terça-feira, março 19, 2019

O MEU ESPÓLIO

O dia, em que um poeta for enterrar
Entregar-te-ei o espólio de meus sonhos.
Talvez recebas apenas
Minhas cãs em desalinho. Ou as cinzas pela antiga casa
E as maças emolduradas. E a sala de visitas 
Deserta e o silêncio dos passos. 
E o chocolate fervido e o vinho quente
A atapetar o palato
E as narinas.
Ou talvez a brusca debandada de meus olhos
Tordos acesos a riscar o ar e agora baços.
Ou o espúrio cio dos gomos.
Ou o calor íntimo das amoras
Mel silvestre a tingir as bocas
Ante o incêndio 
Das salivas.
E encontrarás, estou certo, um ramo de lírios
Desbotados, acabados de colher, e o regaço
Da Mãe e a criança solitária e o fio de água
De meus olhos agora secos.
Talvez a bênção do dia e missa dos sentidos
Encontres nessa caixa de abandonos.
Ou aquele poema amarrotado
De que me faço distância e eco
A martelar nos ouvidos
Como remorso
Ou destino:
Que mais nada tenho! 
Manuel Veiga
(poema editado)


Para meu filho,
João Pedro 


domingo, março 17, 2019

A CARTA QUE NUNCA TE ESCREVEREI - TAKE 11


Que razão inscrita na ordem das coisas pode levar a Natureza a dotar a mão esquerda de um homem das aptidões e valências que outros homens têm na mão direita é mistério que estas mal cerzidas palavras, sem sentido de medida, a assumirem-se, com vocação literária, jamais buscarão entender, sendo porém certo que a dominância da esquerda no corpo dos indivíduos é algo estranho, uma espécie de enfermidade congénita que corrói como marca física e transporta tão grande importância simbólica, que pode efectivamente determinar, muitas vezes, o próprio carácter dos homens e a predestinação de suas vidas e, não raro, em tempos de obscuridade e opressão, constituir-se como ferrete de ignomínia e de exclusão, de tal maneira que o sujeito de tal enfermidade, ou tendência, ou hábito, ou malformação, ou jeito do corpo, ou vício endémico do carácter será conhecido, não por seu nome próprio, ainda que ungido em sagrada Pia Baptismal, com toda a corte de anjos celestes, que assim sempre acontece quando uma criancinha de meses é solenemente ungida com os sagrados óleos, mas pela alcunha de Canhoto, sinónimo de canhestro, marca gritante de desajeitado e sem préstimo, enfim, atávico sinal de exclusão social.

Assim era naquele tempo de brumas, quando o Zé Canhoto, ali chegou, àquela aldeia das Terras do Demo, vindo não se sabe bem de onde, mas que alguns, que por mais vivaços se tinham, diziam ser originário para lá dos montes, que daquela margem esquerda se avistavam, aonde muito raramente alguém ia e, donde uma vez por outra, alguém escassamente chegava, bem se sabendo que a vida se faz a sul e não a norte ou não fossem as águas frondosas do Douro fronteira e, depois delas, as arribas do rio Sabor, que, no Pocinho, entra sorrateiro em águas mais poderosas e, ultrapassadas as águas da foz, horas e horas corridas, por montes e vales, descendo e subindo, subindo e descendo até a vista poder espraiar-se pelo vale da Vilariça ou perder-se, novamente, pelos sinuosos caminhos, enfeitados de amendoeiras e oliveiras e hortas e pomares de Moncorvo e Vila Flor ou, mais para norte, para os úberes vales de Alfândega da Fé, Mirandela ou Macedo de Cavaleiros. Mas para chegar até lá, quem se arrisca sem razão funda? E quem, em seu juízo, mete pés a caminho, em direcção ao norte escarpado, quando os rios correm não para norte mas vão todos em direcção ao mar? Nada, pois, tudo bem visto e ponderado, nada de estranhar que os homens não subam em direcção ao norte e, pelo contrário, melhor se compreende que um desconhecido, que com nenhum outro nome ou graça se dá ao conhecimento que não seja o monossilábico som de , como se as tumultuosas águas do rio Douro e os deuses que as governam, como castigo pelo atrevimento da passagem a nado, de noite, pois seus passos, não se compaginavam com passagem à luz do dia na pachorrenta barcaça e cuja ousadia, que quase lhe levava o corpo, lhe tivessem arrebatado, em banho sacral invertido, sobrenome ou apelidos, nada pois mais normal para quem do mundo conhece um mínimo de seus caprichos, que um sujeito de tudo desprovido até de nome, obedecesse ao ritmo e à direcção das águas e ali arribasse, como as trovoadas, ou seja, inesperadamente, deixando marcas, como se verá, em tempo literário a seu tempo narrado, proveniente de terras além-Douro, no norte do País, ninguém ali sabendo ao certo quem era, nem ao que viera, se por rixa e fugido à justiça, se por mal de amores, ou mal de fome, sendo verdade, que naquele tempos de negritude e miséria, a fome era apenas outro nome para indigência, que nada mudaria com o lugar escolhido para viver, como piolho não muda de poiso em camisa suja.

