sábado, novembro 04, 2017

No Dorso das Palavras Transitivas...


Estátuas derrubadas e jardins de cinza
No dorso das palavras transitivas
Fortalezas traídas por dentro.

Passos de deuses ausentes
E corredores desertos.

Que nada do que foi
Hoje permanece.

Apenas Eco. Música atonal a dissolver-se
No íntimo do silêncio.

Na eloquência de tempestades
Há no entanto uma vibração insuspeita
A adejar infrene na combustão
Da Memória.

E a sangrar dores evanescentes
E o gesto inaugural
Das Palavras límpidas.


Manuel Veiga 

6 comentários:

Teresa Almeida disse...

É um poema pleno de emoções. Perpassa-nos a dor e a vibração da vida. E o epílogo inaugura a palavra límpida.

Parabéns, meu amigo Manuel.
Beijinho.

Tais Luso disse...

Palavras magoam, causam estragos, doem, é algo contraditório justamente porque são carregadas de sentimentos e nós, seres humanos, os pensantes do planeta, não somos lá de muita confiança. E tanto faz palavras serem escritas como ditas. É como disse Eça de Queiroz, "se a tua dor te aflige, faz dela um poema".
Poema triste, mas ficou belo. Beijo, meu amigo, uma feliz semana.

"E a sangrar dores evanescentes
E o gesto inaugural
Das Palavras límpidas."

Graça Sampaio disse...

Fica-se sem fôlego... Que bom tecedor de palavras!!!

José Carlos Sant Anna disse...

É das palavras intransitivas, o que faremos nós?
Importa que possamos herdar suas palavras para que possamos mudar a ordem das coisas...
Caloroso abraço, meu caro poeta!

Fá menor disse...

Por vezes o silêncio contém palavras-gritos.

Bj

LuísM Castanheira disse...

Galopam cavalos brancos nas praias desertas da batalha
E só os corpos arrojados no areal
lembram os sentimentos despojados de piedade.
"Cavalos de Tróia" que invadem com o desassossegar das palavras
límpidas mas mortais
quais espadas afiadas nos sons silenciosos, abafados pelas tempestades, que pairam no ar.

E pronto, Amigo
É o que 'vejo'...
E gostei deveras.

Um abraço caloroso, MV