sexta-feira, janeiro 05, 2018

FRAGMENTOS LIII


O contingente militar da Companhia de Cavalaria, seguindo a ordem de antiguidade, deveriam ser o primeiro a embarcar, quer dizer, seria o primeiro, com o pé no barco, a lançar ao rio Geba os anos, meses e dias contados ao segundo, que assim eram os dias contados, canga de um tempo gasto na inutilidade da guerra e na dor das vidas ceifadas, tantas vezes estropiadas, mortos-vivos a arrastar o opróbrio na inutilidade e na miséria, pois bem se sabe que dinheiro algum vale um homem inteiro e, em País pobre, pensões de guerra são rateio de orçamento, que outras urgentes premências mais urgentes se contam que pernas perdidas, ou braços, ou olhos, ou testículos, arrancados na explosão das minas, homens e armas atirados ao ar, no rebentamento, cabriolas circenses numa fantasmagoria dantesca e os destroços, como esgar burlesco do Destino, caídos no solo, ensanguentados, estropiados, vísceras à mostra, tantas vezes.

O capitão Mascarenhas, neste lance de tropas rumo à peluda, teimava e na sua teima ia adiando o embarque da Companhia, pressionado embora pelas ordens superiores, pela ansiedade dos militares e pela urgência das marés, pois bem se sabe que no ciclo das enchentes e das vazantes, o Uíge apenas em maré alta poderia descolar, atascado que estava, ao largo, no fundo lamacento do porto de Bissau e qualquer atraso, no sincronismo das operações de embarque, representava um atraso de vinte e quatro horas, até que o ciclo dos Oceanos e da Lua se cumprisse e de novo retomasse a fase da enchente.

Teimava, pois, o capitão Mascarenhas que Oficial de Cavalaria não deixa seus homens para trás, sejam eles mutilados ou doentes, ou mortos, seja a morte matada por balas inimigas, ou seja a morte acontecida em acidente de viação no cumprimento de pacíficas e rotineiras diligências de serviço, assim o exigia o exercício de comando militar, a sua honra e a “panache” de cavaleiro, pois que assim fora educado e era seu timbre e não seria nenhum dos filhos da puta do Estado-maior, que passam a vida a coçar os tomates agarrados à secretária que iria impedir que “a sua Companhia” regressasse à Metrópole, se não intacta, pelo menos completa e o Alferes Valentim, ainda que morto, haveria de regressar incorporado no contingente militar, sob seu comando, nem que para tanto tivesse que enfrentar todas as burocracias e todas as borrascas do Estado-maior e dos Altos Comandos Militares da Guiné.

Assim o dizia e jurava e agia em conformidade o capitão Mascarenhas, correndo de Repartição em Repartição, de Gabinete em Gabinete em Gabinete do Estado-maior, ou do Comando Territorial, ou da puta que os pariu a todos, qual Cristo em Via Sacra, de Herodes para Pilatos e de Pilatos para Herodes, nessa sua teima, ou ponto de honra ou desafio que a si próprio se impusera, quer lá saber o capitão Mascarenhas dos Serviços de Justiça que pretendem instrução de um processo de inquérito às circunstâncias do acidente, que vitimou o Valentim, como se o “auto de noticia” não desse conta de todos os elementos necessários à compreensão do acidente, avalizado, aliás, tal  auto com assinatura de um capitão de Cavalaria, condecorado com “Cruz de Guerra” por feitos em combate e que, em verdade, tais feitos não passavam de fanfarronada e verduras de Alferes durante a invasão de Goa, Damão e Diu ao oferecer o corpo às balas, quer dizer, o seu pelotão homens e sua esquadra de enferrujadas “Panhards” ao avanço do poderoso Exército indiano.

Não, não, com ele, Capitão Mascarenhas, não seria essa cáfila de imbecis, que outra coisa não fazem que não seja pavonearem-se em briefings e outras merdas sem interesse algum para o desenrolar das Operações quem iria obriga-lo a deixar ficar trás, abandonado, o corpo de um oficial sob seu comando ele, capitão de Cavalaria, ou não se chamasse ele Fernando José de Albuquerque Ávila e Mascarenhas, oitavo Visconde de Barro Seco, oriundo de uma Família, cujos pergaminhos, ao longo dos séculos, se confundem com a história pátria e que, ainda em tempos recentes, deu dois generais ao Exército Português e à Arma de Cavalaria e vários ministros ao regime do Estado Novo, fazendo-se, presentemente, sua Família representar entre os dirigentes da União Nacional e nas altas esferas do Regime. Não!... Com ele, não!... Nem que, para tanto, tivesse que revolver o Céu e a Terra e tal feito fosse último gesto ao serviço do Exército Português!...