Seja como for, a verdade é que o ali estava, nem sequer Zé Ninguém que outra coisa não era, nem sequer ainda Zé Canhoto que em breve seria, fazendo-se jus à sua mão esquerda que na morfologia do corpo e no jogo de forças que invisíveis se jogam no cérbero e marcam o carácter e predestinam o curso da vida, ali estava pois o , provindo de além-Douro, das quebradas do alto Sabor ou do alto Tua (vá lá saber-se ao certo!) a bater à porta da Casa Grande, a pedir guarida e trabalho, naquela aldeia nas Terras do Demo, cujo termo soalheiro descaía em socalcos pela margem esquerda do Douro vinhateiro.

Apressemos, porém, os tempos e abreviemos os nós desta estória do Zé Canhoto, que ainda não era e, em breve seria, pois este nosso tempo tem pressa e urgência em colher e a rosa-dos-ventos, em que a vida se joga e que em todas as direcções aponta, é, por enquanto, auspiciosa e nos concede uma suave brisa a enfunar as velas, empurrando o mar desta narrativa, que sem rebuço se quer literária, verdade seja que sem golpe de asa ou centelha criativa – suprema ironia – pois por maior que seja a presunção do escrevente e o seu zelo, olhando em redor, não se vislumbra que Camilo se passei por perto, disposto a ditar sua prosa encantatória e voraz, a erguer o Zé Canhoto como um dos seus heróis românticos ou, se não herói, pelo menos personagem consistente que lhe garanta lugar marcado na galeria da eternidade, nem sequer Aquilino, de espingarda ao ombro e em sua saga político-literária, a lançar mão da vida canhota do Zé, que aquelas paragens chegou, vindo sabe-se lá donde, passando portentosas tormentas e, com ela, com a vida do , entretecer sua prosa apaladada e bravia, moldada em sábio e vero linguajar, numa réplica hodierna do belo romance Terras do Demo, ou - quem sabe? - talvez uma nova versão de “Quando Os Lobos Uivam”, pois, se os baldios são ardidos e desertos, não faltam, porém lobos, a descer aos povoados (que restam).

Mas apressemos os passos, que nestas linhas cruzadas de contar, importa que as raízes não sequem o tronco e os ramos e bem sabemos que Manuel Maria é o centro, onde os nós da narrativa se tecem ou se deslassam e, quando outros laços e nós da escrita se buscam, são ainda seus passos e seus gestos que se perseguem, de tal forma que, sendo certo que deixamos o nosso herói (a contragosto), no auge da Revolução de Abril, o novel arquitecto Manuel Maria, a acreditar genuinamente numa Arquitectura para o Povo, subindo a escadaria dos Paços do Concelho, de um Município da Área Metropolitana de Lisboa, a colocar-se ao serviço da Revolução, indo ao encontro de José Augusto Esquerdino, recém-eleito Presidente da Comissão Administrativa, em amplo e participado plenário da população, é exigência de entendimento e da ordem das coisas narradas que se persigam os fios desatados para que se possam desvendar finalmente os laços e veios e, para além deles e do acaso de suas vidas, que poderão unir homens tão diversos, em diversas pontas do tempo, como sejam Zé Canhoto, José Augusto Esquerdino e Manuel Maria e que fatais razões do destino ou determinação da escrita poderão levar a que estes três homens vão entroncar, como em águas matriciais, naquele local ignorado, algures em Terras do Demo, na margem esquerda do Douro, cujo termo solarengo descai em socalcos para as frondosas águas do rio.
(...)

