Toma o poeta o
cinzel e seu ofício
E pela fissura
da pedra por onde a palavra espreita
Escuta o lento
germinar da água sob a fraga
Gota a gota.
Como seiva...
Nada que não
saiba. A demora é cadência
Do escopro.
Música que não rima ainda.
Rumor apenas de
água. Talvez fermento.
Selo que
resguarda. E anuncia...
Ergue o poeta o
murmúrio do silêncio
No cadinho e no
caule da sua espera.
E sopra o nada.
E busca a presa. Que arredia
Se escapa.
Fugidia...
Razão que não
queira. Rumor da língua.
Centelha agora.
Já não apenas água.
Contudo mineral
ainda. Mas já crisálida abrindo
O som da
sílaba...
Ousa o poeta
depois o fogo e a sarça.
E a chama no
interior da pedra.
A palavra ainda
é nada. Apenas o estrelar da luz.
Fogo e água. E
solidão acesa...
Nada que não
seja. Porém a palavra agora
(Feita água) é
rosto e é nome. E claridade...
Vereda de dor e
fome de humanidade.
É quimera que se
ergue no poema...
Manuel Veiga
