sexta-feira, dezembro 01, 2017

Quem Me Dera Ser Lerdo



Gostava de ser lerdo. A sério! Muito lerdo.
Passarinhos à janela logo pela manhã...  Piu... piu... piu...
E girofles de infância no lajedo.

E azuuuul... muito azul a entrar-me casa adentro.
Como se minha casa fosse bordel
De sonhos tresmalhados
Ou leilão de calcinha muito azuliiinhaaaa.
De menina
Muito purinha
Porém, cara...

Ou exibição de meia preta
De balzaquiana muy casta …

Ah, gostava de ser lerdo. A sério. Muito lerdo.
Ser um senhor bem-posto. E voz timbrada.
Talvez – como se diz? – Palestrante, é isso!...
Ou então advogado a fazer poema em dodecassílabo
Tudo muito bem arrumado...

Gostava de ser lerdo. A sério. Muito lerdo...
Ser assim como que uma espécie passarinheiro
De controle remoto. Enfim, ser esse meu fado
(“Meu fado... meu fado... meu fado!...”)
E minha sina – passarinha aqui...
Lambiscadela acoliiiii!... – 
E no final tudo bate certo: nem a passarinha come
Nem o “Atílio... atina!”...  

Ah, sim! Gostava de ser lerdo. Muito lerdo...
Habitar altas escarpas! E ter marinheiros nos olhos. E barcos.
E marés, está claro! E resmas de sereias
À volta.

E melancólicas noites de azia.
E esguicho precoce.
E aguardente rasca.
E ser poeta decadentista
Debruçado sobre o Tejo...

A sério. Gostava de ser lerdo. Muito lerdo.
Ser analfabeto de ideias.
E tocador de bombardino... Pom!... Pom!...

Mas sou este trambolho lúcido
Este patinho feio
Das letras
A gemer pelas esquinas.

D. Quixote de causas mortas e
Dulcineias perdidas.

Manuel Veiga
DO ESPLENDOR DAS COISAS POSSÍVEIS
Poética Edições



22 comentários:

Larissa Santos disse...

Boa tarde. Adorei. Está com um refinado sentido de humor, pelo menos,
foi assim que entendi. Mas, por vezes, fazemos-nos mesmo de lerdos :)

Hoje do GIL» {Outono. Olho a rua, o jardim, folhas caindo}

Bjos
Final de tarde feliz.

Teresa Almeida disse...

Manuel, pena não teres esta poesia encenada pelo Eduardo Roseira na Livraria Fleuneur, no Porto. Até parece escrita para levar à cena. Fabuloso momento! Faltou a gravação.

Parabéns, amigo.
Beijinho.

Manuel Veiga disse...

Teresa,

foi de facto um bom e divertido momento
o Eduardo Roseira é um extraordinário actor, que deu vida às "desengoçadas" palavras.

... mas aqui nos blogs parece que se perdeu o humor! é tudo gente muitooooo séria!

beijo, amiga

Manuel Veiga disse...

Larissa,

e entendeu muito bem!...
por vezes mais vale ser lerdo!

bem vinda! grato

José Carlos Sant Anna disse...

O seu talento é inquestionável e o senso de humor invejável. Ainda não vi perder uma parada quando deixa sua verve solta.
Muito boa a sua lerdeza! Não lhe falta humor sempre!
Fortíssimo abraço

Tais Luso disse...

É... acho que foi seu primeiro poema bem humorado que li!
Estava eu lendo direitinho, "a sério"! Mas...lá embaixo...rs

Mas sou este trambolho lúcido
Este patinho feio
Das letras
A gemer pelas esquinas.

Muito bom, parabéns, A serio!
beijo, Manuel.

lis disse...

Eu adoreeei rs o 'D.Quixote'...
de calças curtas.
Humor imperdível!
( não é atoa que tu és herético)
rs
meu abraço

Manuel Veiga disse...

forte abraço, meu caro José Carlos

grato por teu olhar amigo.

