de Cavalaria, se sentiu compelido a dizer, num fôlego, perante o capitão Ornellas e o capitão Mascarenhas, ambos perplexos, que sendo embora ponto assente e atestado em auto de notícia, a fazer fé em juízo e fora dele, até prova em contrário, que Valentim falecera em acidente de viação, num bairro periférico de Bissau, havia, no entanto, um pormenor, que convinha acertar, sob pena de o edifício construído poder ruir, ou seja, não se poderiam escamotear as circunstâncias do acidente, designadamente, deveria constar, sob pena de grave incúria, o que fazia o Valentim, naquele local e naquela hora, a conduzir uma viatura militar, bem sabendo todos os presentes que não havia ordem de serviço, ou razão militar que justificassem e, assim sendo, salvo melhor opinião, o auto de notícia deveria esclarecer a razão de tal insólito acaso, pois que natural seria, que lidos os autos, em instâncias superiores, alguém pudesse interrogar-se e quisesse saber.

O capitão Ornellas escutava algo curioso e, gradualmente, o seu semblante ia ganhando, cada vez mais, uma expressão de compreensão e concordância, à medida que o Alferes desembrulhava o discurso, enquanto o capitão Mascarenhas batia, impacientemente, com o pingalim na bota, sinal evidente, bem conhecido de todos os com ele lidavam, de tensão pronta a explodir e, meu dito, meu feito, antes mesmo de o Alferes recuperar a respiração e o capitão Ornellas pudesse dizer fosse o que fosse, atirou a "pissalhada", seco que nem uma bala mas quem diabo você, nosso Alferes, julga que é? não lhe parece que está ir além da sua chinela? alguém pediu a sua opinião? se fosse necessária, tê-la-iam pedido, não acha? Com um gesto brusco, interrompeu o capitão Ornellas, que se preparava para sair em favor do acabrunhado Alferes, e prosseguiu, sarcástico, mas já que você, criou um problema, com as suas amadas circunstâncias, desembarace-se agora delas e encontre uma boa razão para o Valentim andar a pavonear-se por Bissau, ao volante de um jeep militar. E, sem consentir réplica, abandonou o gabinete, arrastando consigo o capitão Ornellas, entre perplexo e divertido.

Ficou, pois, o Alferes sozinho com suas recriminações, flagelando-se, sem dó, nem piedade quem me manda a mim ser burro, o capitão tem toda a razão, se as coisas estavam arrumadas como estavam, que importava a ti, besta-quadrada, que os gajos do Estado-maior gostassem ou não gostassem, que se fudessem, todos eles uma cambada, para quem a morte do Valentim não passa de um “fait divers” militar e um incómodo de papelada, agora és tu, meu parvalhão de serviço, quem tem que descalçar esta bota e encontrar explicação para a morte do Valentim e seres o “pau mandado” desta cáfila. Era mesmo o que me faltava!…

Profundamente abatido com a morte do amigo e agastado com a sua “estupidez”, o pobre Alferes, ficou largos momentos com a cabeça entre mãos, a lamentar-se da sua “desgraça” e, quase à beira das lágrimas, como em outras ocasiões de stress emocional e tensão nervosa, chegam-lhe, num murmúrio inconsciente, as vozes da infância, lenitivo e bênçãos, que o confortam e lhe dão ânimo, tudo o que merece ser feito, meu filho, merece ser bem feito e fazendo-o bem, estamos a colaborar na obra perfeita de Deus, vêm cálidas as exortações de suas devotas tias e o menino, em precoce traquinice, mas madrinha, se a obra de Deus é perfeita, não precisamos de lhe mexer e madrinha, em risonha admoestação, precisamos sim, a obra de Deus é perfeita, mas não é completa, Deus deixo-a inacabada para nós os mortais a podermos terminar e o menino, agora desafiador, não é nada disso, madrinha, Deus não terminou a obra por que é preguiçoso e quis descansar ao Domingo e as tias, agora, a desmancharem-se de riso, isso é um grande pecado, meu malandro, tens que te confessar ao padre Manuel e o menino, a percorrer os corredores da memória, numa fuga desesperada do tempo, até novamente acordar, sob o peso da angústia e da dor.

