sábado, janeiro 07, 2017

Nem o Anjo, Nem a Espada!


Rasga o poeta as vestes e clama seus passos
Ousando, de queda em queda, o fogo do milagre
E os caminhos de Damasco
E a Iluminação perene
Que o redima.

Não a prece, nem a tempestade. Nem o anjo.
Nem a espada - são de pedra seus passos
E inóspitos seus caminhos.

E é de areia o rosto das miragens.
E é de fel o colapso de seus dias
E de amargura a água dos rochedos.

Mas ousa o poeta o milagre inscrito
Nas humanissimas dores da Humanidade
E nelas lava seu corpo místico
Como se rio fossem...

Manuel Veiga






quarta-feira, janeiro 04, 2017

Lugar Transitivo...


Inscreve-se o poema no limite da língua
Lugar transitivo onde o sentido se apaga.
E apenas o rumor se agita
E se liberta
Pura forma
Inquieta
Que se derrama
Entre as dores
Do Mundo
E a flor carnívora
Em que o poeta
Se despenha...

Assim toda a Palavra seja
Guerrilheira.

Manuel Veiga

domingo, janeiro 01, 2017

Que os Deuses Escravos Sejam...


Que as esferas girem e seu percurso
Seja incandescência. E os olhares o espaço sideral
E seu eterno movimento. E a linha dos dias
Se desenhe no rosto do inesperado.
E sejamos o crivo e a poalha
Ardente.  

E cada onda encontre o seu reverso.
E todos os amores e todos os afectos se façam
E cada momento seja infinito instante
E luminosa dádiva.

E que o fogo seja alimento de poetas
E festivo, arda. E seja marca e glória a anunciar
As alvoradas.

E o tempo se faça insígnia. E ritmo.
E a vida dança.

E os homens sejam a fecunda chave do Universo.
E os deuses escravos, sejam. Gemendo as dores
Da Humanidade.

Manuel Veiga