domingo, fevereiro 26, 2017

"Os Cravos e as Orquídeas..."


Quando, em meados dos anos oitenta, Cavaco Silva ganhou as primeiras eleições legislativas, tive a oportunidade de publicar, num jornal diário, (Diário de Lisboa) entretanto desaparecido na voragem do “pensamento único”, uma pequena crónica, intitulada “Os cravos e as orquídeas”.

De facto, sugestionou-me na altura que, na euforia da vitória, da varanda de um qualquer hotel, o vencedor das eleições e sua esposa, acenando à multidão de prosélitos, ostentassem nas mãos, em lugar de cravos vermelhos, vivos e fraternos, uma deslavada orquídea, em que a pequena burguesia se revê, como símbolo de promoção social.
  
O despretensioso texto por aí deve andar, amarelecido, misturado com outras tralhas, em qualquer estante ou gaveta, mas a ocasião não me permite revistá-lo para convosco o partilhar, à luz da realidade actual. 

Digo-vos, porém, que de alguma forma profetizava então o fim de um ciclo, ou se quiserem, considerava que as ondas de choque, que o “25 de Abril” havia provocado nas águas paradas de sociedade portuguesa, se tinham esbatido até a exaustão. E, que daí em diante, a direita tomaria o freio nos dentes e, a toda a brida, procuraria apagar as conquistas sociais e os próprios sinais libertadores da generosa revolução.

É certo que o processo de recuperação capitalista, como então se dizia, era anterior ao cavaquismo emergente. Bem se sabe que a dita “Aliança Democrática”, de que o cavaquismo é herdeiro, em ataque frontal ao “25 de Abril”, procurou, no princípio daquela década, uma “maioria e um presidente”, que dizer, almejou ter as mãos livres para liquidar as conquistas da revolução.

Todos conhecemos em que circunstâncias políticas tal desígnio foi travado, nas quais ressalta a visão patriótica do Partido Comunista Português, que, engolindo sapos, contribui, decisivamente, para a derrota presidencial da direita, com a eleição de Mário Soares como Presidente da República.

Momentos marcantes, sem dúvida. Foram altos e baixos de uma corrente de luta e de resistência, que os trabalhadores se empenharam na defesa do Futuro, que então se anunciava sob o signo da direita…

Mas tenho para mim, (como no pequeno texto considerava), que naquele gesto simbólico de exibir orquídeas em vez de cravos, se condensava um certo ressentimento político e que uma nova ordem social se inaugurava, com a arrogância e a grosseria de quem sobe a pulso na vida e de que Cavaco Silva se considerava (e considera) lídimo representante.

Como efectivamente aconteceu nos Governos subsequentes e, já no Séc. XXI, com os governos PSD/CDS liderados por Passos Coelho e Paulo Portas e com Cavaco Silva como Presidente da República, artífices e cúmplices, todos eles, da deliberada política de empobrecimento do País, que provocou danos irreparáveis na sociedade portuguesa, lançando no desemprego e na miséria grande parte da população.

Quem não se lembra do estalar do verniz democrático da direita, personificada pelo PSD e pelo CDS, perante a maioria de deputados eleitos pelos partidos de esquerda e dos discursos raivosos e revanchistas de Cavaco Silva em vista a frustrar a formação do actual Governo e a realização de uma política alternativa, quando, no exercício de seu múnus presidencial, era obrigado à mais escrupulosa isenção?

Uma nova política que procura tão-somente cumprir os valores de Abril, plasmados na Constituição da República e repor a marcha da História no seu percurso libertador. É esse o “crime” afinal, que direita portuguesa não consegue digerir.

Subiu, porém, Cavaco Silva na vida e na contemplação de si próprio. Foi primeiro-ministro durante dez anos e Presidente da República por mais dez. E foi vê-lo a trepar ao coqueiro e a engasgar-se com a boca atafulhada de bolo-rei…

E destruir a indústria, a agricultura, as pescas e a produção nacional. E a alargar o deficit alimentar do País e a dívida externa. E a congeminar o “monstro” das parcerias público-privadas.

E a hipotecar as finanças públicas e o futuro do País, em delírio de novo-riquismo de obras públicas, num “fontismo” de pacotilha, em beneficio dos empreiteiros do regime (que outros prosseguiram, é verdade).

E, em fundamentalismo neoliberal, a privatizar serviços na saúde, na educação e nas empresas públicas, em nome da falácia “de menos Estado, melhor Estado”.

