quarta-feira, julho 02, 2014

HOMENAGEM A SOFIA POR INTERPOSTA POETISA...


Sei que, no dia de hoje, toda a poesia deverá evocar o nome de Sofia.

Não será excepção este blog...

A minha evocação, porém, vai num poema de Graça Pires
A sua pessoalíssima expressão poética, luminosa e fecunda,
e a sua forte personalidade literária trazem-me, por vezes, reflexos de Sofia...


“ Na periferia da manhã, levemente adiada,
Improviso uma ilha.
Tão nua como páginas em branco.
E concedo-me o direito de esperar Ulisses.
A minha fronte marcada com palavras sem destino.

O teu rosto, longamente procurado
Não tem búzios, nem conchas, nem corais.
Na praia até então intacta
Sinto a luz de teus passos.
Ou será uma onda furtiva
A tornar transparente a tua ausência?”

Graça Pires
Poemas Escolhidos – 1990/2001- página 93

 

 

terça-feira, julho 01, 2014

ÀS PORTAS DA CIDADE RAREFEITA...



Às portas da cidade rarefeita por onde
Os lobos marcam lá dentro a paisagem em seu registo de sangue
E ódio e se devoram senhores do tempo
E os cães famélicos são apenas os restos do banquete
E da apoteose da morte...

Às portas da cidade por onde o grito se perfila
E os rodízios e as alavancas gemem num chiar de mudos
E o canto se entope nas gargantas. E pela milésima vez
Bandeiras esfarrapadas cobrem as chagas
Expostas como fístulas poluídas...

Às portas da cidade onde fervem as vitórias e todas
As desistências são possíveis e os heroísmos são verso e reverso
De tudo ou nada. E os homens se reconhecem
E são barro ou aço na dimensão comum do seu destino
E da entrega à incerteza e ao sobressalto...

Às portas da cidade por onde um poeta sem nome
E sem glória aclara a voz com cítara desajeitada
E recolhe os salvados de todos os naufrágios
E com eles as dores e as fomes descarnadas que se perfilam
Num deserto de agonia trágica...

Aí nesse mítico lugar de batalhas destroçadas e de furtivas
Esperas. Aí às portas da cidade por onde corre o sangue
Fermente e o medo se fecunda no rugir dos ferros e dos ventos
Nesse mítico lugar solto meu grito de guerra e me jogo
Farrapo de azul vertido em velas de um qualquer moinho...



Manuel Veiga