Manuel Veiga

sexta-feira, março 15, 2019

"IDOS DE MARÇO..."


Dizem que os “idos de Março”
Foram fatais a César.

Mas César, desafiara os deuses
E levara Roma, aonde Roma nunca houvera.
Por isso os deuses o ungiram.
E os homens o invejaram.

E o peso do Universo e todas as invejas
César, com estoicismo, aguentava.

No entanto, Brutus – um homem honrado! –
Apunhalou o Amigo. Pelas costas!...

Não por cobiça – que Brutus é um homem honrado!
Mas porque Pompeia, mulher de César
Que séria nunca fora, séria jamais seria
Em seu resguardo de parecer honrada…

Para Brutus a traição, para Pompeia a Fama
Para César o que é de César!


Manuel Veiga





terça-feira, março 12, 2019

GLÓRIA AO ALTIVO MELRO...


Glória ao altivo melro em sua sebe. Soberano príncipe
Catando a hora em reflexos de luz. E o viço de meus olhos
Abrindo-se no negro vertebrado das asas
Em timbre de azul...

O sol é apenas pretexto. E o voo a indolência.
Não a chama, nem o sobressalto, nem o “piolho da existência”.
Apenas a imprevisível ave rasgando o ar
E a tarde caindo resiliente...

Nem passado nem futuro. Imanente o sopro
E o aguilhão de minha ausência. E a secreta passagem
Entre a fugaz ave e a alma evanescente...

Talvez a sombra de Torga seja a árvore.
E o magoado sorriso de Caeiro
A indeclinável sombra…

Manuel Veiga
 (poema reeditado)

sexta-feira, março 08, 2019

NÃO TE CELEBRO, MULHER ...


Não te celebro mulher que celebrar-te
É forma agónica de dizer-te. Ou aprisionar-te
No viciado jogo que se arrasta no equívoco
Das celebrações e de muros derrubados

Não, não te celebro, mulher. Nomeio-te.
Murmuro teu nome e, em cada sílaba, Sibila,
Digo teu nome. E, em teu nome, todos os nomes
E digo Amor, em teu nome.

E digo-te Sonho e Lume. E Lúmen. E digo-te
Sorriso. E digo-te Lágrima. 

E nomeio-te Companheira. E digo-te Camarada.

E nomeio-te Ventre e Seio.
E digo-te inquietação. E grito
E nomeio-te Fome e Sede.

E Mãe. E Filha. E Mátria. E Pátria.
E Liberdade Livre.

E digo-te Insubmissão
E nomeio-te Mãe-Coragem.

Não, não te celebro, Mulher:
Tu és a Celebração da Vida.

Manuel Veiga

Nota:
Os últimos dois versos, agora introduzidos, correspondem à ideia expressa no comentário de "ROSA dos VENTOS". Se ela me permitir, passam a fazer parte do poema. Grato.

quarta-feira, março 06, 2019

QUE OS CORPOS REINEM...


Colhe o poeta a cor do sonho na paleta
Com nuvens que sob onírica dança se desenha
E na abertura dessa entrega, sem saber
Se sai ou entra, o azul ao longe...

Advinham-se corpos irreais em transparência
Reclinados sobre colchas sem memória
Como sombras pressentidas na luz imensa
Que o dia clama...

Talvez crianças caprichosas ou velhos faunos
Desfaçam a leve renda ou a subtil brisa os descubra
Desnudados. Sem culpa e sem remorso.
Bárbaros e puros...

Talvez deste lado da paisagem onde beijos correm
Como ondas e os dedos do poeta se deslassam
Nas carícias, a cor capriche
No tempo breve. E na suave tarde
Os corpos reinem...


Manuel Veiga

domingo, março 03, 2019

CARNE VALE ...


