domingo, novembro 30, 2014

POEMA QUASE-NADA...



No corpo da Palavra
Um frémito
Uma cadência solta
Um alvoroço
Um meteorito que se despenha
E explode em luz branca...

E nessa infinita graça
Todo o universo se ilumina
E se condensa em subtil cântico
E se devolve
Quase-nada.

E vibrante se agita
E cativo se recolhe
E se atiça
E se derrama
No poema

Como festivo magma...

sexta-feira, novembro 28, 2014

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LXV



Babilónia é uma selva. E um charco, onde reina poderoso rinoceronte – senhor do charco, julga-se o rei da selva...

Quando o lodo é mais denso, vem à superfície e despeja hiperbólicas indignações – que alguns confundem com rugidos...

Depois do “pássaro verde” - o “Espírito Santo dos milagres” - assume agora as dores do “animal feroz” – “preso sem ser julgado!...”, indigna-se...

E desfere palavroso ataque contra os juízes...
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E um velho jurista retirado da praça, mas não do Mundo: “dura lex, sed lex...” (a lei é dura mas é lei”, exclama. E pedagógico – “culpa, ubi no est, nec poena esse debet...” (onde não há culpa, não haverá pena...)

quarta-feira, novembro 26, 2014

SUBTIS INCANDESCÊNCIAS...


Sob a dominância dos escombros e dos dias gelados
Tacteiam os dedos a fina película dos muros
Em que a metamorfose da cal se desvanece
Como palavras gastas ou fomes caladas
Sem reverso...

Profusão de sombras por onde sobem nossas dores
Como larvas tecendo o casulo e a teia
Na amargura dos dias
E no degredo das paisagens.

Clarins sorvendo a alvura do silêncio
E sem mais restar que o sopro
E a inversão meteórica das vozes em polifónicos
Cânticos calcinados...

Nada sugere outra luz ou outra vibração
Que não seja o lusco-fusco e a palidez dos dias saturninos
Ou auroras de frio...

E no entanto o grito sufocado dos dedos
E os lábios gretados balbuciam inesperadas correntes
E águas soltas e margens extravasando percursos
Percorridos.

Subtis incandescências no topo das montanhas
Ou o delírio de pássaros talvez
A balancear o voo...


Manuel Veiga