quinta-feira, julho 03, 2014
quarta-feira, julho 02, 2014
HOMENAGEM A SOFIA POR INTERPOSTA POETISA...
Sei que, no dia de hoje, toda a poesia
deverá evocar o nome de Sofia.
Não será excepção este blog...
A minha evocação, porém, vai num poema
de Graça Pires
A sua pessoalíssima expressão poética,
luminosa e fecunda,
e a sua forte personalidade literária trazem-me, por vezes, reflexos de Sofia...
“ Na periferia
da manhã, levemente adiada,
Improviso uma
ilha.
Tão nua como
páginas em branco.
E concedo-me o
direito de esperar Ulisses.
A minha fronte
marcada com palavras sem destino.
O teu rosto,
longamente procurado
Não tem búzios,
nem conchas, nem corais.
Na praia até
então intacta
Sinto a luz de
teus passos.
Ou será uma onda
furtiva
A tornar
transparente a tua ausência?”
Graça
Pires
Poemas
Escolhidos – 1990/2001- página 93
terça-feira, julho 01, 2014
ÀS PORTAS DA CIDADE RAREFEITA...
Às portas da
cidade rarefeita por onde
Os lobos marcam lá
dentro a paisagem em seu registo de sangue
E ódio e se
devoram senhores do tempo
E os cães
famélicos são apenas os restos do banquete
E da apoteose da
morte...
Às portas da
cidade por onde o grito se perfila
E os rodízios e
as alavancas gemem num chiar de mudos
E o canto se
entope nas gargantas. E pela milésima vez
Bandeiras
esfarrapadas cobrem as chagas
Expostas como
fístulas poluídas...
Às portas da
cidade onde fervem as vitórias e todas
As desistências
são possíveis e os heroísmos são verso e reverso
De tudo ou nada.
E os homens se reconhecem
E são barro ou
aço na dimensão comum do seu destino
E da entrega à
incerteza e ao sobressalto...
Às portas da
cidade por onde um poeta sem nome
E sem glória aclara
a voz com cítara desajeitada
E recolhe os salvados
de todos os naufrágios
E com eles as dores
e as fomes descarnadas que se perfilam
Num deserto de
agonia trágica...
Aí nesse mítico lugar
de batalhas destroçadas e de furtivas
Esperas. Aí às portas
da cidade por onde corre o sangue
Fermente e o
medo se fecunda no rugir dos ferros e dos ventos
Nesse mítico
lugar solto meu grito de guerra e me jogo
Farrapo de azul vertido
em velas de um qualquer moinho...
Manuel Veiga
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