 Queixou-se uma noviça ao pai honrado
Que da ordem, um tafulão
Lhe tinha quase à força escarapelado
O virgíneo botão: “Gritaste ao menos
Contra o agressor, misérrima tolinha!”
(Exclama o ginja, já todo em furor).

“Não, meu pai, não convinha
(Lhe torna a triste) que era pior mal;
Sendo alta a noite, tempo mui perigoso
De incomodar o meu provincial,
Que com a abadessa estava no seu gozo”.

Filinto Elísio – 1734/1819
Antologia de Poesia Portuguesa
ERÓTICA E SATÍRICA – Natália Correia
Antígona- 3ª Edição – Lisboa 2000


... e quem não gostar de carne que coma peixe!
ou faça dieta!



AS VALQUÍRIAS ...


Em noites brancas e circulares da insubmissão do sangue
Basta saber escutar para ouvir suas loucas cavalgadas
As Valquírias…

Voam distâncias. Nuas. Apenas cobertas de luar
E a vergasta dos cabelos. Que frenéticas sacodem
Em risos colossais e esgares que ressoam
No eco das montanhas
Quais trombetas...

Evitam encruzilhadas. E em magotes se apressam
E se juntam no destino. Em círculo debaixo dos salgueiros.
E cantam e dançam. E sacodem as ancas
E se mimam...

E com furor nas gargantas, gritam. E em êxtase tremem.
E se agitam. E se abraçam. E se incendeiam
E se cobrem de cinzas.

E invocam as Trevas. Num trovejar de fogo e ritmo
Soberbas erguem o símbolo fálico. E o momento de glória.
E se encenam em simulacro. E no sarcasmo.
Algumas se penetram. E em delírio
Se esgotam. Em sobressalto...

E se banham. E perfumam os corpos.
E trocam seus unguentos. E colhe o orvalho
E os fios de luar em que tecem
Seus filtros...

E dulcificam o canto. E solenes se dobram
E iniciam as virgens com dedos de prata e lume
No mistério do sangue. E do mênstruo.

E se louvam, filhas de Gaia
E de Eros...

E quando a Lua esmorece. E o Oriente se anuncia
Tingindo o céu. Luzem então as armaduras frias
E regressam aos leitos. E desfolham, então,
Açucenas no peito alquebrado
Dos guerreiros...

Basta saber ouvi-las – as Valquírias!...

Manuel Veiga
“Do Esplendor Das Coisas Possíveis” – pág.34
Poética Edições – Lisboa -  Abril 2016



quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Quem Sob Minha Árvore...


Quem sob minha árvore
Se abriga

Minha alma requer.

E nessa entrega
A acolhedora sombra
Se ilumina

E se diz água
E terra.

Manuel Veiga

domingo, fevereiro 24, 2019

MEUS PORTAIS ABERTOS...


Hei-de plantar uma árvore
Em meu Jardim de Prodígios.

E cuidá-la com o melhor
De meus afectos. E até com o sangue
De meus pulsos.

Para que a árvore cresça.
E floresça. Em apetecíveis frutos.

Abrirei então meus
Portais abertos
Ao movimento
Do Mundo…

E rogarei que os ventos lavem
Ofensas, enganos
Ou perfídias.

E afastem
Imposturas.


Manuel Veiga

quinta-feira, fevereiro 21, 2019

POSTAL DE ATENAS ...


Generosos são os deuses que tecem filigranas
No corpo da noite.

Sempre ali estiveram as ilhas.
Meus olhos é que tardaram
Nessa bebedeira do sonho...

O voo é esta reclinação do tempo.
Dispo-me de mim. E mergulho no magma.
Como outrora a cobiça dos impérios
Criava tempestades...

Pepitas luminosas no colar de Athena.
As ilhas sempre ali foram. Homens e impérios
As profanaram no impudor da guerra.

E no delírio das vitórias.

Gargantas bárbaras por onde escorre vinho
Generoso. Subtil veneno que entorpece
Como lento remoer da insubmissa espera...

Sou herdeiro desta miragem. Da infinita doçura
Que sara os golpes. E da mão que vinga.
E do apolíneo gesto que rasga a pedra.

E do bronze da história que clama.
E que reclama. E dos hercúleos pilares
Que sustêm a Europa. Néscia.
.....................................................

