segunda-feira, fevereiro 09, 2015

DIAS SATURNINOS...


Sob a dominância dos escombros e dos dias gelados
Tacteiam os dedos a fina película dos muros
Em que a metamorfose da cal se desvanece
Como palavras gastas ou fomes caladas
Sem reverso...

Somos esta profusão de sombras por onde sobem
Como larvas tecendo o casulo e a teia nossas dores
Na amargura dos dias e no degredo das paisagens
Clarins sorvendo a alvura do silêncio
E sem nada mais restar que o sopro
E a inversão metafórica das vozes em polifónicos
Cânticos calcinados...

Nada sugere outra luz ou outra vibração
Que não seja o lusco-fusco e a palidez dos dias saturninos
Ou auroras de frio...

E no entanto o grito sufocado dos dedos
E os lábios gretados balbuciam inesperadas correntes
E águas soltas e margens extravasando percursos
Percorridos.

Subtis incandescências no topo das montanhas
Ou o delírio de pássaros
A balancear o voo...


Manuel Veiga - in "Poemas Cativos"


sábado, fevereiro 07, 2015

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LVI



Babilónia é uma flor sem tempo - imperturbável...

Uma leve brisa em redor faz agitar as águas. Mas o barco permanece afundado – como se nada fosse...

Hammurabi, o legislador, teima na sua teima – que o barco está salvo!...

Sir Tony, o dos sete costados, faz pressurosos diagnósticos. E acredita que a sua hora há-de chegar - mas nada diz da aragem em redor, nem do barco afundado...

A Praça diz que sim, ou talvez não – como de costume!...

Os babilónicos mastigam dores e desenganos – como se nada fosse...



segunda-feira, fevereiro 02, 2015

SINAIS DE FOGO...


 No dorso das coisas imperecíveis um frémito
Uma ligeira agitação como se invisíveis dedos
Profanassem sua quieta permanência...

Uma subtil ruptura tímida que oscila
Sem ser fenda nem passo. Ainda.
Apenas dança
A abrir-se
Em promessa
Contida.

E o palco. Aberto. Esquivo
Nesta espera.

Sinais de fogo
Em luta corpo a corpo
Entre a fria noite
E o claro dia
A (re)fazer-se ...

Manuel Veiga