sexta-feira, novembro 18, 2016

Flor de Lume a Derramar-se...


Quando  nudez explode generosa flor
Em pétalas (re)colhida. E os olhos se derramam
Como o rio sobre as margens.
Ou perfume raro que inebria
E ousa e perdura
Subtil presença.

E os sentidos são poema e sinfonia
E o sorriso serena entrega
E o olhar se anuncia
Mergulho
E roteiro
E secreto
Mapa

E ventos labaredas em fusão de bocas
Vaivém e ondas soltas
A explodir em pontas
Bailado de salivas
E de urgências
Várias.

E os corpos já não corpos.
Apenas sede e águas!

O mar é apenas gota
Marés cheias
São ternuras
E as ondas
Alvoroço.

Flor de espuma que abra(s)ça
E se extingue. Êxtase. 
Flor de lume. 
Fecunda.

A derramar-se – lago
E mastro.

Manuel Veiga






terça-feira, novembro 15, 2016

Que Mais Importa ao Poeta?

Vens autêntica em tua benevolência cálida
Dulcificando em mim a noite cerebral
Ungindo esquecidas glórias
Adejantes como fogueiras vãs
Que apagadas ardem e em cinzas
Se ateiam.

Bem sei (ambos sabemos)
Que o tempo corre por vezes bálsamo
Outras apenas flor de zimbro
Insignificante em seu devir
Estéril como promessas por abrir
Cumprindo rotas sem registo.

E no entanto em teus olhos
Bebo o fruto cristalino das árvores inventadas
Antigas montanhas debruçadas sobre o vento
O sopro dos dias nas mãos abertas
Em generosa dádiva...

Que mais importa ao poeta
Senão cumprir-se?

(E assim celebrar
A vida!)

Manuel Veiga 

domingo, novembro 13, 2016

Poema Líquido


Na suavidade da pele a caligrafia
De todos os nomes letra a letra
Urdidura dos lábios no percurso da sede
E desmesuradas línguas
Notas de uma guitarra a arder na combustão dos corpos
E clandestinas grutas
Como chamas.

Não somos – declinamos o tempo
No encantamento dos olhos a derramarem-se
Por dentro na doçura do rosto
E no sinfónico movimento do voo
E na incandescência alada dos murmúrios
Assim libertos – grito sustenido
No âmago. A explodir desmedido
Qual poema líquido.

Manuel Veiga