Regresso agora. Ítaca reinventada.
Pátria-minha. Ferida aberta...


Manuel Veiga



segunda-feira, fevereiro 18, 2019

A CARTA QUE NUNCA TE ESCREVEREI - Take 10


Aquele tempo, porém, era ainda tempo de Cantinas Velhas e de borbulhas a formigar revoluções e tigres de papel e correrias à frente da polícia em “Primeiros de Maio Vermelhos”, com o Rossio a abarrotar de revolta e a GNR a espadeirar sem olhar a quem, operários, estudantes, passeantes e turistas, velhos e novos, mulheres e crianças, cabeças a sangrar, quedas e tombos na correria, ferraduras dos cavalos empinados a relincharem e a chisparem na calçada, gritos e aflições, grupos organizados que, em carrossel, se revezavam e apareciam e desapareciam, inesperadamente, por detrás dos cavalos, gritando, amálgama de insultos e palavras de ordem, alguns manifestantes, mais decididos e bem organizados, a esquivarem-se dos bastões e a segurarem as bestas pela brida e a passarem-lhe pó de pimenta pelas narinas dilatadas e o escoicear frenético e equilíbrio instável dos guardas sobre as selas e Manuel Maria acossado, a sangrar e a correr pela Rua do Carmo acima, quase filado pelos cascos do cavalo e pelo bastão do façanhudo guarda, erguido, lá bem alto, na iminência de descer novamente sobre seu frágil e dorido costado. E, naquele vendaval de pancadaria, por entre as dezenas de manifestantes, que, em desespero, buscavam protecção na fuga e nas reentrâncias dos prédios, como uma bênção caída dos céus, sem que nada a fizesse prever, Manuel Maria é puxado para dentro da vedação de um prédio aparentemente em obras, prosseguindo o polícia e o cavalo, com o Manuel Maria a salvo, o afã de perseguição dos manifestantes mais à mão de semear, como soe dizer-se, bem se sabendo que, como em tudo na vida, tantas vezes, o mal de alguns é alívio de outros.

De tal sorte que, também no caso, embora apenas precariamente separado da agitação e dos perigos do exterior, por um frágil tabique, a verdade é que Manuel Maria se sentiu em segurança, com o breve ruído seco da porta a ser trancada e o sorriso irónico do homem, alto e louro, não mais de quarenta anos, uma bela barbicha também loura a enquadrar-lhe o rosto sedutor, impecavelmente vestido, último grito da moda, como se fosse modelo saído de uma vitrina, onde apenas as mãos desmesuradas e os dedos grossos destoavam da elegância do porte, imperturbável e sorridente, como se as dantescas cenas que lá fora, literalmente, a um palmo do nariz, se passavam e de que a cabeça partida e o rosto ensanguentado do jovem eram testemunho dramático, fossem para ele, o imperturbável salvador de Manuel Maria, cenas de teatro de rua ou quadros de uma peça dramática, cuja sequência detinha os fios.

E, então, a voz do homem, alargando o sorriso acolhedor “Guerra é guerra! ... Tiveste um belo baptismo de fogo, não haja dúvida!... Vai, corre! Lavas o rosto na torneira que encontras lá ao fundo, saltas o muro, corres pelo logradouro, segues pela cave do prédio em frente e estás a salvo”…

Manuel Maria, ainda a titubear de surpresa e emoção, agradeceu e quis conhecer o nome de seu salvador. “Que nada! vai, foge! – exclama  com firmeza, o desconhecido – conhecerás o meu nome um dia, se tiver de ser…”. E Manuel Maria jurou para os seus botões que jamais iria esquecer aquele rosto e o tamanho daquelas mãos, que apenas outras assim vira em tempos esvoaçantes da infância, numa aldeia longínqua das Terras do Demo, onde pela primeira vez vira a luz do dia, filho incógnito de amores espúrios de criada de servir, em vetusta Casa Senhorial.