E, então, como se um suave milagre tombasse do Céu sobre sua cabeça, não criança de loiros caracóis, mas de cabelo à escovinha, como norma de oficial de Cavalaria, o Alferes, emergindo do fundo de si mesmo, arrasado, quase vencido, num gesto mecânico, abriu, desinteressado, o dossier esquecido sobre a secretária, que os acontecimentos do dia deixara inerte no tampo da mesa, depois de várias tentativas, logo enxotadas, do “apoucalhado” Assobio, ordenança da Companhia de Cavalaria, lhe entregar pessoalmente, como recomendara o 1ª Sargento, Chefe da Secretaria.

E, então, sem nada o fazer prever, rasgou-se no cérebro embotado do Alferes o “milagre” do entendimento, proveniente sabe-se lá de que reserva anímica ou intuição ou capricho ou mão protectora, a guiar-lhe os gestos, abriu o dossier e, dentro, o contrato da “cedência” da moradia, sede de Comando da Companhia na Tabanca que antes fora, residência e boudoir de Dona Rosalinda e campo de outras refregas que para aqui não são chamadas, onde faltava a assinatura da excelsa senhora, ora proprietária e gerente da Pensão Estrela, num bairro periférico de Bissau e que fatal fora ao Valentim, amigo de todas as horas, as boas e más, possesso da sua pulsão e cega vontade de se despedir da Guiné “à maneira”, naquele cenáculo de ejaculações, percorrendo todo o itinerário de prazer na crepitação e no fogo de uma mulatinha cabo-verdiana.

Eureka, portanto!... O Alferes sorriu intimamente. E com os papéis a abanar nas mãos, dispara, lesto e glorioso, à procura do capitão Mascarenhas. Estavam salvas as amadas circunstâncias que o Capitão Mascarenhas, azedo, imputara ao Alferes e, assim, encontrada razão, bem convincente, para o Valentim andar a pavonear-se por Bissau, ao volante de um jeep militar: o alferes Valentim, com a disponibilidade e zelo militar que sempre deu provas e, perante as ingentes tarefas indispensáveis para o regular embarque das tropas, em que o Alferes, Adjunto do Comandante da Companhia, estava profundamente implicado, assim como todo o staff da Secretaria, ofereceu-se para se deslocar à Pensão Estrela e recolher a assinatura em falta no contrato de cedência da Vivenda, sede do Comando da Companhia de Cavalaria na Tabanca, residência que fora e boudoir e palco de eróticas refregas de D. Rosalinda, que para aqui não são chamadas, e que a urgência da ordem militar de todos os civis deverem ser imediatamente evacuados não permitiu ser oportunamente assinado pelas duas partes. E nesta diligência de serviço público, o Alferes Valentim encontrou a inesperada morte, quando ao volante do jeep militar EM-69-96 em acidente de viação nos termos descritos e documentados.

E assim o subscreveram o capitão Ornellas e o capitão Mascarenhas e assim ficou a constar, em anexo aos autos, fazendo fé em juízo e fora dele, até prova em contrário. E assim urdidas as amadas circunstâncias seguiram os autos para os Serviços de Justiça do Estado-maior. E o corpo do Valentim, finalmente, depositado na morgue.

Sei, Maria Adelaide, quanto te são penosas estas minudências da narrativa. Por ti, bem sei, virávamos costas à Guiné, arrumávamos expeditamente, todas “amanuenses diligências” do embarque das tropas, deixávamos o corpo do Valentim entregue à sua sorte na floresta burocrática do Estado-maior, de que serve chorar a sua morte, se vida não lhe damos e voávamos, sem demora, nem detença, rumo a uma livraria da baixa de Lisboa, onde, num outro tempo narrado, ficaste suspensa de um livro roubado e de um beijo e de uma resposta a singela pergunta; “amas-me”?

Um pouco mais, Maria Adelaide, e prometo-te o regresso a esse universo de amor, desejo e transgressão que tanto te arrepiam os sentidos, um pouco mais, minha amiga, encerramos este capítulo de guerra e medo. Mas também de amizade e camaradagem. Que o Valentim merece um “regresso à peluda" em grande!

