quinta-feira, abril 12, 2018

Do AMOR e Da GUERRA - Fragmentos






(…)
“Manuel Veiga, neste romance em que subverte, como experiência diegética, as normas aristotélicas, investindo nos processos brechtianos, que Barthes também defendia, da fragmentação discursiva, anti-aristotélica, o espaço é arquétipo, diz o autor, expressa claramente estes sinais. A par, naturalmente, de uma contextualização autobiográfica do conflito e da vida (os amores, o medo, as vivências, as memórias geracionais que Manuel Veiga, com hábil contenção narrativa, introduz no corpo discursivo): uma dimensão pedagógica e pragmática; a assunção da verdade como método estruturante do narrado, o estigma da culpa e da responsabilidade, a determinante intervenção no discurso do narrador/protagonista, do autor/personagem, uma dextra capacidade de ficcionar os factos, de reflectir sobre os elementos do vivido entrelaçando-o com a reflexão do tempo social, afectivo e histórico – e o sujeito como interlocutor privilegiado entre o narrador omnipresente e o leitor.
(---)
Se o acto de escrever é um processo de responsabilização – cultural, cívico e ético, Manuel Veiga, ao tratar neste livro a língua e as palavras com o peso e a substância simbólica que elas devem ter, e nessa busca de signos se alimenta (o que já acontecia em Notícias da Babilónia), que da guerra, e da vida, traça amplas similitudes entre a realidade e a ficção, entre o discurso íntimo e a exposição pública que os conflitos, por serem do domínio do histórico, implica, mesmo quando a palavra fica angustiantemente presa na liana, a escrita de Manuel Veiga atinge, quase sempre, esse estágio supremo de configuração, de imanente e visceral criação literária, acrescentado ao discurso os elementos eufóricos e disfóricos da sinceridade: emocional, ideológica, afectiva, sexual.

Raramente a literatura portuguesa deu a dimensão trágica, o absoluto do drama, do épico, como nos textos em que a Guerra Colonial surge como suporte ficcional. É a tragédia do homem só com sua consciência, com o seu conflito entre o dever, a justiça e a dignidade – o homem e o seu estupor existencial, a sua circunstância, em estado de inquietação e perplexidade, e esses estágios do ser, essa essência, raramente a literatura portuguesa conseguira traduzir tão rigorosamente.

Outro dos elementos que Manuel Veiga introduz no discurso narrativo é o do humor, do sarcasmo, da ironia, da capacidade de auto-análise, de desmontagem do drama (simultaneamente individual e colectivo) através do humor; a distanciação do objecto ficcional, a contenção do trágico.

Este novo livro de Manuel Veiga, estes fragmentos cumulativos que atravessam as memórias da infância, da adolescência, da descoberta do medo, do amor, do absurdo, dão-nos um romance modelar nos seus plurais modos de dizer, de (d)escrever um dos períodos mais sofridos, em termos sociais, históricos e políticos (mesmo quando o sujeito está fora da história, repete o autor), da segunda metade do século XX português. Um épico geracional que nos diz, que rigorosamente, na sua assumida dispersão narrativa, nos reflecte e questiona.

Um livro mais a juntar ao largo espectro canónico da literatura que expressa o conflito Colonial, mas que transcende esse período, esse tempo mordente e ácido: abre a outras e mais profícuas coordenadas, ao investir nos modos de abordagem estética, do fenómeno literário”.

Abril 2018

Domingos Lobo, escritor, poeta e crítico literário

..............................................................................................................................

Nota:

"Do Amor e da Guerra" está em fase de edição. Será apresentado no final do próximo mês de Maio e estará disponível nas livrarias durante o mês de Junho.

M. V.


13 comentários:

Larissa Santos disse...

Muito bom este texto. Parabéns
:))

Hoje:- Ainda chove no meu caminho...
-
Bjos
Votos de uma boa noite

José Carlos Sant Anna disse...

Caro amigo,

Este preâmbulo de Domingos Lobo é um tentador convite para desvendar os rincões d"as memórias da infância, da adolescência, da descoberta do medo, do amor, do absurdo, dão-nos um romance modelar nos seus plurais modos de dizer, de (d)escrever um dos períodos mais sofridos, em termos sociais, históricos e políticos (mesmo quando o sujeito está fora da história, repete o autor), da segunda metade do século XX português."
Contentíssimo do lado de cá por saber que acabou de sair da "forja" uma nova produção e parabenizá-lo pelo trabalho.
Fortíssimo abraço,

Jaime Portela disse...