E a safar-se, mais tarde, ele e amigos políticos, com as trafulhices do BPN, que os portugueses estão a pagar agora, num buraco sem fim à vista…

Claro que a crise económica e social, de que o País ainda não se libertou, não é com ele. Lava daí as mãos…

A seriedade é propriedade privada de sua excelência. Ninguém mais honesto que ele! “Teriam que nascer duas vezes”, garante-nos!…

Entretanto, escreve agora livros de ajuste de contas com adversários políticos, deixando sub-repticiamente de fora os escândalos judiciais e financeiros e o enriquecimento ilícito de seus “filhotes” políticos. E que fariam corar de vergonha qualquer estadista, digno de tal nome.

Assim, por mais espuma que segregue e “raivinhas” que alimente, ou poses de estadista em que se perfile, Cavaco Silva não será mais que um incidente. Ou uma nota de roda pé. Ou uma legenda negra no percurso da história pátria.

Que não desperdice, agora, sua excelência, a boa oportunidade de estar calado e reduzir-se à sua condição de “mísero professor” (se ele o diz, quem somos nós para duvidar?). Seria o mínimo exigível.

Mas não, sua excelência teima. Porém, os portugueses prescindem de bom grado de seus méritos e experiência. E, tendo mais em que pensar, interrogam-se, encolhendo os ombros “até quando, Cavaco Silva, continuará a abusar da nossa paciência”.

Manuel Veiga

26/02/2017


14 comentários:

Graça Sampaio disse...

Bela resenha. Gostei e subscrevo.

Beijinho

Pata Negra disse...

Também lhe dás um jeito na coisa política! Prosa a tua que Cavaco nunca compreenderá. Ele é o menino do Botas feito aos novos tempos. Ele é o verdadeiro filha a puta com P grande.
Um abraço quando a vida não são só versos e ficção mas é também cavacos.

Graça Pires disse...

Quando a política se faz mesquinha...
Para mim ele já teve "tempo de antena" a mais... Subscrevo o teu texto, amigo.
Um beijo.

LuísM Castanheira disse...

Não vale a pena, Manuel, dar-lhe importância.
É um ser abjecto, cheio de ódios e rancores.
Um incompetente (como muitos colegas de curso - economia e finanças - o afirmaram)
Um fruto do antigo regime - e quero mesmo salientar - fruto podre e mentalidade servil) e que a fundação Gulbenkian teve a infeliz ideia de lhe dar uma bolsa de estudos.
lembra o Princípio de Peter:
"Num sistema hierárquico, todo funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência."
Tens razão quando dizes que, apesar das suas duas décadas à frente deste marterizado País, só restará um pequena nota de rodapé, nos anais desta III República.
Abaixo os Podes.
Um abraço caloroso, Amigo.

LuísM Castanheira disse...

*Pides

Agostinho disse...

Bela peça para que a memória não se apague.
O ex, que nunca chegou a ser, enformou-se dentro de pálas ou talas, como se queira, vai dar ao mesmo,num ambiente retrógado e fascista. Não foi talhado para mandar.
Sem rasgo, conformado na pequenez da contabilidade de guarda-livros, embora beneficiasse do ouro de Bruxelas, nunca visto desde os tempos do Brasileiro, não soube mudar o paradigma de Portugal - um país de pobres. Até no betão se mostrou acanhado, desperdiçando elevadas verbas em obras mal planeadas realizadas; basta recordar as famosas estradas IPs.
Vem, agora, tentar tocar uma sinfonia justificativa para alimentar as fontes daqueles que hão-de escrever no futuro a história dos nossos dias. Não reparou que os chefes de naipe o abandonaram (a maioria com contas ainda por prestar) o que é um péssimo sintoma.
Abraço.

Pedro Luso disse...