Manuel Veiga

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Colha Eu Pétalas e Rosas...


Sou assim hoje em festa vestido para vós
Na alegria de ler-vos, de quando, em vez,
Como se viessem todas juntas de viés
As palavras que partilham nossa voz.

Não cuido de jardins, mas amo as flores
Cada uma em seu perfume diverso.
Como letras batidas de um qualquer verso
Que, todas juntas, me perdem de amores.

E do poema construído em cada sílaba
Da amizade fugaz (sei lá se p´ra sempre)
Fique a harmonia e a emoção bem quente

E em cada gesto de beleza murmurada
Desse bouquet da amizade, em suma,
Colha eu pétalas e rosas, uma a uma...

Manuel Veiga


(De um tempo em que se escreviam sonetos)


domingo, dezembro 03, 2017

O Rubor e a Pétala

Colhe o poeta a pétala. E o rubor.
Alegria breve

A desprender-se. E desamparada flor
Que estremece. E se ergue
No frémito.

E se oferece. Nudez alva a derramar-se
Na manhã fria.

Lábios febris gretados a desenhar
O sobressalto. Sobre a pele.
E a sede que arde.

Rosa e nome. Indelével perfume
A inflamar o declive fremente. Seiva que teima
No interior do caule.

Que o poema requer. Flor silvestre
A percorrer o assombro
Dos dias. Por abrir.

Manuel Veiga


sexta-feira, dezembro 01, 2017

Quem Me Dera Ser Lerdo



Gostava de ser lerdo. A sério! Muito lerdo.
Passarinhos à janela logo pela manhã...  Piu... piu... piu...
E girofles de infância no lajedo.

E azuuuul... muito azul a entrar-me casa adentro.
Como se minha casa fosse bordel
De sonhos tresmalhados
Ou leilão de calcinha muito azuliiinhaaaa.
De menina
Muito purinha
Porém, cara...

Ou exibição de meia preta
De balzaquiana muy casta …

Ah, gostava de ser lerdo. A sério. Muito lerdo.
Ser um senhor bem-posto. E voz timbrada.
Talvez – como se diz? – Palestrante, é isso!...
Ou então advogado a fazer poema em dodecassílabo
Tudo muito bem arrumado...

Gostava de ser lerdo. A sério. Muito lerdo...
Ser assim como que uma espécie passarinheiro
De controle remoto. Enfim, ser esse meu fado
(“Meu fado... meu fado... meu fado!...”)
E minha sina – passarinha aqui...
Lambiscadela acoliiiii!... – 
E no final tudo bate certo: nem a passarinha come
Nem o “Atílio... atina!”...  

Ah, sim! Gostava de ser lerdo. Muito lerdo...
Habitar altas escarpas! E ter marinheiros nos olhos. E barcos.
E marés, está claro! E resmas de sereias
À volta.

E melancólicas noites de azia.
E esguicho precoce.
E aguardente rasca.
E ser poeta decadentista
Debruçado sobre o Tejo...

A sério. Gostava de ser lerdo. Muito lerdo.
Ser analfabeto de ideias.
E tocador de bombardino... Pom!... Pom!...

Mas sou este trambolho lúcido
Este patinho feio
Das letras
A gemer pelas esquinas.