Manuel Veiga disse...

Tais, minha amiga

"a gemer pelas esquinas", tal e qual!
mas também a soltar umas gargalhadas sobre os outros e sobre si próprio!

e, creia-a, também a levar muito sério a vida e a amizade...
(não esqueça que fui advogado rs)

beijo

Manuel Veiga disse...

Lis, minha amiga

D. Quixote de calça curta? mas antes calça curta que fundilhos rotos, né? rss

beijinho (Herético)

Pata Negra disse...

Maldita a nossa lucidez ó poeta! E, como se não bastasse, nem sequer temos graveto para a aguardente! Talvez na embriaguez, nos visse a consolação de sermos lerdos e viris alcoois.

Um abraço quixosteco mas nem por isso lerdo

Manuel Veiga disse...

Pata Negra, Majestade

a falta de graveto é mesmo uma chatice!
e a falta de aguardente, claro!

mas não nos faltam noites de azia!
e somos lúcidos, porra!

abraço, sem lerdices, nem lamechecices

Batista Filho disse...

Amigo-irmão:grande alegria saber-te... quant@s tant@s já se foram dos blogs... Mas permaneces.
Desde a última vez que apertei por cá... bastante tempo. Vim, vejo um belo e satírico poema. Bom que assim seja, para desarmar as intolerâncias que grassam mundo afora.
Deixo o meu abraço fraterno e carinhoso.

Manuel Veiga disse...

Caro Batista Filho, meu amigo

fico muito feliz por passados tantos anos te recordares este blog
recebo-te com um forte abraço, qual "irmão pródigo" (não filho rss)

espero que regresses e te sintas em tua casa.

abraço caloroso

Graça Sampaio disse...

Bom de mais!!


Porém... nem o lerdo muito lerdo, nem o "patinho feio das letras" seria capaz de desenhar a metáfora, esta alegoria...


Beijinho lerdo, lerdo...

Manuel Veiga disse...

Graça, minha querida amiga

acabo de chegar dos teus presépios,(quase convertido rss) por isso não me metas em assados e em desafios difíceis.

posso ser tentado a fazer-te a vontade... rss

beijos, "santificados"

Olinda Melo disse...


:)))

Muito bom! Muito bom mesmo!

Adorei ler, um autêntico tratado de humor.

Obrigada, Manuel Veiga.

Abraço

Olinda

Manuel Veiga disse...

Grato, Olinda

pelo seu olhar amável e amigo.
aprecio que tenha gostado

abraço

Teresa Almeida disse...

Aí está! Gosto de rever a encenação poética de Eduardo Roseira. E ... ouço-o perfeitamente. Imperdíveis os olhares de desafio, a mimica e ... as gargalhadas. Os adereços iam todos parar à mesa principal. Tudo, mesmo tudo teve graça.
Ele apenas interpretou a qualidade de um poema invulgar.

Agostinho disse...

Muito bom, amigo MV.
Uma ironia que deu alento ao meu lento folgar. Antes assim que nunca.
Arrumar "caras" e "castas" é tarefa difícil e nobre. Lerdo com o trombone a tocar?
Abraço.

Manuel Veiga disse...

Bem vindo, meu amigo Agostinho

grato pelo teu olhar lúcido

abraço

Ana Freire disse...

Um trabalho muito lúcido... mas de alguém que tem uma visão alargada da vida... onde cabe a visão do mundo aos olhos da razão, e do coração... com a dose certa de ironia... com que por vezes é necessária olhar-se para a vida... e desmistificar assim, a seriedade da mesma... que nos oprime e faz definhar por dentro... tantas vezes... e nos tenta transformar em lerdos... conformados... e obedientes... e a desistir das nossas causas... em prole do que parece ser mais fácil e cómodo...
Gostei imenso, Manuel!
Beijinho!
Ana

Virei então num outro dia, com mais tempo, apreciar mais algumas das suas publicações...