sexta-feira, junho 30, 2017

Caminheiro Sem Pressas...


Deixo que os rios secos e tempestades de sons ausentes
Na memória de outros maios se inscrevam na saliva
Das palavras balbuciadas em que digo amor em fim de tarde.
E assim administrando amoras tardias em círculo de sol dos
Lábios ciosos destes gestos que se derramam inesperados
Frutos desprendendo-se de maduros ou chuvas
Em deserto absorvidas.

Viajo caminheiro sem pressas recostado nas bermas
Celebrando as sombras e as festivas giestas outonais
Sorvendo o mel das silvas soltando revoadas
Tordos espantados que riscam o abismo dos olhos.
E ai me perco nessa voragem matizada de cores quentes
Nos odores persistentes na humidade translúcida dos beijos
Na generosidade dos seios e no declive dos lábios e no cio
Das colheitas e na sofreguidão de cestos antes das uvas-

E nas ondas que arrebatam e na ferida aberta.
E nesta lava e neste de lume que consome e nesta festa
Que explode em pulsão de madrugada...


Manuel Veiga

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