D. Quixote de causas mortas e
Dulcineias perdidas.

Manuel Veiga
DO ESPLENDOR DAS COISAS POSSÍVEIS
Poética Edições



segunda-feira, novembro 27, 2017

FRAGMENTOS LI


Espreme-se pois a ferida, Maria Adelaide como tenaz de fogo para purgar o sofrimento e melhor sarar, expõe-se em carne viva, impudicamente aberta, desejando que o sangue rebente e o pus escorra e, no entanto, no lugar da dor apenas o abcesso calcinado, testemunho remoto, sinal seco e agora esventrado, tempestade, esvaída na distância, O Valentim, amigo de todas as horas do Alferes, as boas e as más, heróis ambos em registos diversos, embora, desta escrita redonda, a fazer que anda, mas não anda e, neste agora da narrativa, por razões muito suas, aceitou, de sorriso rasgado, a tarefa de apresentar cumprimentos de despedida a Dona Rosalinda, como iniciativa própria fora, o Valentim, dizíamos, neste agora dos acontecimentos narrados, deveria ser lugar de recriação festiva e de celebração órfica, e a escrita tão eloquente, que fosse registo fidedigno e testemunho da paixão pela Vida, na partilha de uma amizade sem medida, cúmplice e generosa, em que as humanas criaturas, por vezes, sublimam a condição precária da existência. No entanto, o Valentim, neste jogo de escrita e seu devir demiúrgico é apenas lugar ausente e frio, vácuo, que a memória retém, como incisão sarada pelo tempo e a amizade, tão genuína e tão breve, apenas um sublinhado ou registo antigo, nas páginas de um livro esquecido.

Tens, por isso, razão, Maria Adelaide, de nada vale andar a escarafunchar uma dor “abstracta”, de que esta narrativa, que se quer literária, se faz registo, pois ninguém pode alterar o curso das coisas, nem sequer o autor (se autor houvesse) que, dizendo-as, lhes deu vida, mas que, não poderá jamais salvar o Valentim da sua sorte, fervor de vida esmagado, sabe-se lá por que “mão invisível”, ou torrente, ou capricho do Acaso vividos. Aliás, talvez seja essa a melhor forma de o homenagear, reconhecendo a humana impossibilidade, perante o capricho dos deuses e o misterioso rosto da Tragédia, pois em sua autenticidade, o Valentim vivia, com o mesmo à vontade com rasgou a placenta que o trouxe à vida, sem cálculo, nem favor. Ou glória que o seduzisse ou má sorte que o afectasse.

Deixemos, pois, em paz o Valentim e sejamos apenas, Maria Adelaide, o tabelião que regista, para memória futura, os factos que desenham a sua funesta morte, a dois dias da “peluda”, no alvoroço de filho único de regresso ao braços maternos.

Um calor tórrido e húmido tornava o ar pesado, com chuvas diluvianas, em confluência com a maré cheia, a elevarem as águas e a ocuparem a zona ribeirinha, que, depois da enxurrada, deixaria um mar de lama e detritos, que, além de irrespirável, tornavam a cidade intransitável. Mas o Valentim teimou. Que iria agora visitar a Dona Rosalinda “e que não estava para aturar desistências, nem aceitar recomendações de “madalenas” temerosas, bem pior que as ruas inundadas de Bissau foram as bolanhas de Catió e de Cufar e ali estavam ambos aptos a embarcarem para a peluda”. A chuva terminara, entretanto, e, em seu lugar, um Sol desmedido de criar alucinações e escaldar os miolos. E o Valentim, impecável, dentro da sua farda de caqui amarelo, camisa de manga curta e calção, ao volante do jeep do comando da Companhia de Cavalaria, acicatado pelo desejo de se despedir da Guiné à maneira, quer dizer, percorrendo, qual fauno africano, o itinerário do desejo, na crepitação e no fogo de uma mulatinha cabo-verdiana, por certo a melhor escolha, por entre as residentes, que Dona Rosalinda, em todas as ocasiões prestável, lhe iria discretamente sugerir, não sem antes indagar de “seu menino” - que lindo que tu és meu filho! – e, calar no peito, com um suspiro teatral à mistura, a breve ansiedade de suas carnes flácidas.

E o Alferes, adjunto do Companhia e herói a contragosto desta narrativa, sem fim à vista e que Maria Adelaide teima em dizer mal cerzida e desajeitada, sem ponta por onde se lhe pegue, uma vez que, redonda, a escrita, em si própria, se ensarilha, o Alferes, dizíamos, com um sorriso discreto a percorrer-lhe os lábios, encolheu os ombros, resignado, como quem aceita, sem inquietação, o destino das coisas e dos acontecimentos e, percorridos que foram, num ápice, o lampejo e a orquestração fantasista da visita do amigo à Pensão Estrela, espectáculo e festa, de que Dona Rosalinda seria sábia maestrina, acompanhou, com um olhar cúmplice, o arranque “à Fângio” do soluçante jeep militar que, na passagem, levantava cortinas da água empoçada no alcatrão gasto da parada, regando a farda, entre gargalhadas e assobios, de um ou outro militar mais distraído e que, passada a porta de armas e a continência do sentinela, com o Valentim ao volante, se perdeu no vaivém da cidade e o Alferes, herói a contragosto desta escrita, rumou ao “cativeiro” das tarefas de liquidação e contas da Companhia de Cavalaria e elaboração de relatórios e autos de entrega de todo o espólio, desde as viaturas pesadas até última munição.

