quarta-feira, outubro 11, 2017

ÀS PORTAS DA CIDADE...


Às portas da cidade rarefeita por onde
Os lobos marcam lá dentro a paisagem em seu registo de sangue
E ódio e se devoram senhores do tempo
E os cães famélicos são apenas os restos do banquete
E da apoteose da morte...

Às portas da cidade por onde o grito se perfila
E os rodízios e as alavancas gemem num chiar de surdos
E o canto se entope nas gargantas. E pela milésima vez
Bandeiras esfarrapadas cobrem as chagas
Expostas como fístulas poluídas...

Às portas da cidade onde fervem as vitórias e todas
As desistências são possíveis e os heroísmos são verso e reverso
De tudo ou nada. E os homens se reconhecem
E são barro ou aço na dimensão comum do seu destino
E da entrega à incerteza e ao sobressalto...

Às portas da cidade por onde um poeta sem nome
E sem glória aclara a voz com cítara desajeitada
E recolhe os salvados de todos os naufrágios
E com eles as dores e as fomes descarnadas que se perfilam
Num deserto de agonia trágica...

Aí nesse mítico lugar de batalhas destroçadas e de furtivas
Esperas. Aí às portas da cidade por onde corre o sangue
Fermente e o medo se fecunda no rugir dos ferros e dos ventos.
Aí nesse mítico lugar solto meu grito de guerra e me jogo
Farrapo de azul vertido nas velas rasgadas de um qualquer
Moinho perdido no horizonte dos dias...


Manuel Veiga


"Poemas Cativos" - Poética Edições - Maio 2014

1 comentário:

LuísM Castanheira disse...

este é (mais) um poema que vou levar...para não esquecer e guardar.
já o tinha lido e, na altura da publicação, achei-o brilhante.
abraço, MV