sexta-feira, março 17, 2017

Côncavos São os Rios...


Fecha-se o círculo. Agora os dias são amoras
Tardias em bocas sequiosas. E os dedos
Percurso de água no alvoroço
Da febre e dos lábios
Ressequidos.

Há neste mosto um perfume festivo
E um dossel de giestas a coroar o rosto.
E a agitação do sol em zénite
Na bebedeira dos sentidos.

A lonjura é esta vertigem aberta
Da memória. Este sopro cálido a desalinhar
A poeira dos caminhos. E alevantar primaveras
Como quem reza ou canta. Ou perdido
Flutua no desnorte das bússolas.

Côncavos são os rios em seu curso.
E as cascatas são ecos. E os sorrisos benignos.
Matizados porventura no timbre descuidado
Dos macios gestos.

Ou na placidez fremente
Da tarde em trânsito altivo do poeta sobre
A inevitável rota. E a Sombra.

Manuel Veiga




6 comentários:

Sónia M. disse...

"E a agitação do sol em zénite
Na bebedeira dos sentidos."

Sempre um tremendo prazer
passar por aqui...

Deixo um abraço

LuísM Castanheira disse...

"...A lonjura é esta vertigem aberta
Da memória.[...]"
E o Bernardo Sassetti tão distante e tão presente...
Dois grandes momentos poéticos,Amigo.
Um forte e caloroso abraço, Manuel.

Suzete Brainer disse...

A rota do poema como rio fosse, a percorrer luminosidades de sentires,
de significados, de gestos num alcance de uma beleza imagética encantadora,
a seguir a contra-mão "desnorte da bússolas", talvez esta na significação (
simbolicamente) da racionalidade.
Nesta rota "Sol em Zênite na bebedeira dos sentidos" poeticamente insinua
a entrega dos gestos plasmados na emoção apaixonada, Nesta emotiva rota
se determina em luz e sombra!...

A música escolhida perfeita para o poema num movimento libertador de
palavras reflexos de gestos e junto com o poema a transcender
a emotividade. Aprecio muito a genial música do Sassetti.

Bravo, meu amigo.
Grata por este momento de leitura e música na arte
de qualidade maior!
Beijo.

Teresa Almeida disse...

O esplendor dos momentos que a vida permite e o poeta e o músico elevam ao zénite dos sentidos.
Felicito-te, Manuel, por este entrosamento entre a palavra e a melodia e pela emoção que provocas.

Beijinho.

Ana Tapadas disse...

Eu tinha que voltar para comentar este belo poema, com aquele sabor musical de que tanto gosto! Unes sílabas como poucos.
Bjs

Odete Ferreira disse...

Inaugural poema. Da palavra. Do poeta.
Um caldo de sabores a toldar os sentidos, a intimidade a desassossegar-se...
Belíssimo cada verso que o poeta escreveu em transe emocional.
(Gosto imenso da tua poética mas a que é feita de arroubos destes arrastam-me como tumultuoso caudal)
Bjo