Talvez neste horizonte
breve o fio de água
Despenhando-se na
memória. Como esta fraga.
Ave planando sobre a
presa e o repentino som
Da pedra. Granito
ardendo no íntimo silêncio.
Como pomos de fogo
calcinados de azul...
Debruço-me. Talvez a
água agora seja apenas
Mãos no gesto de
bebê-la. E a ave esta rapina.
Nem voo, nem pássaro
sagaz. Ausência ainda.
Pura. Gavião e pomba
desenhados no corpo
Do desejo. E meus
olhos bêbedos de lonjura.
O vento que agora
afasta a cinza é o mesmo
Embora. E a litania é
eco no coro deslizante
De meus passos. Não a
vereda palmilhada.
Nem as vestes. Ou o
sangue seco dos espinhos.
Apenas rumor de fogo
na palavra celebrada.
Descalço e de bordão
como antigos monges
Colho a folha do
carvalho. E enfeito os dias
Porta em porta, caminheiro.
E no portal de mim
Me acolho exausto. E
mordo e rasgo.
E clamo: “Casa em que me
guardo.
Terra quanta vejo!...”