segunda-feira, janeiro 23, 2017

Camões Dirige-se aos Contemporâneos - JORGE SENA



Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.

Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome.
E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
Para passar por meu.
E para os outros ladrões,
Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
.....................................................................

Jorge Sena nasceu em Lisboa em 1919 e faleceu em Santa Bárbara - EUA - em 1978. Foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário. A sua obra de ficção mais famosa é o romance autobiográfico Sinais de Fogo. De destacar, da sua obra poética, a colectânea "40 Anos de Servidão" - Moraes Editores - 1978


6 comentários:

LuísM Castanheira disse...

"Foi tão mal tratado pelo antigo regime, caro amigo, e morreu tão desgostoso, lá longe, sem à Pátria regressar.
Este poema diz bem da sua amargura.
As duas obras (ficção e poesia) acima citadas há muito que as não releio (tenho de ir à estante),
"40 Anos De Servidão", em especial.
Grande Poeta que muito me marcou.
Um forte abraço, amigo Manuel e obrigado por aqui ter publicado esta forte memória"

Odete Ferreira disse...

Tão grande e tão esquecido. E ele sentiu-o bem, mesmo depois da revolução dos cravos; por isso não ficou por cá e regressou aos EUA.
Possuo uma cópia deste poema, escrito pela sua mão, em São Paulo, em 11/06/61, com a sua assinatura e com uma anotação e dedicatória; transcrevo: "Copiado a meu pedido,
e com a mais grata estima
para o Com(te) J. Sarmento Pimentel".
Foi o meu professor de Literatura do 6.º ano liceal (atual 10.º ano) que ma deu, como "prémio" :)
(Ainda não fiz uma pesquisa aprofundada, mas penso tratar-se do nosso João Sarmento Pimentel, ilustre mirandelense.)
Bjo, Manuel

José Carlos Sant Anna disse...

De fato, Jorge de Sena é para ser revisitado sempre. Tem muito a nos dizer sempre.
Abraços, meu caro amigo,

Agostinho disse...

O Jorge de Sena é-nos fundamental e continua vivo por cá. A prova disso é a prova de vida aqui carimbada pelo caro MV.
Abraço.

graça Alves disse...

Fabuloso este testemunho de Jorge de Sena a Camões.
Bj

jrd disse...

De um grande poeta perseguido para um grande, o maior, poeta, também ele perseguido.
Feliz ideia a tua em trazer-nos a sua memória.
Abraço fraterno