terça-feira, dezembro 19, 2017

QUASE - Mário Sá.Carneiro


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi.


Mário de Sá-Carneiro
Poeta Português – 1890/1916
.........................................................

Mário Sá-Carneiro, efémera e brilhante "torre de marfim" ! A única que frequento com prazer e que realmente gosto de ler.


M.V.

15 comentários:

deep disse...

Um dos meus preferidos!

Votos de Feliz Natal, Manuel Veiga. Que este seja um período de serenidade, saúde e amor.

Beijos

Larissa Santos disse...

Que bonito. Não conhecia. Adorei.

Hoje:- Pensamentos flutuantes...
.
Bjos
Uma óptima Terça-Feira

Pedro Luso disse...

Amigo Manuel, conheci esse poeta português, Mário de Sá-Carneiro, antes de entrar na Universidade. Li por prazer e por exigência escolar. Aprendi a gostar do poeta, e alguma coisa ele me ensinou. O poema de tua postagem, "Quase", é mesmo muito bom.
Aproveito a oportunidade para dizer ao amigo que foi muito bom conhecer o amigo Manuel, e espero que continuemos nessa caminhada cultural.
Boas Festas para a tua família, e que 2018 seja BEM MELHOR que este que já está nos estertores.
Um grande abraço.
Pedro

Ailime disse...

Um poema lindíssimo, que muito aprecio.
Obrigada por tê-lo partilhado.
Beijinhos e Boas Festas.
Ailime

Vanessa disse...

Boa tarde! Gostaria de agradecer pela visita no meu blog. Adorei o poema, não conhecia, mas apreciei bastante!
Te convido sempre a voltar, sua presença é de grande valor!
Tenha uma ótima terça feira.

Suzete Brainer disse...

Adoro a poética do mestre Mário Sá- Carneiro e este é o meu poema
predileto dele e um dos melhores poemas
de toda a Grande Poesia dos Grandes
mestres Poetas! Sintonia e agradeço a
partilha! !
Agradeço também a partilha de amizade
entre nossos blogs.
Meus votos de um Natal abençoado junto
com a sua família e 2018 repleto de sonhos
e realizações!
Beijos.

Graça Sampaio disse...

Muito boa escolha!!

Beijinho.

José Carlos Sant Anna disse...

O que posso dizer-lhe, meu caro poeta? "Quase", o grande poema do livro "Dispersão"? Um dos melhores? Há outros na mesma direção: Escavação, Vontade de dormir, Estátua falsa, A queda..." Também gosto da poesia de Sá-Carneiro. Dessa inflexão neste poema que aponta para a impossibilidade de triunfo. Parece que nada se sustenta. É "quase"... é a vontade de realização dos sonhos sempre adiada...
Um fortíssimo abraço,

GL disse...

A qualidade, sensibilidade e bom gosto de sempre!

Que dizer mais? Que Mário de Sá-Carneiro é um dos meus eleitos? Desnecessidades!

Bom Natal.

Bom 2018 . Que a poesia continue a ser o farol no meio deste nevoeiro, um nevoeiro que sufoca, e destrói, e mata.

Abraço.

lis disse...

Gosto muito _ leio muito os portugueses.
Em dispersão,ele poetiza "há vácuos, há bolhas de ar/ Perfumes de longes ilhas/Amarras, lemes e quilhas/ Tantas, tantas maravilhas/ Que se não podem sonhar!"
Grande Sá-Carneiro.
Linda escolha _ Um abraço de Natal,Veiga

Teresa Almeida disse...

Falta sempre "golpe d'asa". E por isso o voo permanente na palavra. A inquietação.
Foi um poeta que abriu e continua a abrir fronteiras.

Belíssima escolha, meu amigo Manuel! Apesar de conhecer o poema, já o li aqui várias vezes. Parece-me um caminho sempre novo.

Beijjinho e BOAS FESTAS!

LuísM Castanheira disse...

A Obra e as circunstâncias...
Uma Vida curta (por opção) e
um legado Enorme.
Hoje, sentir-se-ia menos "diferente".
A correspondência com o Fernando Pessoa é esclarecedora da sua angustia.
Um abraço Amigo

Olinda Melo disse...


Olá, Manuel Veiga

Um talento e uma alma sofredora presa num labirinto do qual foi impossível sair. Neste poema, vê-se bem a sua frustração, faltando-lhe o élan suficiente para voar como gostaria. Em algumas passagens e em alguns momentos revemo-nos nele. Nem sempre se consegue realizar tudo o que foi almejado, ficando-nos pelo "Quase".

Abraço

Olinda

Agostinho disse...

Não fora a foice entrar na seara
tão precocemente
a que altura ainda subiria?

Abraço.

Ana Freire disse...

Mais uma escolha maravilhosa, que é um verdadeiro prazer apreciar... para mais nesta quadra natalícia, sempre uma época de balanços e questionamentos, sobre o que se fez e o que não se fez...
Um poema para ler e reler!...
E a propósitos de quadra natalícia... espero que a mesma tenha sido passada de uma forma muito feliz, na companhia de todos os seus... já que não consegui chegar aqui, em tempo de Natal...
Continuação de Festas Felizes! Amanhã virei espreitar mais alguns dos seus últimos posts, Manuel! Beijinho
Ana