Rapidamente, porém, Manuel Maria varreu lembranças antigas (que a hora era de outras dores) e se escapuliu, através do logradoiro dos prédios, seguindo as instruções de seu salvador, indo desembocar a meio da Rua do Ouro. Afogueado pelas emoções e pelas correrias, Manuel Maria disfarçou como pode os hematomas e os resquícios de sangue nos cabelos, enfiando uma larga boina basca e, afoito, caminhou, em passada larga, rumo ao Rossio, apto a prosseguir a luta e a candidatar-se a umas novas bordoadas. O ambiente, porém, mudara, em poucos minutos. Tal como se desencadearam, sem nada o fazer prever, qual cenário em ópera bufa que, inesperadamente, se altera ou, dito com mais propriedade, como se, após forte trovoada, a atmosfera se abrisse em bonança, ainda porém sob o efeito da tensão eléctrica, assim também a agitação e os gritos e as correrias e os polícias e os cavalos e as imprecações e as palavras de ordem e os desmandos e as chanfalhadas e as costelas partidas e as cabeças abertas e os incautos e pacíficos transeuntes apanhados, sem dó nem piedade, na onda da bestealidade policial se haviam calado e a larga praça do Rossio, orgulho de lisboetas e encanto de turistas, retomava gradualmente a sua pachorrenta rotina, com caixeiros e lojistas abrindo novamente portas e vitrinas, um grupo ou outro a comentar os acontecimentos, prontamente desfeito pelos polícias de giro e os esparsos gritos das sirenes a riscar os ares e um pelotão da polícia de choque acantonado nas traseiras do Teatro D. Maria não vá o Diabo tecê-las e a onda levantar-se de novo e o os cavalos da Guarda Nacional Republicana recuados na Praça da Figueira e rasgão na cabeça do Manuel Maria a doer c´mo caraças, e a estação do Metro do Restauradores rumo à Residência de Estudantes e a remoer sozinho os acontecimentos da tarde, que não se alcançava pelas redondezas nenhum dos amigos que a brutalidade da carga policial havia separado e tal fora combinado que, em caso de dispersão, cada um regressaria por seus meios.

E assim também agora, por seus próprios meios, em tempo literário outro, já não tempo de borbulhas a formigar revoluções e 1º de Maios vermelhos e proibidos e manifestações reprimidas e cabeças partidas, que esse tempo é tempo passado e em todas as laudas da história pátria jurado tempo de fascismo nunca mais, mas neste tempo agora, tempo de cerejas e grávido de promessas e de revoluções ao vivo, tempo de sonhos e de quimeras e canções que alguma coisa há-de sobrar delas, das canções e das quimeras e dos sonhos e desse tempo e desse povo também, a tomar em suas mãos o seu destino e o novel arquitecto Manuel Maria a acreditar genuinamente numa Arquitectura para o Povo e, neste ínterim, a subir aos Paços do Concelho, determinado a colocar os seus conhecimentos urbanísticos ao serviço da Revolução e oferecer a sua colaboração a José Augusto Esquerdino, recém-eleito em amplo plenário da população, Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal.

Manuel Veiga





domingo, fevereiro 17, 2019

TÃO POR DENTRO ...


Hiperbólica curva na voz
Do cello

Luz de nevoeiro
A acender
A noite

E o Tejo a deslassar-se
Ao longe

E a música - tão ávida!...
A lamber as cordas
E a diluir-se

Tão por dentro!...


Manuel Veiga



sexta-feira, fevereiro 15, 2019

DA IMPORTÂNCIA DO NOME ...


A Revolução liberal de 1789, como se sabe, aboliu os privilégios pessoais. E, na sua pulsão libertadora, fundou uma nova ordem social e proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão para a qual “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos; as distinções sociais não podem ser baseadas senão na utilidade comum.”


Em consequência, a partir daí, o direito ao nome, no conjunto dos direitos de cidadania, não será mais objecto de outorga, isto é, imposição ou dádiva, mas antes considerado como direito natural, inerente a todos os indivíduos.

Sinal imprescindível da personalidade, o nome pessoal extravasa, porém, a palavra que o enuncia. Representa, sobretudo, aquilo que somos; ou seja, o nome é o símbolo que reveste o seu titular e unifica o indivíduo: estrutura corpórea, mas também a dimensão psíquica e conjunto de valores éticos, políticos, intelectuais e morais, que definem o carácter.

