sábado, janeiro 28, 2017

Sem Resguardo



São os deuses da poesia indiscretos
Mais que outros sem resguardo
Nem véu que lhes quebre o capricho
De se oferecerem!...

Apenas a criança cega e a flecha
Disparada recolhem os favores
Em que ledo me engano…

Porém, a beleza perfumada
E o gesto puro como fruto nobre
Em boca generosa...

Manuel Veiga


terça-feira, janeiro 24, 2017

A Borbulhar Por Dentro...


Soberbo o carvalho e sua fronda
Soberbo o freixo e sua sombra.
Soberbo o melro a saltar de galho em galho.
Soberano. E negro.

Soberbos os espantados tordos. E meus olhos
Espantados no seu canto.

Soberba a montanha. E a pedra parideira.
E a água fresca a cair da pedra. 
Bebida pelos dedos.

Soberba a litania dos insectos. E o sol a pique.
Soberbo o rio. E as suas coleantes margens.
E o linho na corrente fria
A curtir as mágoas.

Soberbos os dedos tecendo. E as açucenas.
E os bordados. E a toalha alva.
E a mesa do sacrário.

Soberbos os sinos. E missa d´alva. E o menino
Ensonado a esfregar os olhos. Meigos.
E o restolho. E o trigo.
E o pão ázimo.

Soberba a misteriosa Lua a espreitar furtiva
Amores imaculados. E a dançar soberba
E nua. Uma dança de corpos perdidos
Em seus raios.

Soberbo o dia de ontem. E todas as auroras.
Soberba cálida vida a esgotar-se. Límpida.
Licor ainda.

Soberbo este perfume da ausência.
A arder sem lume.
Soberbo o murmúrio do poeta
A borbulhar por dentro.
E incauto a resguardar-se
No frágil eco
Do poema.


Manuel Veiga.

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Camões Dirige-se aos Contemporâneos - JORGE SENA



Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.

Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome.
E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
Para passar por meu.
E para os outros ladrões,
Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
.....................................................................

Jorge Sena nasceu em Lisboa em 1919 e faleceu em Santa Bárbara - EUA - em 1978. Foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário. A sua obra de ficção mais famosa é o romance autobiográfico Sinais de Fogo. De destacar, da sua obra poética, a colectânea "40 Anos de Servidão" - Moraes Editores - 1978