O soldado Assobio, outrora “apoucalhado”, chegado à recruta, há escassos três anos, com três dias de atraso, qual encomenda extraviada e, por mérito seu e do grupo de reguilas alfacinhas que o instruíram, o ensinaram a ler e a escrever e o nomearam como seu, arvorado depois “impedido” do comando da Companhia, por ordem de serviço lida em parada e ora prestes a passar à peluda e ao seu nome civil Eusébio da Silva Ferreira, andava numa roda-viva, levando e trazendo papéis da Secretaria para o edifício do Comando, que, depois lidos e assinados pelo Capitão Mascarenhas, seguiam seus trâmites para o Quartel-general do Comando Militar na Guiné.

E, assim, neste frenesi, se esgotavam os minutos e se apressavam as horas, povoadas por ordens e contra ordens, pois bem se sabe que as organizações humanas, quanto mais rígidas forem e hierarquizadas, tanto mais toda a gente quer “safar a onça”, os de cima empurrando para os que estão por baixo e estes, com a manha de gerações a aguentarem a carga, sempre aptos a “passarem a perna” aqueles que estão por cima, quer dizer, aqueles que, de cima, lhes carregam o cerviz, num jogo de forças, a mais das vezes de soma zero, de tal sorte, tudo visto e ponderado, no final tudo acaba por bater certo, cada um por si, toca a despachar, o que for, soará.

E tudo assim corria, nessa tarde de amanuenses cuidados e ajuste de balanços, no deve e haver da guerra, pois o balanço maior era aquele que um de si próprio fazia, a escassas horas do regresso e, para o Capitão Mascarenhas, em processo de revisão mental de suas certezas e de princípios e valores de Oficial de Cavalaria, no inicio impregnados de “furioso” nacionalismo, e que, no final da Comissão de serviço militar, no Comando da Companhia de Cavalaria, queimavam como tição aceso, na persistência da dúvida, cinza que teima em calor, mas gradualmente arrefece, de tal forma que, quase a findar esta sua primeira experiência de comando, num quadro de intensa guerrilha, em que, apesar dos perigos e acasos de guerra passados, se poder ufanar com a proeza e a circunstância de regressar com a sua Companhia intacta, isto é, sem baixas em virtude de morte em combate, de tal forma que, dizíamos, tais princípios de orgulho militar e valores de exacerbado nacionalismo e “caganças” de militar de Cavalaria, em colapso, não passavam de morno lenitivo na dor maior das suas dúvidas e se constituía, tal proeza de ausência de mortes, em refulgente gáudio no ajuste de contas com os oficiais do Estado-maior, esses fs. da p. que não sabem o que é a guerra e passam a comissão de serviço a coçar os tomates, sentados à secretária.

Foi então, que elevando-se sobre aos sons cavos da cidade, que passavam filtrados pelas espessas amuradas, um estrondo abafado, seguido, a breve espaço, pelo persistente buzinar de uma viatura, (veio a saber-se) de uma patrulha da Polícia Militar, que irrompeu pelo quartel adentro para estacionar, frente ao edifício do Comando, donde salta o furriel miliciano Anjos, comandante da patrulha, pois bem sabe o graduado militar, que a morte de um oficial do Exército, ainda que miliciano, em acidente de viação, numa incursão solitária num bairro periférico, a conduzir viatura militar, sem que registo, ou ordem de serviço, que o justifique é assunto demasiado quente, para se poder arriscar a qualquer diligência moto próprio, ainda que seja para entregar o ferido, que se sabia morto, aos cuidados do Hospital Militar.