Pelo texto do Domingos Lobo, e que presumo tratar-se do prefácio, o teu livro merece ser lido. Por isso, vou ver se o encontro.
Parabéns por mais este livro e muito sucesso.
Bom fim de semana, caro amigo Veiga.
Um abraço.

Suzete Brainer disse...

Amigo Manuel,

Fico feliz de verificar o livro pronto, com um belíssimo
título sugestivo ao leitor e uma capa maravilhosa (acompanhei
atenta nas leituras aqui...) e uma apresentação literária de
alto nível, perfeita na grandiosidade descritiva pelo fato da
genuína grandiosidade literária, em perfeita e original arte do
livro e do autor.
Imagino o encantamento e o prazer que o escritor e crítico
literário, Domingos Lobo teve no exercício da leitura e
apreciação literária do teu livro, caro Manuel.

Muito sucesso e felicidade neste teu projeto literário
de grandeza a conquistar um patamar na literatura, meu amigo.
Bjos.
do teu livro

LuísM Castanheira disse...

uma criação literária só ao alcance dos melhores. também dos maiores.
o que penso seja parte do prefácio, da autoria de domingos lobo, faz jus à qualidade dum seu par.
genuinamente, estou feliz por este anúncio e não poderia deixar de o dizer e dar-te os parabéns.
do conto 'a merência', diria o mesmo:
é extraordinário. e eu igualmente aguardo que faço parte dum novo projecto: contos.
força, saúde e vontade é o meu desejo, porque quanto a qualidade, ela está patente.
abraço.

Olinda Melo disse...


Olá, Manuel

Temos Obra. Aliás, já existia antes de ser editada.
Penso que são os "Fragmentos" que aqui nos apresentou,
não é? Os meus Parabéns. Terei todo o gosto em folheá-la
e apreciá-la como merece.

Abraço

Olinda

Teresa Almeida disse...

Embora tenha acompanhado os teus "Fragmentos", caro amigo Manuel, não me dispenso de sentir a obra impressa. Terei, assim, um enorme prazer em estar presente numa das apresentações.
O prefácio é de elevado nível, como a qualidade literária "Do amor e da guerra" merece. Um título que considero muito sugestivo. Julgo que, pelo menos, a geração que foi tocada pela guerra colonial não lhe ficará indiferente.

Grande abraço de parabéns e votos de muito sucesso.

Tais Luso disse...

Nasceu mais um filho de Manuel Veiga!! Imagino a sua felicidade, meu amigo!! Livros têm espírito, têm alma, tem tudo do escritor, toda a criação.
Lembro, que ainda criança, ia nas sessões de autógrafos de meu pai, e sempre pensava, ah, como meu pai trabalhou nesse livro! Como se doou. Mas ao mesmo tempo via a sua satisfação.
Desejo a você muito sucesso, muitas alegrias com "Do amor e da Guerra"! Penso que vamos ler alguns fragmentos por aqui!
Beijo, amigo, parabéns para esse escritor poeta que muito estimo!

Pedro Luso disse...

Caro Manuel nos dias que correm, em que a Internet vai tomando espaço em demasia, é sempre muito estimulante saber que os escritores ainda continuam publicando os seus livros. Espero que no final do mês de maio você tenha uma legião de leitores e de amigos no dia destinado aos autógrafos. Sem dúvida, amigo Manuel, o sucesso haverá de premiar sua nova obra. Minhas efusivas felicitações.
Ótimo domingo.
Grande abraço.
Pedro

Pata Negra disse...

Pois lá terá de ser, se não aparecer nas livrarias cá da terra, terá de vir pelo correio!...
O tipo que escreveu este texto, levou-te quanto? Faço-te o epílogo!
Abraço sem fragmentos

Manuel Veiga disse...

Pata Negra,

a encomenda do texto foi a crédito.
e vai demorar duas ou três eternidades até acertarmos as devidas contas!

mas vai dar certo!

Abraço arrochado

ainda pensei fazer o lançamento no dia 1 de Maio, que é único dia que vens a Lisboa - mas fica para o próximo

Graça Pires disse...

Então, Manuel, publicas outro livro e não dizes nada? Gostei de ler o texto de Domingos Lobo.
Uma boa semana.
Um beijo.

Ana Freire disse...

Muitos parabéns, Manuel! Votos de muito sucesso, para o novo livro!
O texto de Domingos Lobo, aguçou-me a curiosidade, sobre o mesmo!
A guerra colonial... ainda tão presente na memória de tantos... e contudo, tão pouco conhecida, das gerações pós 25 de Abril...
Livros assim fazem muita falta, para memória futura!...
Beijinho
Ana