terça-feira, novembro 29, 2016

Ligeira Vibração de Nada


Quando as estrelas se fundem por capricho
Ou invisível Fado. E o universo é apenas tela
Ou registo do matricial fogo.
E os próprios deuses se espantam
E invejam essa nova luz a despontar.
Inelutável.

E toda a poalha vibra em ritmo novo.
E todas as trajectórias dançam.
Incontidas.

E as alvoradas são a arder em chamas.
E o grito é glorioso toque de trombetas
E a palavra é ligeira vibração de nada
Incrustada no dorso de todos os sentidos.

Então o Prodígio acontece. E desce
À mesa do poeta. E o poema é cerimónia secreta
A desvendar-se virgem no palato e língua
Fruto pagão e bailado bocas.
Rítmicas.

Manuel Veiga



domingo, novembro 27, 2016

Nem Cânticos, Nem Glórias.






Nem cânticos, nem glórias que favores
Não tenho guardados em meus gestos...

Sou rio ou aqueles montes desertos
Que de longe atraiam, mas que de perto
Pedras rolantes apenas, cuidando o sopro.

E nessa miragem me despenho. Inteiro.
Que de mim apenas o voo a que me afoito. 
Sem asas de falcão. Nem alvos de permeio.

Mas fervoroso nos dados em que me jogo.

Sou nada ou o infinito – queiram ou não.
De resto – é como digo - que mais me importa?
De pés descalços e olhar altivo me visito
Nas rosas que colho. E nos frutos que semeio.

Amores e desamores. E o peito aberto!...


Manuel Veiga
in“Poemas Cativos” – Poética Edições
Maio 2014

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Decidi reabrir os comentários.
Por que sim!
Espero que meus textos continuem a merecer
 a vossa esclarecida opinião.
Grato.

Beijos e Abraços.


sexta-feira, novembro 25, 2016

Ergo do Chão Meu Silêncio


Ergo do chão meu silêncio e nele alicerço
Minha casa-abrigo. E bordo, letra a letra,
As palavras-outras nas margens clandestinas
De que sou devoto.

Cabana apenas a que o olhar se rende
Premeditados esquissos. Assaz perdidos
Que nada mais importa nesta floresta de enganos
Que não seja a rota dos desejos.

E então me perco. Ou então me faço
Soleira e cristal. E percorro enseadas
E aí me demoro. E abro meu corpo
Ao mistério das águas
E ao âmago dos ventos.

Manuel Veiga