Veloz como entrara, saiu do edifício o furriel miliciano, agora acompanhado do Capitão Ornellas, Comandante da Polícia Militar que manda afastar os soldados que o voyeurismo juntara, em redor da viatura e do corpo do Valentim, com o crânio esfacelado, apoiado por dois soldados da patrulha e determina que, de imediato, o corpo do Alferes, visivelmente sem vida, seja tapado com um cobertor, e os dois militares permaneçam de guarda e, em passo acelerado, Capitão Ornellas e o Furriel Anjos, militares sobre quem impende, por seu múnus policial, o dever de elaborarem o auto de notícia e dar sequência aos respectivos trâmites, rumaram ao encontro do Capitão Mascarenhas, pois que o Oficial morto e viatura acidentada estavam distribuídos à unidade militar de que aquele era comandante, em primeira linha. E, sendo certo que o “auto de notícia”, se extingue no simples acto de “fixar” os acontecimentos tais como aconteceram ou, após breve analise de indícios, tal como os ditos previsivelmente aconteceram, ou poderiam ter acontecido, ou deveriam acontecerem, pois bem se sabe que o olhar de cada um, vendo todos a mesma coisa, cada qual vê coisas diferentes, afeiçoando o que observa ou repara ou olha, áquilo que lhe é dado ver, ou seja à sua específica maneira de olhar e entender, donde se conclui quanto é precária, não apenas a justiça dos homens, mas também quanto é ténue a  visão das coisas e dos factos, que são o suporte da Justiça do Mundo.

No entanto, neste agora, a prender a atenção do leitor (se leitor houver) os factos que se encadeiam no normal entendimento das coisas, são, em sua aparência, inequívocos – o Valentim perdeu a vida, num acidente de viação, disso ficamos cientes, e assim irá constar do auto de notícia, devidamente assinado pelo Furriel, que em ronda militar, deparou com a viatura afundada numa cova da estrada e o corpo do Alferes estendido na berma, a sagrar pela cabeça e os miolos fora, bem junto as secular embondeiro onde o corpo embatera, projectado pela inércia e a paragem brusca da viatura. E se por assim ser verdade, assim o auto fora assinado, sem mais diligências.

Que importava, de facto, mais estrondo, ou menos estrondo, a anteceder o colapso da viatura, num país em guerra? Não, certamente, ao Furriel Anjos, que para se coçar lhe bastava o corpo do ensanguentado e miolos do Alferes Valentim espalhados na lama, nem ao Capitão Ornellas, nem ao Capitão Mascarenhas, ambos demasiado ocupados em harmonizar a narrativa de forma a causar o menor dano, ou seja, despachar o mais cedo possível o Corpo Expedicionário do Exército Português, para o paquete Uíge que, transposta a foz do Geba, nas lanchas da Marinha,  ao largo aguardava.

(continua)




sábado, novembro 25, 2017

Vibração de Água


Que a hora seja assim dobrada
Entre o esquecimento e o calcário
E a dor fina da água no orvalho das pétalas

E nesta sombra de pálpebras magoadas
Agita.se a vibração da lágrima
E o incontido gesto de bebê-la

Flor decepada! Ainda…


Manuel Veiga


quinta-feira, novembro 23, 2017

" OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA "


“Os que estão preocupados com a saúde do Planeta, nossa casa comum, e que lutam contra as diversas formas de poluição, por que não lutam contra a obsolescência programada?” -  K. Marx, in Das Kapital.

"Não raras vezes as empresas fazem acordos - cartel- e, com os profissionais de marketing, introduzem deliberadamente a obsolescência na sua estratégia de venda do produto, com o objectivo de gerar um volume de vendas duradouro reduzindo o tempo entre compras sucessivas. Um exemplo poderia ser o de uma máquina de lavar roupa, que é deliberadamente projectada para deixar de funcionar cinco anos após a compra, obrigando os consumidores a comprar outra máquina para os próximos cinco anos. O mesmo se passa com as lâmpadas, material informático.

...É preciso vender, obter lucro!

Não se trata de satisfazer as necessidades das pessoas, mas de obrigá-las a comprar, a poluir o planeta!"

terça-feira, novembro 21, 2017

Ne ls Steios de l Sangre ( Nos esteios do Sangue )


Teresa Almeida Subtil, talentosa Poetisa, estudiosa e incansável divulgadora da Língua e Cultura Mirandesas quis surpreender-me com a tradução de um poema de "Caligrafia Íntima".