O Comandante do Batalhão de Cavalaria, Coronel “cuequinhas de renda” como era conhecido na caserna, na parada e na messe e até mesmo, por entre sorrisos e cochichos, nos corredores do Estado-maior, sempre diplomático e diligente a evitar conflitos e situações críticas, que na sua imprevisibilidade possam lançar algum desalinhado grão de areia na vaselina com que se oleiam percursos da promoção a brigadeiro e ao almejado topo do generalato, torcia o nariz à teimosia do Capitão e procurava chamá-lo à razão, entalado que estava o coronel entre o dever militar de meter na linha o capitão recalcitrante ou ter que afrontar o poder político e o prestígio da família Mascarenhas que, dentro do regime, fazia e desfazia ministros, e generais e, se fosse o caso, comeria “coronéis cuequinhas de renda” ao pequeno-almoço. Assim, o Coronel, Comandante de Batalhão de Cavalaria, crismado, urbe et orbe, como Coronel cuequinhas de renda, no cálculo dos prós e dos contra, quer dizer, entre o rigor dos regulamentos militares que o obrigavam e os eventuais favores futuros da Família Mascarenhas que o seduziam, o coronel optou pela moderação e jogou na bolsa de seus interesses, pois mais que agarrar oportunidades, é necessário merecê-las e, assim, o “nariz torcido” do coronel cedo evoluiu para a amistosa palmada nas costas do Capitão Mascarenhas, num óbvio sinal de consentimento e apoio ao seu desígnio de não deixar para trás, abandonado, o corpo de um oficial sob seu comando.

A Companhia de Cavalaria que, em ordem de antiguidade e seguindo o roteiro e o sincronismo das operações e a urgência das marés, deveria estar de armas e bagagens, que é como quem diz com as mochilas e as armas ensarilhadas depositadas no bojo do paquete Uíge, mantinha-se, porém, em terra, à beira de um ataque de nervos, assistindo, contrariada e injustiçada ao embarque dos seus camaradas do Batalhão, risonhos e felizes no tão ansiado regresso ao Futuro, quer dizer, ao regresso das suas vidas, depois do “buraco negro” que foram os dois anos de guerra. Ao Alferes, herói a contragosto desta narrativa que Maria Adelaide, Licenciada em Literatura e Línguas Modernas, insiste em considerar qual beco sem saída, chegavam, entretanto, sinais de mal-estar e mesmo queixas explícitas por parte daqueles militares mais afoitos ou daqueles que com o Alferes tinham maiores laços de proximidade, fazendo-lhes sentir que, por muito respeito que um morto mereça e a morte inesperada do Valentim a todos chocara, um homem morto não pode condicionar a vida de cento e tal, e tão forte vinha o apelo das “bases”, que subira aos sargentos e aos próprios alferes milicianos, com o médico “Cartuchadas”, num argumento de força, dirigindo-se ao Alferes, herói a contragosto desta narrativa e Adjunto do Comandante de Companhia, por acaso de graduação militar que se não falas tu ao capitão e não o convences desta asneirada eu próprio me encarrego disso, pois a amizade pelo Valentim está deixar-te mais cego que o capitão na sua teima. E, neste entretempo, chega o cabo de cifra “Bonanza”, acompanhado do inevitável soldado Apoucalhado e por seu bando de reguilas do bairro de Alcântara que pedem uma conversa em particular. O Alferes, por acaso de graduação militar, oficial Adjunto do Comandante de Companhia de Cavalaria, mal refeito da morte do amigo Valentim e pressionado com estava por acontecimentos fora de seu controle, desencadeados pela teima do capitão Mascarenhas em não deixar para trás, abandonado, o corpo de um oficial sob seu comando, desejava tudo menos que ter que aturar aquela pandilha de reguilas, pela qual mantinha indisfarçável simpatia e amizade, bem sabendo ele que decilmente iria resistir a qualquer pedido, sobretudo, quando assim formulado “em colectivo” e, para varrer a testada, quer dizer, para marcar o território e seu espaço de autoridade, o Alferes barafusta mas que merda de balda é esta? Mas vocês julgam que estou aqui de pernas abertas para vos aturar? E, exagerando o tom façanhudo, têm dois minutos para dizerem ao que vêm, mas antes, “aparência” de soldados, tratem de abotoar as camisas manterem-se aprumados que a peluda ainda não chegou. E, então, o bovino “Bonanza”, cabo da cifra, desembrulhando a placidez e corpulência, com os oficiais que nos saíram na rifa, nesta Companhia, bem podemos esperar sentados que, quanto à “peluda” vou ali e já venho, ainda acabamos por apodrecer na Guiné e, sem dar tempo ao Alferes se recompor do murro em cheio, mas estamos aqui para lhe dizer a Companhia seria bem mais útil dentro do Uige, que aqui a “apodrecer” no Quartel da Amura – o Alferes Valentim compreenderia e ira agradecer. E certo de que vergara o Alferes, oficial Adjunto do Comandante de Companhia, por acaso de graduação militar, o cabo “Bonanza”, empertigado na sua condição de Comandante do grupo de reguilas alfacinhas, mas isto é assunto para discutir em privado e não no centro da parada e, sem se deter avançou, com seu séquito, afoito para o interior do edifício. A que vinham, pois, o cabo da cifra, o pachorrento “Bonanza” e seu bando de reguilas alfacinhas?

