terça-feira, janeiro 24, 2017

A Borbulhar Por Dentro...


Soberbo o carvalho e sua fronda
Soberbo o freixo e sua sombra.
Soberbo o melro a saltar de galho em galho.
Soberano. E negro.

Soberbos os espantados tordos. E meus olhos
Espantados no seu canto.

Soberba a montanha. E a pedra parideira.
E a água fresca a cair da pedra. 
Bebida pelos dedos.

Soberba a litania dos insectos. E o sol a pique.
Soberbo o rio. E as suas coleantes margens.
E o linho na corrente fria
A curtir as mágoas.

Soberbos os dedos tecendo. E as açucenas.
E os bordados. E a toalha alva.
E a mesa do sacrário.

Soberbos os sinos. E missa d´alva. E o menino
Ensonado a esfregar os olhos. Meigos.
E o restolho. E o trigo.
E o pão ázimo.

Soberba a misteriosa Lua a espreitar furtiva
Amores imaculados. E a dançar soberba
E nua. Uma dança de corpos perdidos
Em seus raios.

Soberbo o dia de ontem. E todas as auroras.
Soberba cálida vida a esgotar-se. Límpida.
Licor ainda.

Soberbo este perfume da ausência.
A arder sem lume.
Soberbo o murmúrio do poeta
A borbulhar por dentro.
E incauto a resguardar-se
No frágil eco
Do poema.


Manuel Veiga.

15 comentários:

Tais Luso disse...

Magnífica é a simplicidade das coisas, desde a simples ladainha dos insetos até os mistérios da lua; do sol a pique, dos rios, das montanhas, das pedras, do dia e de todas as auroras. Portanto, soberba é a vida, Manuel, e infelizmente não é perfeita, traz consigo seu único e incompreensível pecado, tem começo e fim.
Parabéns.
Beijo, amigo.

Teresa Almeida disse...

Uma erupção poética em cada detalhe. Soberbo como um todo.
Parabéns,poeta, por este belo e intenso borbulhar.
Beijo.

LuísM Castanheira disse...

soberba a construção poética das coisas simples que já não sendo, ainda são. intemporais, no lume da paixão.
um 'éco'a atravessar a urbe e a nossa ausência da beleza.
um abraço, amigo Manuel.


Cristina Cebola disse...

Soberbos são também os seus versos, que nos fazem pensar, como soberba é a vida e tudo o que nela existe...
Soberbos, são os detalhes de que são feitos os dias e as noites, que preenchem a nossa existência...
Soberba é, e será sempre a Poesia!

Gostei muito!

Abraço

Suzete Brainer disse...

O poema como soberbo em memória viva do poeta,
a caminhar num crescente de beleza em colagens
de imagens, que borbulham soberanamente a
verdade essencial e delicada deste rio-vida!...

Na sua própria inscrição em ato-poema, o poeta
distante (como observador...) fica no seu frágil
eco, esvaziado com o retiro do poema no nascimento
em palavras, corre a borbulhar o rio-vida da Poesia!...

Simplesmente encantador este poema e me desculpe
se aprofundei no comentário, mas não há nenhuma
intenção de desnudar a excelência textual.
Grata pela leitura de qualidade poética ímpar aqui,
Poeta.
Um beijo.

luisa disse...

Soberba a poesia viva.

jrd disse...

Soberba a construção do poema. Soberbo o poeta.
Abraço fraterno

Genny Xavier disse...

Que dizer das palavras que ousam os soberbos versos?... Apenas penso o quanto nos atinge de deleite o eco (nada frágil) dos poemas necessários...

Beijo.
Genny

Agostinho disse...

Vou subir à torre mais alta da Cidade contemplar a magnífica beleza do poema.

Abraço.

Pedro Luso disse...

Amigo Manuel, gostei muito deste seu poema. Um poema escrito com tal inspiração, a ponto de ter eu ficado com a impressão que o poeta adulou as palavras para que a mensagem não sofresse nenhuma distorção no som e no seu ritmo. Parabéns pelo belo poema.
Grande abraço.
Pedro.

Aleatoriamente disse...

Sentimento, poesia, beleza.
Belo...

José Carlos Sant Anna disse...

Invejável tanta soberba. Contagiante, o poema. Soberbo seria não reconhecer a beleza deste poema.
Forte abraço, meu caro amigo!

Graça Sampaio disse...

Li no facebook e gostei muito. Agora voltei a ler e voltei a achar soberbo...

Beijinho.

graça Alves disse...

Soberbo o espetáculo diário que a Natureza nos oferece e soberbo este canto do poeta!
Bj

Odete Ferreira disse...

"Soberba a litania...."
Tal qual: a fruição do belo numa torrente emocional muito bem envolvida pelos elementos que a provocam, acompanhados pela musicalidade de um léxico fulgurante.
Arte, meu amigo, arte!
Bjinho :)