Agradeço muito à minha amiga Teresa esta distinção, que muito honra a minha poesia e o amável gesto de amizade, que guardo com afecto. 



Ne ls steios de l sangre i nas falas de la tierra
Q'an nós móran.
Nas fondas augas
I ne l altar de las peinhas
stremuntiadas
Ne l çponer de l sol
I ne ls maçanales i
Ne ls beneiros
D’auga.

I ne ls oulores de la tierra arada
I nas marcas de la bara tiempo
I ne ls nuossos rius.

I na sequidede de ls beiços
I na sede de mil anhos
A apressiar ls passos.

I ne ls lhuitos. I ne l siléncio de las campanas.
I ne l strondo de las fiestas
I ne ls arraiales festibos
I nas antigas
Danças.

I ne l corpete de las rapazas
I ne ls lhenços bordados
I nas risadas
I nas lhuitas.
I ne ls dies ardidos
I naqueilhes outros pregoneiros

Te nomeio, Tierra, Lhéngua, Mátria
I te benero
I te guardo
I te digo

Géstio an que me rindo
I m’ antrego
I çfaço
Miu mirar
Altibo.




Nos esteios do sangue
E  nas telúricas vozes
Que em nós habitam
Nas profundas águas 
E no altar das rochas 
Tresmalhadas
No zénite do Sol
E nos pomares e
Nos veios líquidos

E nos cheiros de terra lavrada
E nas marcas da vara do tempo
E nos nossos rios.

E nos lábios ressequidos
E na sede de mil anos
A acicatar os passos-

E nos lutos. E no silêncio dos sinos.
E no estrondo das festas
E nos arraias festivos
E nas antigas danças.

E no corpete das raparigas
E nos lenços bordados.
E nas gargalhadas
E nas brigas.
E nos dias ardidos
E naqueles outros pregoeiros.

Te nomeio Terra, Língua, Mátria
E te venero
E guardo
E te digo

Gesto em que rendo
E me entrego
E deslasso
Meu olhar
Altivo.

Manuel Veiga
“Caligrafia Íntima"  - pág. 194
POÉTICA Edições







segunda-feira, novembro 20, 2017

Rumor de Águas Capilares - Pedido de Desculpa



Para a Conceição Lima

E para o talentoso elenco de intérpretes de poesia
(Maga e magos deste inesquecível Encontro)

E todos quantos me concederam o prazer e o privilégio
 De sua presença na Livraria “Flanêur (Porto),
A propósito da apresentação

Caligrafia Íntima”



No rumor de águas capilares
No interior da terra. Apta e pronta.

E na agitação febril do sangue
No reconhecimento
Das pertenças…

E na palavra imprevista
Como quem chega - visita desejada! -
Que capricha percorrer todos os recantos.

Nos dias afluentes. E nas memórias
Dos mostos. A fervilhar distâncias.
E nos odores evanescentes.

E na rebentação dos afectos a germinar
Solísticos improváveis…

E nesta sinfónica toada de vozes a aclararem
Sons que nos habitam. E nesta gesta
De partilha na desmesura
Do fogo. E água.

E nesta candura do sol a aquecer
O corpo de outonos tresmalhados.

Se inaugura o poema
E se deslassa caudal
E se ergue em flama
A inundar o esplendor
Da tarde

E os cálidos
Esteios da amizade!

Manuel Veiga

Lisboa 19.11.2017


Este regresso ao Norte –  digamos, assim! -
Permitiu-me acertar contas com Fernando Pessoa:
                    
No Porto não se  serve Dobrada Fria!
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Inadvertidamente apaguei este post, de que publico novamente o poema. Não conheço porém maneira de recuperar os comentários, o que sinceramente me desgosta e aborrece.

Peço, por isso, desculpa aos meus amigos/as que tiveram a gentileza de comentar, sem me atrever a solicitar-lhes novo comentário, embora, como se compreende, o deseje muito.

Prometo ser menos desastrado a lidar com esta "gerigonça".

Grato.