terça-feira, dezembro 12, 2017

BRANCURA LISA DO SILÊNCIO

O salgueiro, Lydia, entrega-se sem enfado
À aragem fria que vem do lago. E minhas mãos
Nas tuas são enredo que levo aos lábios
E bebo perfumadas num suspiro
De abandono.

Mergulhamos descuidados na superfície
Do tempo. E na brancura lisa do silêncio.
Nem uma ave, nem um pio magoado.
Apenas o arfar de teu peito
E a impudicícia dos seios
A arrolhar desejos
No aconchego
Macio.

E o horizonte é uma manta de retalhos
A colorir o céu de azul felino
E nevoeiro.

E meu olhar baço. Abracemo-nos, Lydia
Que este arrepio é ponto sem retorno
Expectante neste murmúrio
Da brisa sobre o rosto
Como voo planado
Do cisne branco
Sobre o lago.

Ou o grito-surdo
Dos passos sobre o gelo.

Manuel Veiga


Nota: Lydia é uma criação literária de Ricardo Reis

14 comentários:

Larissa Santos disse...

Simplesmente lindo =)

Do GIL
Límpidas Gotas de Amor em execução de Carência.

Bjos
Noite feliz

José Carlos Sant Anna disse...

E o Pessoa, feliz por saber que há quem cuide de Lydia tão bem. Claro que de olhos bem abertos porque desconfiado de suas intenções, meu caro poeta... (rss).
Triste por não ter aceito o escambo, mas deixo um forte abraço pela sinceridade (rss)!

Teresa Almeida disse...

Mais um poema com o calor e a delicadeza do verso. E um murmúrio de asas brancas...
Fascinante, Manuel!

Parabéns. Beijinho.

Manuel Veiga disse...

José Carlos, meu amigo

a Lydia é assim tão volúvel como tu sugeres?...

como eu ando enganado! ... imaginava-a uma "balzaquiana muy casta"!...

abraço

lis disse...

Os poetas,somente os poetas faz do silêncio esse 'horizonte'
onde o céu quase toca o mar.
E é grande a minha incapacidade de 'desembarcar' de mim mesma c0mo ja dizia Bernardo Soares(heterônimo do FPessoa),e mergulhar no mundo poético de Manuel Veiga.
Salve salve Ricardo dos Reis que lhe emprestou sua Lydia.
Só posso adjetivar repetidamente, lindo lindo!
com abraço

Suzete Brainer disse...

Este poema é único, todos os outros poemas para a
Lydia (do Ricardo dos Reis e os outros teus) são
belíssimos.
Porém, este tem a "Brancura lisa do silêncio" na
inscrição da profundidade de um sentir poético,
que faz eco na gélida realidade, a trazer significados
da força da poesia, esta no voo infinito da beleza,
neste signo mágico da arte indestrutível.
Aprecie imensamente, Poeta.
Beijo, Manuel.

Zilani Célia disse...

OI MANUEL!
LINDO!
SÓ NÃO SEI QUE PROBLEMAS TERÁS COM O RICARDO POR CAUSA DE SUA LYDIA.
ABRÇS
http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Graça Pires disse...

O olhar baço. As mãos disponíveis para todos os afagos.
Magnífico poema, meu Amigo.
Um beijo.

Agostinho disse...

Ricardo Reis, Saramago, Manuel da Veiga... O Poeta há-de sempre achar na fantasia a verdade verdadeira.
Muito bom.
Abraço.

Manuel Veiga disse...

exagero teu, Agostinho
e teu olhar de amigo!

caloroso abraço

Olinda Melo disse...


Boa noite, Amigo Manuel Veiga

Penso que esta "Lydia" não constará do seu livro, pois não? Estive a ver, não o vi. Nas páginas 34 a 38 temos "Louvor a Lydia" (I,II,III,IV,V). Interessantíssimo. Contudo, não será para já, a "Lydia" que eu levarei para o "Xaile de Seda". Será um outro poema sobre o qual paira toda a intimidade desta caligrafia, quanto a mim.

Apreciei toda a poética destes versos. A "impudicícia dos seios/A arrolhar desejos" coloca Lydia num plano que é capaz de causar espanto ao próprio Ricardo Reis.

Abraço

Olinda

Manuel Veiga disse...

Olinda, minha amiga

este poema é muito recente e foi apenas publicado agora.
fará parte certamente da próxima colectânea.

estou grato pelo interesse que a minha poesia lhe merece
e pelas amáveis palavras, que constituem um estímulo, creia.

abraço

Gil António disse...

Maravilhoso. Lindo demais.
.
Hoje: *** TEMPESTADE - ÁRVORES NUAS ***
.
Deixando votos de um dia feliz
BOM NATAL

manuela barroso disse...

O aroma da Primavera incendiou as cinzas do Inverno
neste poema de uma sensualidade cativantemente contida
Lindo poema!
Beijo, amigo Manuel