Por outras palavras, o nome constitui o sinal mediante a qual a sociedade nos interpela, a evocação pelo qual somos reconhecidos durante toda a vida e, de alguma forma, nos propaga no tempo, pois que, como símbolo da identificação e da individuação pessoal, nos vincula à nossa vivência e ao mérito (ou demérito) da nossa participação colectiva.

Na sua dimensão simbólica, o nome pessoal é também expressão de uma ideologia: de classe, de grupo ou de uma família. Os nomes pessoais falam para além das pessoas que designam. Revelam mais do que afirmam. Desde logo porque, hoje em dia, para as grandes massas aculturadas pela ideologia dominante são um fenómeno de moda. (“Maria Albertina porque foste nessa/ de chamar Vanessa/ à tua menina?”).

Noutros casos, sobretudo, nas classes dominantes, o nome pessoal é a projecção social de um futuro que proclama, por isso, no nome de baptismo se inscrevem as referências familiares dos antepassados mais distintos, num processo que (dir-se-ia) da mesma natureza com que os primitivos usurpavam o nome dos animais ou fenómenos naturais que os seduziam. Em boa medida, é verdadeira a expressão “diz-me como te chamas, dir-te-ei quem desejam que sejas...”

Este fenómeno é replicado nos processos democráticos ou revolucionários, em que os nomes de líderes e de vultos destacados são assumidos pelas massas e os inscrevem no registo dominante dos nomes próprios em determinado momento histórico. Por exemplo, na geração do post 25 de Abril, são frequentes os nomes de “Vasco” e de “Catarina”, como homenagem a dois vultos maiores da revolução – Vasco Gonçalves e Catarina Eufémia.

Acontece que, na sua expressão simbólica, os nomes podem ser manipulados como instrumento de luta ideológica. De facto, como se referiu, o nome é direito natural de que todos homens, sem distinção, são sujeitos. Quer dizer, portanto, que o nome igualiza todos os homens, colocando-os, ao menos no plano formal (deixando por agora de fora as desigualdades derivadas da situação concreta de cada um no sistema de produção), em lugar idêntico perante o direito e a sociedade.

Mas se o direito igualiza, a ideologia distingue.

Vejamos. Os nomes produzem um efeito especular, unificador das características pessoais de cada um, que no seu conjunto definem a sua individualidade própria, como ficou dito.

É mediante esse efeito que os indivíduos em concreto se reconhecem e a sociedade os interpela como homens e cidadãos. Eliminar ou elidir alguma das características individuais expressas simbolicamente no nome, será diminuir a personalidade do indivíduo. Ignorar deliberadamente, truncar, substituir, abjurar, diminuir o nome de uma pessoa é, de alguma forma, decretar a sua “morte civil”...
 (…)

Manuel Veiga

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA e Outras Metáforas
Modocromia – Lisboa 2015



terça-feira, fevereiro 12, 2019

MEU NOME, MINHA GUARIDA


Meu nome é minha guarida
E o lar de meus afectos – e de alguns escolhos!
E o lugar donde espreito o Mundo.

E é espelho- mágico
Onde me revejo.

Por vezes, poderá mesmo ser capricho
De alagados mostos. Ou até flibusteiro.
Ou palhaço.

Meu nome é quase tudo. E no mesmo lance
Meu nome é nada.

Porém - garantido está! - jamais
Será passadiço. Leilão. Ou servo.
E muito menos
Faz-de-Conta.

Ou jogo! ...


Manuel Veiga


segunda-feira, fevereiro 11, 2019

Uma Pequena Homenagem e Uma (In)desculpável Vaidade


Conceição Lima é produtora e apresentadora do programa de divulgação de Poesia da Radio Vizela – “Uma Hora de Poesia”. O programa tem, segundo julgo, cerca de meia dúzia de anos e, apesar de se tratar de uma Rádio Local, tem verdadeira expressão nacional, tantos são os poetas e qualidade da poesia apresentada no programa.

Tempos atrás, Conceição Lima entendeu fazer um programa à volta da minha poesia,  com uma pequena entrevista, análise e leitura de poemas, pela própria e por um grupo de amigos, seus habituais colaboradores que, com sua voz e o seu enorme talento dão expressão aos poemas, no decurso de cada programa.

