domingo, fevereiro 05, 2017

(novo) Noivado do Sepulcro


Quando um dia for poeta quero ser
Poeta – porém, poeta “insurgente”
E mergulhar em seus abismos.

Então meus dedos hão-de calar os ventos
E serei hóspede de infinitas tempestades
E criarei inimizades. (Que meus amigos
De mim sabem. E assim me querem
Desabrido. E claro.)

E serei aquele cego das esquinas.
A tocar concertina e exibir fístulas.
E arremedar jaculatórias piedosas. E sem rima.
E a piscar – brejeiro - o olho.
E a apalpar meninas - desprevenidas –
Está mais que visto!...

E a fazer grosso manguito à moeda
Que lhe atiras…

Pois meus  versos hão-de arder – vivos.
Ou rasgados. Ou serem papel nas latrinas.
Mas nunca usarão barbas.
E metáforas? Serão poucas.

E hei-de rir com meus botões.
Até que os cães acirrados
Se cansem de ladrar à toa
Tão frustrados quanto o dono
A morderem a própria cauda
E a declamarem em uníssono
“O (novo) Noivado do Sepulcro”.

Manuel Veiga

  

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

SORRISO DE PÃ - Em Música de Fundo


Do olhar à paisagem a coleante demora
E a esquiva cor. Neblinas acesas
A despenharem-se nas arribas.
Aladas. Como beijos desfeitos. E o vale
Corpo de mulher…

Potros selvagens. E líquidas promessas.
Orvalhos peregrinos assim expostos
De pétala em pétala. Silvestre a flor.
E os impossíveis dedos. A macerar a pele.

Alaga- se o dia. E o perfume na madura
Polpa. E os lábios murmúrio de água.

Destila o sol por entre nuvens. E a brisa
Agora desperta é toada. E o poeta
Medianeiro. E eco do alvoroço.
E de seus passos.

Sorriso de Pã. Em música de fundo.


Manuel Veiga   





quarta-feira, fevereiro 01, 2017

MEDIA E PODER - Anotações à margem


1 - A configuração do poder é multifacetada. Assume diversas máscaras numa encenação do Mesmo, quer dizer, da articulação dos interesses económicos dominantes, instância última onde reside o verdadeiro rosto (invisível) do Poder.

Primeira consequência: não há apenas um sistema formal de poder, mas uma multiplicidade de sistemas de poder, disseminados no interior da sociedade, muitos dos quais meros poderes fácticos, que dizer, sem qualquer estrutura (visível) que os suporte.

Segunda consequência: nenhum sistema de poder é, em si mesmo, autónomo e independente dos restantes: os diversos sistemas de poder desdobram-se uns nos outros, funcionando em rede, retroagindo nos respectivos chamamentos. Decorre, portanto, que o poder não é apenas o “lugar de poder” que se observe, se ocupe, máxime se conquiste, mas sobretudo uma “relação de poder” que se exerce e se sofre – não há poder, sem “exercício do poder”...

2 - Tradicionalmente o poder de Estado tem assumido o lugar por excelência do “exercício do poder”. Compreende-se. O Estado, nas sociedades politicamente organizadas, detém o monopólio da violência. É o único sistema de poder que se poderá impor pela força e pelo constrangimento físico. Quer dizer, o poder Estado é essencialmente coercivo...

Como é óbvio, a “domesticação” da violência através do poder de Estado representa um avanço histórico incalculável; tal não significa, porém, que a violência não faça parte da sociedade e, em determinados contextos histórico-sociais, não possa ser “parteira” do devir social.

3 - Outros sistemas de poder actuam na sociedade, porém. Não pela coerção, mas pela persuasão; não pela imposição da lei e da ordem ou pela violência física se necessário, mas pelas artimanhas da ideologia. De forma mais subtil. E em imbricada cumplicidade com o poder de Estado. Como acontece com o poder mediático.

É na propagação de uma ideologia que o “poder mediático” se cumpre. Poder mediático que excede o papel dos órgãos da comunicação social e quadro do constitucional direito à informação, para envolver a indústria do entretenimento, as agências de comunicação, a publicidade, o marketing, o consumo, o sistema de moda, o desporto e tantos mais - uma vasta panóplia de meios, que encenam aquilo que alguns designam por “Sociedade do Espectáculo”.

4 - Os meios são diversos. O fito, porém, é sempre o mesmo – a neutralização do poder dos cidadãos, pela aceitação acrítica da ideologia. Então as diversas configurações do poder mediático, em apoteose de efeitos, proclamam a “inevitabilidade” da vida quotidiana, sem qualquer hipótese de remissão.

Seja pela angústia ou pelo medo. Seja pelo hedonismo do consumo e do lazer. Seja pelo culto do “parecer” (mais que o “ser”, ou mesmo o “ter”) o que importa na dita “Sociedade do Espectáculo” é isolar e atomizar o individuo, massificá-lo, desmembra-lo da sua condição de cidadão, inibi-lo na sua autonomia, frustrar a fecundidade da participação social para assim o submeter voluntariamente aos ditames da ideologia dominante e dos interesses económico-financeiros que serve e a justificam.

Como romper o cerco?

Manuel Veiga