Estamos
confrontados – dizem os historiadores – não com o fim da História, mas
porventura com algo mais catastrófico, ou seja, com uma espécie de “rarefacção dos acontecimentos” perante
a qual a história se tornou impossível.
Explicitemos
esta ideia. Com a queda do Muro de Berlim e a falência do sistema soviético, o
capitalismo “canibabilizou” todo o sentido de negatividade. Onde até então
existia dialéctica ergue-se agora um percurso de sentido único. Onde até então
a densidade dos factos se projectava nas consciências e empolgava militâncias,
hoje os factos despenham-se na sua profusão e nos efeitos especiais com que a
comunicação social os apresenta, banalizando-os, encharcando o quotidiano com
marasmo do idêntico por toda a parte.
Na
política, na cultura, nos média, na moda e até nas próprias causas que, mesmo
quando se apresentam como “fracturantes”, são as mesmas, seguindo o mesmo
padrão de sentido único...
Hoje,
tudo se passa em tempo real. Já não há mais lugar à verdade real dos
acontecimentos. Tudo se resume agora à coerência dos factos, imediatamente
apreensível no alinhamento dos telejornais. Sabemos tudo, a toda a hora, na
espuma do quotidiano...
A
história fica paralisada, não por ausência de acontecimentos, mas pela lassidão
das consciências, empanturradas de informação. As chamadas maiorias
silenciosas, a imensa indiferença das massas humanas, a falta de mobilização
cívica têm certamente diversas explicações. Mas a inércia social não resulta
seguramente por falta de motivos para acção cívica e política...
Nesta
espécie de auto dissolução da história, todos os mecanismos da democracia
política se degradam. E, nessa degradação, se precipitam valores políticos,
cívicos e morais. As próprias exigências do exercício da liberdade e de
respeito dos direitos do homem não passa de um simulacro.
“A democracia planetária dos direitos do
homem está para a liberdade real está como a Disneylandia está para imaginário
social” – escreve Jean
Baudrillard num livro célebre (A Ilusão do Fim – ou a greve dos
acontecimentos).
Se
com o colapso do sistema soviético, o capitalismo devorou, como uma paródia
universal, a dialéctica e a história, ao assumir todos contrários, numa
grotesca síntese sem alternativa, é porque, na sua veleidade de dominação
totalitária, devora a própria substância do ser humano para o reduzir à sua
essência de ser produtivo...
Salva-se,
porém, a cultura da liberdade e dos direitos do homem! Mas salva-se?...
Que
os digam os milhões e milhões de “gente
descartável”, que à escala planetária são afastados, como excedentes
(mercadoria, portanto) do processo de produção e de consumo.
Que
o digam as prostitutas na Tailândia, os índios no Brasil, os escravos na
Mauritânia, as crianças e as mulheres em Ceilão, no Paquistão ou na Índia! Que
o diga África! Que o digam, nos Estados Unidos da América, os muros de milhares
de quilómetros electrificados e a vigilância electrónica (e os rifles)
apontados aos emigrantes mexicanos!...
“Da liberdade já só resta a ilusão
publicitária, isto é, o grau zero da ideia, a que regula o regime liberal dos
direitos do homem" (...) –
exclama o autor referido, ou seja, “a
promoção espectacular, a passagem do espaço histórico para o espaço
publicitário, passando os média a ser o lugar de uma estratégia temporal de
prestígio...”
Construímos
a memória síntese dos nossos dias, mediante a profusão de imagens publicitárias
que nos dispensam da participação dos acontecimentos realmente transformadores
da vida e da sociedade
Nesta
antecipação publicitária, se canibaliza o futuro e se procede à reciclagem dos "detritos" da história e dos
mitos. Também os pais fundadores da nação norte americana, em nome da
liberdade, permitiram a escravidão!...
Resta-nos
a convicção que, ao longo dos tempos, sempre os escravos se revoltaram... E
que, em seu "surdo ruído",
a História prossegue seu caminho.
Bem
se sabendo quão duras são suas dores...
Manuel
Veiga