Um pouco mais de azul, Maria Adelaide, que é como quem diz, prosaicamente, uma pouco mais de paciência e retornaremos ao céu de nossos dias e à avidez de nossas vidas, antes destas “memórias de caserna” serem, que cada um conta as memórias que tem, sendo que tantos existem que memórias nunca terão, nem de caserna, nem outras, floridas que sejam, ou, tendo-as, se recusam, lestas, tais memórias, ao aparo rombo de conta-las, tu suspensa de uma urgente pergunta – “amas-me”? - e o autor (como se autor houvesse), em prosa enrolada a evitar a resposta, em longos percursos por África. Mas, decisivamente, minha amiga, África ficou para trás! Como te digo, estamos com um pé no barco e o outro em terra. E nem tua vida, nem o odor acre da caserna, nem delicadas pituitárias(literárias) , nem gloriosas façanhas embalsamadas, nos obrigarão a desistir do final que tu mereces.  Prosseguiremos, pois, prosa redonda que seja, até a narrativa se esgotar por desnecessária,

Manuel Veiga


4 comentários:

José Carlos Sant Anna disse...

Sou quem não tira o pé do barco da sua narrativa. Vou nela navegando "curtindo" as memórias de caserna sem tirar o olho de Maria Adelaide rss.
Um bom final de semana, meu caro amigo!
Um abração,

Olinda Melo disse...


Bom dia, Manuel Veiga

Ainda hoje se vê o sofrimento físico e psíquico dos homens que andaram nessas guerras inúteis, se é que alguma guerra é útil. Quem se lembra deles? Ninguém ou quase. Quando se trata de comemorar isto ou aquilo nem do pó e da desgraça das famílias que também ficaram estropiadas alguém se lembra.

Estes fragmentos são uma narrativa com uma linguagem vernácula que nos faz visualizar e quase "viver" a vida de "caserna" com todos os seus problemas, seja a nível económico, de falta de recursos e também de certas tropelias e a necessidade de não seguir ordens vindas de superiores sentados nos seus gabinetes que nada conhecem do desenrolar de uma guerra que só lhes servia para manterem as suas posições de destaque.

Meu amigo, desejo-lhe um bom fim-de-semana.

Abraço

Olinda

Larissa Santos disse...

Interessante texto, o seu.
Boa tarde.

Hoje: Deslaço memórias, d'amor ausente.
.
Bjos e um feliz dia de Reis.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Mascarenhas, Adelaide, Valentim, "Bonanza"
nomes de que antes nunca ouvi falar
mas tudo o resto, meu amigo, é-me familiar
embora
por terras de Angola