segunda-feira, abril 07, 2014

ERA TEMPO SEM TEMPO...


Era um tempo sem tempo, como se a garganta
Fosse o grito em profusão de mil ecos
Na serenidade do vale.

Ou pássaro milenar em vertigem do voo

Os insectos sorviam o néctar e as azedas
Línguas crespadas na acidez da ceia
Que a lonjura retardava – o caminho era ainda
Não regresso...

Antes era passo alongado em cadência breve
De sol macio.

As giestas fervilhavam em zumbido amarelo
A que a brisa dava asas e se infiltrava
E descia sob os fios dourados de meus olhos
Como inesperado manto em régios ombros.

Grinaldas de açucenas que o açude toldava
Na distância de colhê-las. Apenas o olhar as desenhava.
 - Imperecíveis na memória de meus dias.

E a água. E a cantata. E o sobressalto dos sonhos
Como inquietos potros. Míticos.

E o esplendor de mirtilos. E a festa dos sentidos
Em explosão de Primavera.

Manuel Veiga

 

sábado, abril 05, 2014

EM SEARA ALHEIA ( de Versos)



Ainda temos nas mãos
A força e o espanto
A raiz de um querer tanto
A esta terra, no peito


Ainda temos nas mãos
A maresia e o sal
Dos nossos avós marinheiros
Que espalharam pelo mundo
Raízes de Portugal


Ainda temos nas mãos
Um canto para florir
Nas cordas de uma guitarra
Um chão que se quer cumprir
Numa nova madrugada.


Ainda temos nas mãos tanto mar,
Tanta alma, tanto espanto...


Lidia Borges - in Sementes Daqui - Poética Edições


(agradável convívio a apresentação em Lisboa, do livro de poemas da Lídia Borges  "Sementes Daqui" - parabéns, Lídia)





quarta-feira, abril 02, 2014

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LV


Em Babilónia apenas as palavras são pródigas – todo o resto fenece...

Dizem mesmo os magos que a cidade será em breve apenas coitada de velhos - esquálidos...

Entretanto, o que ontem era verdade é hoje mentira – e o provisório torna-se definitivo!...

Hammurabi, o legislador, manda calar os recalcitrantes, garantindo-lhes que andaram anos a “viver acima das suas possibilidades”. Uma rotunda verdade – de facto, os babilónicos viviam no luxo de amassarem o barro e poderem fazer filhos!...

E não devem!... Que a sábia palavra de Hammurabi é o resgate - e a infalível redenção do futuro!...
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E um jovem menestrel, em jeito de fado: “as palavras estão gastas/são odre vazio/é a luta dos homens/que lhes dá o sentido...”