Entretanto, aconteceu a publicação do romance “Do Amor e da Guerra”. Conceição Lima apaixonou-se pelo livro e anunciou-me, peremptória, que apesar de sua motivação ser apenas falar de poesia e não de literatura de ficção, queria muito, depois de reler, poder falar sobre “Do Amor e Da Guerra”.

Foi assim que surgiu a apresentação do livro na Associação Macaréu, na cidade do Porto, no passado 15 de Dezembro. Conceição Lima cultiva a boa prática de se jogar sem rede naquilo que gosta de fazer, seja na apresentação do seu programa, seja na apresentação de livros. Quer dizer, prepara meticulosamente as suas apresentações, mas nega-se a falar com suporte escrito. Fiquei a saber quando lhe falei em deixar-me cópia das notas e apontamentos sobre as quais assentava a sua brilhante apresentação. Que não havia nada escrito, mas que escreveria umas anotações sobre Maria Adelaide (a heroína), que momentos antes havia sido objecto de ligeira controvérsia entre nós os dois.

Aqui fica, pois, em traços bem vincados, embora breve, o perfil de Maria Adelaide, personagem nuclear “Do Amor e Da Guerra”, mediado pelo olhar arguto de Conceição Lima, a quem agradeço com o maior apreço pelo seu trabalho inestimável de divulgação literária, em nome de uma amizade que, sendo recente, se deseja perseverante e sólida.


“Ao leitor não importa a verdade dos factos. Interessa, sim, a “verdade” da narrativa, a capacidade que o autor (“se autor houvesse…”) nos oferece de nos confrontarmos com “ alguém” de corpo e alma, permitindo que consiga emergir das suas palavras, alguém de corpo inteiro…

Assim foi com Maria Adelaide!

Maria Adelaide é uma das muitas personagens que tecem esta narrativa…É ELA, porém, o “ veio” que a alimenta. Ela é a seiva que percorre o enredo. Imperial, irreverente, excessiva, de olhar felino, ei-la que irrompe, que salta para o palco, que exige holofotes com a luz bem direcionada…

Ela exigiu e o narrador deu-lhe luz própria, fê-la “estrela”!

Maria Adelaide é, no fundo, “a pedra angular” de toda a diegese. Sim, pedra…Rocha! Cristal em bruto…Até ao fim, vibrará, retinirá e o seu eco perdurará…

Será “a incisão e o ariete” desta tatuagem!..."




sexta-feira, fevereiro 08, 2019

MÚSICA E FLOR ...


Flor é uma flor, é sempre flor…
Música é música - é outra música…
Música e flor em MI maior
Perfume de dor, na dor de meu amor...

Sopro de flor - aquela dor na minha dor
Perfume de música em Dó maior.
Música e flor em redor - na dor da flor.
Música e dor de meu amor.

Sopro de música - flor de amor!
Perfume de flor em LA menor
Na dor da flor. Música e flor
Canto de musa a meu favor.

A mesma música – a mesma flor…
Timbre de flor em SOL maior
Música e flor na dor da minha dor
Em vão, a flor na música da dor!...

Guardo música e flor na dor maior.
A meu favor – canto, musa e flor.
Perfume e dor de amor maior
No canto e na dor de um trovador ...


Manuel Veiga



quinta-feira, fevereiro 07, 2019

QUE SE SOLTEM OS VENTOS...


Em oceano de sargaços solto
Meus presságios. E inverto o sentido
De meus passos.

Meu relógio (de badalo)
Marca apenas as horas faustas
Que, outras, não quero.

Nem meu nome
É coito de insídias, nem pasto
De perfídias. Nem meu corpo é cacilheiro.

Porém, navio de corsário…

Parto. E passo
De alto – que nada renego.
Nem dou trocado. Nem vendo.

Que se soltem pois os ventos. Que ventos
Não temo. Nem as Fúrias
Que os dizem.

Sei que passo – e parto aliviado.
Pois bem sei de meus passos
Que, sem metáforas, cultivo.


Manuel Veiga