Caro Miguel, a tua excelente crônica fez-me lembrar do meu tempo da universidade, aqui em Porto Alegre, quando queríamos a todo custo que se implantasse o socialismo, pela nossa visão de jovens ingênuos, que pensávamos que o capitalismo era o responsável por todos os males. Taís e eu fizemos campanha eleitoral por mais de 10 anos para eleger o Luiz Ignácio Lula da Silva, o quase analfabeto sindicalista, que por 8 anos trabalhou com torneiro mecânico numa fábrica paulista. Conseguimos eleger o homem, que por sua vez colocou em seu lugar a Dilma Rousseff. Os 12 milhões de desempregados estão andando por aí desesperados, com suas famílias na miséria. O Lula está bilionário. Os filhos ignorantes do Lula estão bilionários. Mas o Juiz Sérgio Moro está muito atento a todos os seus crimes...
Hoje, amigo Manuel, sou capitalista convicto. Hoje leio os grandes autores que não os lia antes por não serem socialistas. Hoje compreendo porque Jean-Paul Sartre deixou o partido comunista. O nosso Olavo de Carvalho, que mora nos Estados Unidos, famoso entre nós por ser um ex-socialista, e hoje um pensador livre, diz sempre: Entre um bando de capitalistas tem muitos ladrões e muitos homens honestos, mas entre os socialistas só tem ladrões.
Um grande abraço.
Pedro.

Manuel Veiga disse...

Pedro,

a frontalidade e a clareza de atitudes são duas qualidades que prezo e que julgo fazerem parte do meu carácter.

agradeço por isso o seu comentário e expressão livre das reflexões que o meu texto lhe despertou.

quero porém afirmar que nunca vi o mundo a "preto e branco", que "há mais vida para além da política" - tenho bons amigos que nem de perto, nem de longe, perfilham das minhas ideias.

e quem, a longo da vida não se desiludiu com alguém ou alguma coisa ou algum ideário é porque efectivamente não viveu coisa nenhuma. e nisto certamente estaremos de acordo.

não posso porém deixar de discordar num ponto: descarto os exemplos (há para todos os gostos) e procuro não perderem de vista o essencial da nossa humana condição. e, nesse plano, (falo da realidade portuguesa) a "superioridade moral" da esquerda em que me integro ( e do socialismo que almejo) é indiscutível.

forte abraço




Manuel Veiga disse...


não me incomoda que em vez de Manuel para si eu seja Miguel
pior seria se me considerasse "miguelista".

isso não lhe perdoaria! rss

abraço

Pata Negra disse...

Ei Pedro! A coisa por Terras de Vera Cruz está com um vento muito a preto branco. Mas não queira fazer da História uma novela que se resolve por obra e graça dum realizador. Lula não pôs a passarola a voar mas há-de haver teimosia para fazer aviões a jato. Agora amigo, as bestas e cavalos do capitalismo têm muita força - e diga-se que até gosto muito de cavalos - mas o futuro trará novas forças capazes de pôr todos homens a voar e não apenas, esta sociedade desigual em que uns são bestas, outros são cavalos e uns poucos montam todos. Até o Brasil, tão grande, se deixa cavalgar.
Um abraço dum socialista que, não tendo nada, não tolera que lhe chamem ladrão.

Manuel Veiga disse...

está a ver, Pedro, onde uma pedra atirada pode ir bater?
posso garantir-lhe que este "Pata Negra", além de socialista é genuíno.

é daqueles que diz (e pratica) que "quem não se sente não é de boa gente".

abraço

...............................................

Majestade, Rei dos Leitões
um abraço deste fidalgo de sua corte.

quessasina

Manuel

Agostinho disse...

Gostei de ler as achegas protagonizadas pelo amigos Pedro, Manuel Veiga e Pata Negra. Há um ditado português que, julgo, explica bem a natureza humana: no melhor pano cai a nódoa. O que não podemos esquecer é que acima da mesquinhez e da ganância humanas estão as ideias. Ou então regredimos ao tempo das cavernas.

São disse...

Gostei muitissimo do texto:lúcido e certeiro .Subscrevo na íntegra.

Quanto ao reformado de Boliqueime, só posso dizer que é das criaturas que mais desprezo !


Bom fim de semana .Beijos.

Odete Ferreira disse...

No remate, está a chave: “até quando, Cavaco Silva, continuará a abusar da nossa paciência”.
A expressão de Cícero "Até quando, Catalina, abusarás de nossa paciência" continua a ser recorrente quando algumas atitudes se tornam quase insuportáveis. Cícero logrou o seu intento mas este senhor (e outros do seu género) acham-se deuses e acreditam que nasceram com um desígnio salvífico.
Excelente crónica, em termos formais e em termos de conteúdo (que subscrevo, por me enquadrar no teu pensamento, havendo referências que gostei de atualizar).
Só posso ficar grata por poder ler a tua lucidez e pertinência em perfeito domínio da língua.
Bj, Manuel :)